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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Tamanduá-bandeira

Myrmecophaga tridactyla Linnaeus, 1758

Maior tamanduá do mundo, consome dezenas de milhares de formigas e cupins por dia e é uma das espécies mais atropeladas nas rodovias brasileiras.

Descrição

O tamanduá-bandeira é o maior representante vivo dos tamanduás e um dos animais mais reconhecíveis da fauna sul-americana, pelo focinho alongado, a cauda em forma de bandeira e o andar pesado, apoiado nos punhos.

É uma espécie especializada ao extremo: alimenta-se quase exclusivamente de formigas e cupins, não possui dentes e depende de uma língua estreita e comprida, coberta de saliva viscosa. Essa especialização o torna dependente de ambientes com boa densidade de cupinzeiros e formigueiros, que desaparecem em áreas intensamente manejadas.

O tamanduá-bandeira desapareceu de grande parte da Mata Atlântica e é hoje mais comum no Cerrado, no Pantanal e na Amazônia. A combinação de reprodução lenta, deslocamento vagaroso e ocupação de áreas cortadas por rodovias faz da mortalidade em estradas um problema central para a espécie.

Características físicas

Pelagem grossa e áspera, cinza-escura com uma faixa preta bordada de branco que sai do peito e sobe pelo ombro. A cauda é longa e coberta de pelos compridos, usada como cobertor durante o descanso e como leque para dispersar calor.

As garras dianteiras, que podem chegar a 10 centímetros, são usadas para abrir cupinzeiros duros e como defesa: o animal se apoia nas patas traseiras e desfere golpes capazes de ferir gravemente um predador. Para preservar as garras, caminha apoiado nos punhos, com os dedos dobrados para dentro. A língua chega a 60 centímetros e pode ser projetada mais de 150 vezes por minuto.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento do corpo1,0 a 1,3 m, sem a cauda
Cauda60 a 90 cm
Peso20 a 40 kg, podendo chegar a 50 kg
Consumo diárioestimado em dezenas de milhares de formigas e cupins
Longevidadecerca de 15 anos em vida livre

Habitat

Ocupa savanas, campos, florestas abertas, áreas alagáveis e bordas de floresta densa. Prefere mosaicos: usa áreas abertas para forragear e manchas de vegetação fechada para descansar durante o dia, abrigado do calor e de predadores.

No Cerrado e no Pantanal, encontra as densidades mais altas de cupinzeiros e formigueiros, o que explica a maior abundância nessas regiões. Em áreas de pastagem manejada com fogo frequente e uso de inseticidas, a base alimentar diminui e a espécie desaparece mesmo quando resta cobertura vegetal.

Distribuição geográfica

Distribui-se de Honduras ao norte da Argentina. Já foi extinto em El Salvador, no Uruguai e em áreas extensas do sul do continente, e sua presença na América Central é hoje fragmentada e localizada.

No Brasil, ocorre em todos os biomas, com populações mais consistentes no Cerrado, no Pantanal e na Amazônia. Na Mata Atlântica, restam registros pontuais, e em vários estados do Sudeste e do Sul a espécie é considerada localmente extinta ou reduzida a poucos indivíduos.

Ocorrência registrada em: Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Costa Rica, Panamá e Honduras.

Alimentação

Dieta composta quase inteiramente de formigas e cupins. O animal abre uma pequena fenda no formigueiro ou cupinzeiro com as garras, projeta a língua repetidas vezes e se afasta em poucos minutos, antes que os soldados da colônia se organizem para atacar.

Esse comportamento tem consequência importante: como não destrói o ninho, retorna à mesma colônia depois de algum tempo, o que torna o recurso renovável. Visita dezenas ou centenas de colônias por dia. Não bebe água com frequência, obtendo boa parte da umidade do próprio alimento.

Comportamento

Solitário, com área de vida que varia de poucas centenas de hectares a alguns milhares, conforme a disponibilidade de alimento. O padrão de atividade é flexível: em áreas com perturbação humana, torna-se predominantemente noturno; em áreas protegidas e em dias frios, pode forragear de dia.

A visão é fraca e a audição limitada, mas o olfato é excepcional e orienta praticamente toda a atividade. Ao descansar, cava uma depressão rasa no solo e se cobre com a cauda. Quando ameaçado, primeiro tenta fugir; se acuado, ergue-se sobre as patas traseiras em postura de ataque.

