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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Tatu-canastra

Priodontes maximus (Kerr, 1792)

Maior tatu do mundo, escava tocas profundas que servem de abrigo a dezenas de outras espécies e é raramente visto mesmo onde ocorre.

Descrição

O tatu-canastra é o maior tatu vivo e um dos mamíferos menos conhecidos da América do Sul. Vive em densidade muito baixa, é noturno, silencioso e passa a maior parte do tempo dentro de tocas que ele mesmo escava, o que faz com que quase nunca seja avistado — mesmo em áreas onde está presente, sua ocorrência é frequentemente confirmada apenas por pegadas, tocas e armadilhas fotográficas.

Boa parte do que se sabe sobre sua biologia foi obtido nas duas últimas décadas, com estudos de telemetria e monitoramento fotográfico no Pantanal e no Cerrado. Antes disso, informações básicas como o número de filhotes por gestação e o tempo de dependência da cria eram incertas.

Características físicas

A carapaça é formada por placas ósseas móveis, de cor escura, com faixa clara nas laterais. A cabeça é pequena em relação ao corpo, e o focinho é cônico.

A característica mais notável é a garra da terceira dedo dianteiro, que pode alcançar 20 centímetros — a maior garra proporcional entre os mamíferos vivos. Com ela, o animal rompe cupinzeiros endurecidos e escava tocas em solo compacto. As patas traseiras permitem apoio bípede temporário enquanto as dianteiras escavam.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento do corpo75 cm a 1,0 m, sem a cauda
Caudacerca de 50 cm
Peso18 a 33 kg, com registros próximos de 50 kg
Garra dianteiraaté cerca de 20 cm
Profundidade das tocasde 1 a mais de 4 m de comprimento

Habitat

Ocupa savanas, campos, florestas tropicais e áreas alagáveis, sempre em locais com solo que permita escavação e boa oferta de cupinzeiros. Evita áreas com solo raso ou muito pedregoso e regiões de ocupação humana intensa.

Cada indivíduo escava e utiliza várias tocas dentro de sua área de vida, mudando de abrigo com frequência. As tocas abandonadas permanecem no ambiente por longos períodos e passam a ser usadas por outras espécies, característica que fez a espécie ser descrita como engenheira de ecossistemas.

Distribuição geográfica

Ocorre na América do Sul a leste dos Andes, do norte do continente ao norte da Argentina. A distribuição é ampla, mas a ocupação é esparsa e descontínua, com densidades naturalmente muito baixas.

No Brasil, ocorre na Amazônia, no Cerrado, no Pantanal e em porções da Caatinga, com registros históricos na Mata Atlântica onde hoje é considerado extinto localmente. A espécie desapareceu de áreas extensas do Sudeste e do Sul.

Ocorrência registrada em: Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

Alimentação

Especializado em cupins e formigas, especialmente as espécies que constroem cupinzeiros de solo endurecido. Abre o ninho com as garras dianteiras e consome ovos, larvas e adultos, além de incluir ocasionalmente outros invertebrados.

Um único indivíduo pode consumir o conteúdo de um cupinzeiro inteiro em uma noite. A dependência dessa dieta explica por que a espécie desaparece em paisagens onde os cupinzeiros são removidos ou combatidos com inseticidas.

Comportamento

Estritamente noturno e solitário. Passa cerca de 18 horas por dia dentro da toca e percorre distâncias relativamente curtas durante a atividade noturna. As áreas de vida registradas em estudos no Pantanal e no Cerrado variam de aproximadamente 10 a mais de 50 quilômetros quadrados.

É silencioso e depende sobretudo do olfato para localizar cupinzeiros sob o solo. Não se enrola em bola como outros tatus: quando ameaçado, tenta escavar rapidamente ou fugir. A densidade populacional muito baixa é característica da espécie e não apenas resultado de perseguição.

