Vale registrar um ponto que costuma passar despercebido: praticamente nenhuma recuperação
bem-sucedida veio de uma ação isolada. Quando uma espécie sai de uma categoria de risco mais
severa, quase sempre há por trás um conjunto articulado de proteção legal, fiscalização,
participação de comunidades locais, pesquisa de longo prazo e financiamento estável. A ausência
de qualquer um desses elementos costuma explicar por que outros programas não avançam.
No Brasil, boa parte desse trabalho é organizada em Planos de Ação Nacional para a Conservação
de Espécies Ameaçadas, coordenados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
Cada plano define metas, prazos e responsáveis para um conjunto de espécies que compartilham
território ou ameaças.
Projeto Tamar
Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Tartarugas Marinhas (ICMBio) e Fundação Pró-Tamar · desde 1980
Programa brasileiro de conservação de tartarugas marinhas que atua em bases distribuídas pelo litoral e em ilhas oceânicas, cobrindo as principais áreas de desova e de alimentação do país. O trabalho combina proteção de ninhos na praia, transferência de ovos ameaçados por maré ou iluminação urbana, monitoramento de fêmeas em desova, redução da captura acidental junto a comunidades pesqueiras e programas de educação ambiental nas cidades costeiras.
Resultados registrados. Segundo os balanços divulgados pelo programa, mais de 40 milhões de filhotes foram protegidos e devolvidos ao mar desde a criação, e as cinco espécies que desovam ou se alimentam no litoral brasileiro passaram a ser monitoradas de forma sistemática. A geração de renda em comunidades pesqueiras foi incorporada à estratégia, transformando antigos coletores de ovos em protetores de ninhos.
Fonte: Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Tartarugas Marinhas — ICMBio —
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Programa de conservação do mico-leão-dourado
Associação Mico-Leão-Dourado, com participação de instituições de pesquisa e proprietários rurais · desde 1992
Iniciativa concentrada na bacia do rio São João, no Rio de Janeiro, único lugar do mundo onde a espécie ocorre. Combina reintrodução e translocação de grupos, restauração florestal em propriedades particulares, criação de reservas privadas e construção de corredores que ligam fragmentos isolados de Mata Atlântica, incluindo passagens sobre rodovias usadas pelos grupos para atravessar sem descer ao chão.
Resultados registrados. A população passou de algumas centenas de indivíduos na década de 1970 para vários milhares nas últimas décadas, o que permitiu reclassificar a espécie para uma categoria de risco menos severa. O surto de febre amarela silvestre entre 2016 e 2018 provocou queda acentuada, monitorada anualmente, e reforçou a estratégia de manter a população distribuída em vários núcleos conectados.
Fonte: Associação Mico-Leão-Dourado —
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Programa de reintrodução da ararinha-azul
ICMBio, em cooperação com instituições internacionais de criação em cativeiro e com o município de Curaçá (BA) · desde 2018
Esforço para devolver à natureza uma espécie que sobrevivia apenas em cativeiro. Envolveu o repatriamento de aves mantidas em criadouros no exterior, a criação de duas áreas protegidas na região da caatinga onde a espécie ocorria, a restauração da mata ciliar de caraibeiras usada para nidificação e o preparo dos indivíduos para a vida livre antes das solturas, iniciadas em 2022.
Resultados registrados. As primeiras solturas foram realizadas e o acompanhamento das aves em campo é contínuo, com monitoramento por rádio, alimentação de apoio e vigilância de ninhos artificiais. A situação permanece delicada: a espécie continua classificada como extinta na natureza até que exista população autossustentável.
Fonte: Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul — ICMBio —
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Projeto Arara Azul
Instituto Arara Azul, com apoio de fazendas e pousadas do Pantanal · desde 1990
Trabalho de longo prazo no Pantanal centrado na limitação mais crítica da espécie: a falta de cavidades adequadas para nidificação, agravada pela retirada de árvores de grande porte. O projeto instalou e monitora centenas de ninhos artificiais, acompanha a reprodução ninho a ninho, atua contra a captura de filhotes para o tráfico e envolve proprietários rurais e o turismo de observação de aves na proteção das áreas de reprodução.
