Tartaruga-de-couro
Dermochelys coriacea (Vandelli, 1761)
A maior tartaruga do mundo, com casco coriáceo e capacidade de mergulhos profundos; no Brasil, desova apenas no litoral do Espírito Santo.
- VUVulnerável
- Répteis
- Ocorre no Brasil
- Também chamada de tartaruga-gigante e tartaruga-de-couro-marinha
Descrição
A tartaruga-de-couro é a maior tartaruga do mundo e a única sem casco ósseo rígido: sua carapaça é formada por uma camada coriácea de tecido conjuntivo com milhares de pequenas placas ósseas embutidas, coberta por pele oleosa. Essa estrutura flexível permite mergulhos a mais de mil metros de profundidade.
É também o réptil de distribuição mais ampla do planeta, encontrado de águas tropicais até mares frios próximos ao Ártico, graças a uma capacidade rara entre répteis: mantém a temperatura corporal acima da água ao redor, combinando massa corporal, camada de gordura e trocadores de calor na circulação das nadadeiras.
No Brasil, a situação é particularmente delicada. A espécie desova regularmente apenas no litoral norte do Espírito Santo, com um número muito pequeno de ninhos por temporada, o que justifica a classificação nacional como criticamente em perigo.
Características físicas
É a maior tartaruga viva e um dos maiores répteis atuais. A carapaça é coriácea, escura, com sete quilhas longitudinais proeminentes e formato hidrodinâmico afilado na parte posterior.
As nadadeiras anteriores são desproporcionalmente longas, as maiores em relação ao corpo entre todas as tartarugas marinhas, e não possuem garras. A pele é preta ou cinza-escura com manchas claras. A boca é revestida por projeções cartilaginosas voltadas para trás, que impedem que presas gelatinosas escapem. Não possui placas córneas nem dentes.
| Comprimento de carapaça | 1,3 a 1,8 m, podendo ultrapassar 2 m |
|---|---|
| Peso | 250 a 700 kg |
| Profundidade de mergulho | registros superiores a 1.000 m |
| Postura | cerca de 80 ovos viáveis por ninho, em várias posturas por temporada |
| Maturidade sexual | estimada entre 10 e 30 anos |
Habitat
Vive em mar aberto, percorrendo bacias oceânicas inteiras entre áreas de alimentação em latitudes altas e praias de desova em regiões tropicais e subtropicais.
Alimenta-se em águas frias e produtivas, inclusive próximas a zonas subpolares, onde há grande abundância de organismos gelatinosos. Para reproduzir, retorna a praias de areia com acesso desimpedido ao mar, declive adequado e ausência de recifes na aproximação. A distância entre esses dois ambientes pode ultrapassar dez mil quilômetros por viagem.
Distribuição geográfica
É o réptil de distribuição mais ampla do mundo, presente em todos os oceanos, de águas equatoriais a mares frios de altas latitudes. As principais áreas de desova estão na costa oeste da África, no Caribe, na Guiana Francesa e no Suriname, na Indonésia e em Papua-Nova Guiné.
No Brasil, ocorre em todo o litoral em deslocamento e alimentação, mas a desova regular concentra-se em um trecho estreito do litoral norte do Espírito Santo, na região de Regência e do delta do rio Doce. Ninhos esporádicos são registrados em outros estados. Esse único sítio reprodutivo nacional recebe poucas dezenas de ninhos por temporada.
Ocorrência registrada em: Brasil, Estados Unidos, Canadá, México, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Guiana Francesa, Suriname, Gabão, África do Sul, Indonésia, Papua-Nova Guiné, Austrália, Oceano Atlântico, Oceano Pacífico e Oceano Índico.
Alimentação
Alimenta-se quase exclusivamente de organismos gelatinosos — águas-vivas, salpas e sifonóforos —, um alimento de baixíssimo valor energético que exige consumo diário em grande volume, estimado em várias centenas de quilos para sustentar um adulto.
As projeções cartilaginosas voltadas para trás na boca e no esôfago impedem que essas presas escorregadias escapem, mas não distinguem gelatina de plástico: sacolas e filmes plásticos flutuantes são engolidos com frequência, obstruem o trato digestivo e causam morte por inanição. Essa é uma das ameaças mais diretas à espécie.
Comportamento
Realiza migrações transoceânicas entre áreas de alimentação e praias de desova, com rotas que podem ultrapassar dez mil quilômetros em cada sentido, guiadas por percepção do campo magnético terrestre.
É solitária fora da reprodução. Mergulha rotineiramente a grandes profundidades em busca de camadas de organismos gelatinosos, com registros que ultrapassam mil metros — profundidade incomum para um réptil. A capacidade de manter a temperatura corporal acima da água ao redor permite que se alimente em mares frios onde nenhuma outra tartaruga marinha sobrevive.