Reprodução

A gestação dura cerca de 190 dias e resulta em um único filhote, raramente dois. O recém-nascido pesa por volta de 1,3 quilo e sobe imediatamente para o dorso da mãe, onde permanece por vários meses, camuflado pelo alinhamento das faixas escuras do próprio corpo com as da mãe.

A independência ocorre entre nove meses e dois anos, e a maturidade sexual entre dois e quatro anos. Uma cria por gestação, com intervalos longos, resulta em uma das taxas de reposição mais baixas entre os mamíferos brasileiros de porte médio: populações reduzidas levam décadas para se recuperar.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa populacional global. A avaliação de risco baseia-se em redução inferida da área de distribuição e em taxas documentadas de mortalidade, e não em contagem de indivíduos. Existem estimativas de densidade para áreas específicas do Pantanal e do Cerrado, obtidas por armadilhas fotográficas, que não podem ser extrapoladas para o total da distribuição.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Atropelamentos e barreiras de infraestrutura

    É uma das espécies mais atropeladas em rodovias brasileiras. O deslocamento lento, o hábito de cruzar a pista sem reação de fuga e a visão fraca aumentam o risco. Em algumas populações do Cerrado, o atropelamento supera todas as outras causas conhecidas de morte.

  • Incêndios e queimadas

    A pelagem grossa e o deslocamento lento tornam o animal especialmente vulnerável ao fogo. Nos grandes incêndios do Pantanal em 2020, tamanduás-bandeira estiveram entre os animais mais encontrados mortos ou com queimaduras graves.

  • Perda e conversão de habitat

    A conversão de cerrado e campos em lavoura e pastagem reduz a disponibilidade de cupinzeiros e formigueiros e elimina as manchas de vegetação usadas para descanso.

  • Caça e abate ilegal

    É caçado para consumo em algumas regiões e morto por medo, por ser considerado perigoso, ou por cães em áreas rurais.

  • Poluição e resíduos

    O uso de inseticidas em larga escala reduz a base alimentar da espécie, efeito indireto e pouco monitorado, mas relevante em paisagens agrícolas.

Importância ecológica

Atua como regulador de populações de formigas e cupins em escala local, sem eliminar colônias, o que o distingue de predadores que destroem ninhos. Ao visitar centenas de colônias, influencia a distribuição e o comportamento desses insetos, que estão entre os principais engenheiros do solo em savanas.

As escavações rasas que faz ao forragear e ao descansar movimentam o solo superficial e criam microambientes usados por invertebrados e pequenos vertebrados.

Projetos de conservação

Projeto Bandeiras e Rodovias · Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS)
Mapeia atropelamentos, identifica trechos críticos e testa medidas de mitigação em rodovias do Cerrado e do Pantanal, com dados usados em processos de licenciamento.
Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Xenartros · ICMBio
Reúne ações para tamanduás, tatus e preguiças ameaçados, com foco em redução de atropelamentos, manejo do fogo e proteção de habitat.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie está no Anexo II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção e integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria vulnerável.

As medidas mais efetivas são de infraestrutura e manejo: passagens de fauna associadas a cercas-guia, redução de velocidade em trechos de maior incidência de atropelamento, manejo integrado do fogo em áreas protegidas do Cerrado e do Pantanal e manutenção de mosaicos de vegetação em propriedades rurais.

Curiosidades

  • Não tem dentes: as formigas e os cupins são triturados por placas queratinizadas no interior da boca e pelo estômago musculoso.
  • As faixas escuras do filhote se alinham com as da mãe quando ele viaja em suas costas, o que dificulta que predadores percebam a presença de dois animais.
  • A temperatura corporal é uma das mais baixas entre os mamíferos, por volta de 32 a 33 graus, adaptação ligada à dieta pobre em energia.
  • Ao contrário do que se supõe, não destrói cupinzeiros: abre pequenas fendas e retorna à mesma colônia dias depois.

Fontes consultadas

  1. Myrmecophaga tridactyla — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2022. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume II: Mamíferos. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Instituto de Conservação de Animais Silvestres — Projeto Bandeiras e Rodovias. ICAS, 2024. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 24 de junho de 2026

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