Reprodução

A reprodução é lenta e ainda pouco documentada. A gestação dura cerca de quatro meses e resulta em um único filhote, raramente dois. O filhote permanece na toca e depende da mãe por vários meses, com registros de dependência prolongada.

Estudos de longa duração no Pantanal estimam intervalos de cerca de três anos entre filhotes de uma mesma fêmea, o que resulta em uma das taxas de reposição mais baixas entre os mamíferos neotropicais. Em populações pequenas, a morte de poucas fêmeas adultas compromete a viabilidade local.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não existe estimativa populacional confiável, global ou nacional. A classificação de risco baseia-se em redução inferida da área de distribuição e em densidades locais muito baixas. Levantamentos por armadilhas fotográficas em áreas protegidas fornecem estimativas de densidade pontuais, insuficientes para calcular um total.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Caça e abate ilegal

    É caçado para consumo em várias regiões da distribuição, e o porte grande com deslocamento lento facilita a captura. Como a reposição populacional é lentíssima, mesmo uma pressão de caça baixa é insustentável.

  • Perda e conversão de habitat

    A conversão de cerrado e de florestas em lavoura e pastagem elimina cupinzeiros e compacta o solo, o que reduz a viabilidade de escavação de tocas.

  • Atropelamentos e barreiras de infraestrutura

    Rodovias que cortam áreas de ocorrência causam mortalidade e isolam populações que já vivem em densidade muito baixa.

  • Incêndios e queimadas

    Incêndios de grande extensão reduzem a base alimentar e podem atingir animais em deslocamento, embora as tocas ofereçam alguma proteção.

  • Tráfico de animais silvestres

    Há registro de captura de indivíduos para venda e para exibição, prática ilegal que atinge especialmente filhotes.

Importância ecológica

As tocas escavadas pelo tatu-canastra são utilizadas por dezenas de outras espécies como abrigo, refúgio contra o fogo e local de descanso ou reprodução — levantamentos com armadilhas fotográficas registraram desde répteis e anfíbios até tamanduás, felinos, roedores e aves usando essas cavidades.

A espécie também influencia a dinâmica de cupins e formigas e movimenta grandes volumes de solo, o que altera a distribuição de nutrientes e a infiltração de água. Por essas duas funções combinadas, é considerada engenheira de ecossistemas em savanas sul-americanas.

Projetos de conservação

Projeto Tatu-canastra · Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS)
Estudo de longa duração no Pantanal e no Cerrado com telemetria e armadilhas fotográficas, que produziu as primeiras informações consistentes sobre reprodução, uso de tocas e área de vida da espécie.
Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Xenartros · ICMBio
Define ações prioritárias para tatus, tamanduás e preguiças ameaçados, incluindo combate à caça e proteção de áreas com registro confirmado da espécie.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

Consta no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, que proíbe o comércio internacional com finalidade comercial, e integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria vulnerável. A caça é crime no Brasil.

A conservação depende de áreas protegidas extensas — dada a baixa densidade, populações viáveis exigem territórios muito grandes —, de fiscalização contra a caça e de manejo que preserve cupinzeiros em propriedades rurais. Registros da espécie são usados como critério de prioridade na criação de novas unidades de conservação no Cerrado.

Curiosidades

  • A garra dianteira é a maior, em proporção ao corpo, entre todos os mamíferos vivos.
  • As tocas abandonadas funcionam como abrigo para dezenas de outras espécies e chegam a ser reutilizadas por anos.
  • Apesar do tamanho, consegue apoiar-se apenas nas patas traseiras e na cauda para liberar as dianteiras durante a escavação.
  • Muitos moradores de áreas onde a espécie ocorre nunca viram um indivíduo, ainda que reconheçam as tocas características.

Fontes consultadas

  1. Priodontes maximus — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2021. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume II: Mamíferos. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Instituto de Conservação de Animais Silvestres — Projeto Tatu-canastra. ICAS, 2024. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 24 de junho de 2026

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