Resultados registrados. As estimativas do próprio projeto indicam crescimento expressivo da população pantaneira desde o início dos anos 1990, quando a espécie havia sido reduzida a poucos milhares de indivíduos em toda a área de distribuição. O modelo de ninhos artificiais associado ao monitoramento passou a ser replicado com outros psitacídeos ameaçados.
Fonte: Instituto Arara Azul —
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Projeto Peixe-boi
Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (ICMBio) · desde 1980
Programa dedicado aos mamíferos aquáticos brasileiros, com atuação central no resgate de filhotes de peixe-boi marinho encalhados no litoral do Nordeste, na reabilitação desses animais em centros especializados e na reintrodução em áreas monitoradas. Inclui ainda o mapeamento das áreas de ocorrência, o trabalho com comunidades pesqueiras e o acompanhamento por telemetria dos animais devolvidos à natureza.
Resultados registrados. Dezenas de indivíduos resgatados foram reabilitados e reintroduzidos em áreas de ocorrência histórica, com acompanhamento pós-soltura. O programa também produziu a base de conhecimento que sustenta a delimitação de áreas protegidas marinhas no Nordeste.
Fonte: Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos — ICMBio —
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Projeto Muriqui de Caratinga
Pesquisadores de instituições brasileiras e norte-americanas, em reserva privada em Minas Gerais · desde 1983
Um dos estudos contínuos mais longos já realizados com primatas neotropicais, conduzido em um remanescente de Mata Atlântica em Caratinga, Minas Gerais. O acompanhamento individual dos animais ao longo de décadas permitiu descrever o sistema social pacífico da espécie, calcular taxas de reprodução e sobrevivência e demonstrar como a população responde ao tamanho do fragmento florestal.
Resultados registrados. A população local cresceu de forma expressiva ao longo do período de proteção, chegando a superar a capacidade do fragmento e tornando evidente a necessidade de ampliar e conectar a área. Os dados acumulados sustentam o plano de conservação nacional da espécie.
Fonte: Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas do Nordeste e da Mata Atlântica — ICMBio —
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Projeto Tatu-canastra e Bandeiras & Rodovias
Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) · desde 2010
Duas frentes complementares. A primeira estuda o tatu-canastra no Pantanal e no Cerrado com armadilhas fotográficas e telemetria, tendo produzido as primeiras informações consistentes sobre reprodução, uso de tocas e área de vida de uma espécie que quase nunca é vista. A segunda mapeia atropelamentos de tamanduá-bandeira em rodovias e testa medidas de redução, como sinalização e alterações no entorno da pista.
Resultados registrados. As tocas escavadas pelo tatu-canastra foram documentadas como abrigo utilizado por dezenas de outras espécies, o que reforçou seu papel ecológico. Os dados de atropelamento passaram a subsidiar exigências de mitigação em processos de licenciamento de rodovias.
Fonte: Instituto de Conservação de Animais Silvestres —
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Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira
Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) · desde 1996
Programa de pesquisa e conservação da anta que já atuou na Mata Atlântica, no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia, usando telemetria, armadilhas fotográficas e análise de dieta. Documentou o papel da espécie como dispersora de sementes de grande porte e identificou as principais causas de mortalidade, entre elas atropelamentos em rodovias e caça.
Resultados registrados. Produziu o conjunto de dados que fundamenta o plano de conservação da espécie no país e demonstrou que trechos específicos de rodovia concentram a maior parte dos atropelamentos, o que permite direcionar medidas de mitigação com melhor custo-benefício.
Fonte: Instituto de Pesquisas Ecológicas — Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira —
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Programa de conservação do soldadinho-do-araripe
Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) · desde 2003
Atuação concentrada na encosta úmida da Chapada do Araripe, no Ceará, único lugar do mundo onde a espécie ocorre. O trabalho envolve censo populacional periódico, aquisição e proteção de terras com nascentes usadas para reprodução, restauração da mata ciliar degradada por captação de água e balneários, e articulação com o poder público municipal e estadual.
Resultados registrados. A área de ocorrência da espécie passou a contar com terras protegidas em regime privado e com monitoramento anual da população reprodutiva, o que permitiu acompanhar a resposta da espécie às ações de restauração e identificar as nascentes prioritárias.