Reprodução
As fêmeas retornam a praias próximas àquelas onde nasceram, com intervalos de dois a quatro anos entre temporadas reprodutivas. Em cada temporada, realizam várias posturas espaçadas por cerca de dez dias.
Cada ninho contém em torno de 80 ovos viáveis, acompanhados de ovos menores sem gema, cuja função ainda é debatida. A incubação dura cerca de dois meses, e a temperatura da areia determina o sexo dos filhotes: areias mais quentes produzem mais fêmeas. Apenas uma pequena fração dos filhotes que alcançam o mar chega à idade adulta, o que torna a mortalidade de fêmeas adultas em redes de pesca especialmente danosa.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
Não há estimativa global confiável do número total de indivíduos, e a espécie é monitorada por contagem de fêmeas em desova nas principais praias, indicador que não capta a população em mar aberto. As subpopulações têm trajetórias muito distintas: as do Pacífico oriental e ocidental sofreram declínios superiores a 90% e são consideradas criticamente em perigo, enquanto algumas populações do Atlântico apresentam estabilidade ou recuperação. No Brasil, o número de ninhos por temporada no Espírito Santo é de poucas dezenas.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Sobrepesca e captura acidental
A captura em redes de emalhe, espinhéis e redes de arrasto é a principal causa de mortalidade de adultos e juvenis, e atinge a espécie tanto em águas costeiras quanto em alto-mar.
Poluição e resíduos
A ingestão de plástico flutuante, confundido com águas-vivas, obstrui o trato digestivo e causa morte por inanição. A anatomia da boca e do esôfago impede a regurgitação.
Ocupação e iluminação da costa
A urbanização das praias de desova, com iluminação artificial, tráfego de veículos na areia e estruturas fixas, desorienta filhotes e afasta fêmeas dos locais de postura.
Mudanças climáticas
O aquecimento da areia altera a proporção de sexos dos filhotes, e a elevação do nível do mar reduz a faixa de praia disponível para desova.
Caça e abate ilegal
A coleta de ovos para consumo persiste em várias regiões do mundo e foi historicamente uma das causas do colapso de populações inteiras.
Colisão e ruído de embarcações
Colisões com embarcações causam ferimentos e mortes em áreas costeiras de grande tráfego, sobretudo próximas a sítios de reprodução.
Importância ecológica
Como principal predador de organismos gelatinosos em grande escala, participa do controle de populações de águas-vivas, cuja proliferação excessiva afeta estoques pesqueiros e ecossistemas costeiros.
Transporta nutrientes entre áreas oceânicas distantes e entre o mar e as praias: ovos que não eclodem e restos de ninhos fertilizam a vegetação de dunas e restingas, contribuindo para a estabilidade dessas formações costeiras. Por percorrer bacias oceânicas inteiras, a espécie conecta ecossistemas que, de outra forma, teriam pouca troca de matéria e energia.
Projetos de conservação
- Projeto Tamar · Fundação Pró-Tamar, em parceria com o ICMBio
- Proteção de ninhos no litoral do Espírito Santo, único sítio de desova regular da espécie no Brasil, com monitoramento de praias, transferência de ninhos em risco e trabalho com comunidades e pescadores.
- Medidas de mitigação na pesca de espinhel e emalhe · Órgãos de gestão pesqueira e organizações internacionais de ordenamento
- Adoção de anzóis circulares, dispositivos de escape em redes de arrasto e restrições espaciais e temporais em áreas de maior interação com tartarugas marinhas.
Como a espécie é protegida
A espécie está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção e integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria criticamente em perigo. É também protegida por convenções internacionais sobre espécies migratórias.
No Brasil, a proteção concentra-se no monitoramento das praias de desova do Espírito Santo, com marcação de ninhos, transferência de posturas em risco de inundação e controle da iluminação e do tráfego na faixa de areia. Em mar, dependem de medidas de ordenamento pesqueiro e da adoção de dispositivos que reduzem a captura acidental.
Curiosidades
- É a única tartaruga marinha sem casco ósseo rígido: a carapaça é coriácea e flexível, o que permite mergulhos a mais de mil metros.
- Mantém a temperatura corporal acima da água ao redor, capacidade rara entre répteis, e por isso se alimenta em mares frios de altas latitudes.
- Alimenta-se quase só de águas-vivas e precisa consumir centenas de quilos por dia para sustentar seu tamanho.
- As projeções na boca e no esôfago impedem que presas gelatinosas escapem — e também que plásticos engolidos sejam regurgitados.
- No Brasil, desova regularmente apenas em um trecho do litoral norte do Espírito Santo, com poucas dezenas de ninhos por temporada.
Fontes consultadas
- Dermochelys coriacea — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2013. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume IV: Répteis. ICMBio, 2018. Consultar
- Projeto Tamar — Espécies. Fundação Pró-Tamar, 2024. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 28 de julho de 2026
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