Fonte: Aquasis —
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Plano de Ação Nacional para a Conservação do Pato-mergulhão
ICMBio, com instituições de pesquisa e gestores de unidades de conservação · desde 2006
Plano dedicado a uma das aves mais ameaçadas do país, dependente de rios de água corrente, limpa e com corredeiras. Reúne busca de novos casais em bacias pouco amostradas, monitoramento dos núcleos conhecidos, instalação de caixas-ninho, avaliação do impacto de pequenas centrais hidrelétricas e articulação para manter trechos de rio livres de barramento.
Resultados registrados. O plano consolidou o conhecimento sobre os poucos núcleos reprodutivos remanescentes, concentrados em bacias do Cerrado e da Mata Atlântica, e passou a ser referência técnica em processos de licenciamento em rios com registro da espécie.
Fonte: Planos de Ação Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas — ICMBio —
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Programa de recuperação do kakapo
Departamento de Conservação da Nova Zelândia, com apoio de iwi maori e parceiros privados · desde 1989
Considerado um dos programas de conservação mais intensivos do mundo. Todos os indivíduos vivos foram transferidos para ilhas livres de predadores introduzidos, onde cada ave é identificada individualmente, tem a saúde acompanhada e o peso monitorado. Nos anos de frutificação da árvore rimu, quando a espécie se reproduz, há suplementação alimentar, incubação assistida e criação de filhotes com intervenção humana.
Resultados registrados. A população saiu de algumas dezenas de indivíduos na década de 1990 para algumas centenas, com genealogia completa conhecida. O programa demonstrou que a erradicação de predadores introduzidos em ilhas é decisiva para a recuperação de aves insulares que não voam.
Fonte: Kākāpō recovery — Department of Conservation, Nova Zelândia —
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Programa de recuperação do condor-da-califórnia
Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos, com zoológicos e organizações parceiras · desde 1980
Quando restavam poucas dezenas de aves, a decisão de capturar todos os indivíduos remanescentes para reprodução em cativeiro foi controversa, mas evitou a extinção. A reprodução assistida permitiu formar plantel suficiente para iniciar solturas na Califórnia, no Arizona e na Baja California, com monitoramento individual por marcação e telemetria.
Resultados registrados. A população total voltou à casa das centenas de indivíduos, com parcela significativa vivendo em liberdade. O gargalo persistente é o envenenamento por chumbo proveniente de munição em carcaças, o que mantém a necessidade de captura periódica para tratamento.
Fonte: California Condor Recovery Program — U.S. Fish and Wildlife Service —
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Rede de reservas do panda-gigante
Governo da China, com instituições de pesquisa e centros de reprodução · desde 1963
Estratégia baseada na criação de dezenas de reservas nas montanhas do centro da China, na proibição da exploração madeireira em áreas de bambuzal, na conexão de manchas de habitat isoladas e em um programa de reprodução em cativeiro que resolveu problemas históricos de baixa taxa reprodutiva.
Resultados registrados. Censos nacionais sucessivos registraram aumento da população silvestre, o que levou à reclassificação da espécie para uma categoria de risco menos severa em 2016. O caso é citado como demonstração de que investimento contínuo em proteção de habitat produz resultado mensurável, embora a fragmentação entre populações permaneça como problema.
Fonte: Ailuropoda melanoleuca — Lista Vermelha da IUCN —
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Esforço de proteção da vaquita
Governo do México, com comitê internacional de especialistas e organizações de fiscalização · desde 1997
Conjunto de medidas no alto Golfo da Califórnia, único lugar onde a espécie existe: criação de reserva, proibição de redes de emalhe na área de ocorrência, compensação a pescadores, retirada de redes abandonadas e patrulhamento. Uma tentativa de captura de indivíduos para reprodução em cativeiro foi interrompida em 2017 após a morte de um animal capturado.
Resultados registrados. As medidas não foram suficientes para conter o declínio, que segue associado à pesca ilegal do peixe totoaba, cuja bexiga natatória tem alto valor no mercado asiático. O caso é a referência mais citada sobre o custo de reagir tarde: com pouquíssimos indivíduos restantes, nenhuma medida isolada consegue reverter o quadro.
Fonte: Phocoena sinus — Lista Vermelha da IUCN —
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