Tartaruga-de-pente
Eretmochelys imbricata (Linnaeus, 1766)
Tartaruga marinha de recifes, caçada por séculos pelas placas do casco usadas em artesanato, e a mais ameaçada das espécies que desovam no Brasil.
- CRCriticamente em perigo
- Répteis
- Ocorre no Brasil
- Também chamada de tartaruga-de-escamas e legítima
Descrição
A tartaruga-de-pente é a espécie de tartaruga marinha mais associada a recifes de coral e a única cujo declínio histórico foi causado principalmente por um produto específico: as placas córneas da carapaça, conhecidas como casco de tartaruga, usadas durante séculos na confecção de pentes, armações de óculos, adornos e objetos decorativos.
A extração dessas placas exigia a morte do animal, e o comércio movimentou milhões de indivíduos globalmente antes de ser proibido internacionalmente. Populações inteiras foram eliminadas, e a recuperação é lenta porque a espécie leva décadas para atingir a maturidade.
No Brasil, a espécie desova principalmente na Bahia e em Sergipe, e o trabalho de proteção de ninhos conduzido desde os anos 1980 elevou o número de posturas registradas. Ainda assim, permanece criticamente em perigo, agora sob pressão de um fator adicional que não existia no passado: a degradação dos recifes de coral de que depende para se alimentar.
Características físicas
Tartaruga marinha de porte médio, com carapaça de placas sobrepostas como telhas — característica que a distingue das demais espécies e origina o nome científico.
As placas apresentam padrão marmoreado de tons âmbar, castanho e preto, com brilho intenso quando polidas, exatamente o atributo que motivou sua exploração comercial. A cabeça é estreita e afilada, terminando em um bico córneo curvo e pontiagudo, semelhante ao de uma ave de rapina, adaptado a extrair alimento de fendas nos recifes. As bordas posteriores da carapaça são serrilhadas nos adultos.
| Comprimento de carapaça | cerca de 70 a 95 cm |
|---|---|
| Peso | 40 a 80 kg |
| Postura | cerca de 130 ovos por ninho, em várias posturas por temporada |
| Incubação | cerca de 55 a 60 dias |
| Maturidade sexual | estimada entre 20 e 35 anos |
Habitat
Está fortemente associada a recifes de coral, costões rochosos e fundos com esponjas, ambientes rasos e estruturalmente complexos onde encontra abrigo e alimento.
Os juvenis passam os primeiros anos em mar aberto, associados a bancos de algas flutuantes, e depois se recrutam para áreas costeiras rasas, onde permanecem por décadas até atingir a maturidade. Para desovar, buscam praias de areia, frequentemente estreitas e com vegetação próxima. A dupla dependência — recifes para alimentação e praias para reprodução — expõe a espécie a pressões distintas em cada fase da vida.
Distribuição geográfica
Distribui-se por águas tropicais e subtropicais de todos os oceanos, com concentração em regiões de recifes de coral. As principais áreas reprodutivas estão no Caribe, no Indo-Pacífico e no oeste do Atlântico.
No Brasil, ocorre em todo o litoral e em ilhas oceânicas. A desova concentra-se no litoral norte da Bahia e em Sergipe, com registros também no Rio Grande do Norte, em Pernambuco e em ilhas oceânicas. As áreas de alimentação incluem recifes do Nordeste, o arquipélago de Fernando de Noronha, o atol das Rocas e costões rochosos do Sudeste.
Ocorrência registrada em: Brasil, México, Cuba, Bahamas, República Dominicana, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Austrália, Indonésia, Filipinas, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Oceano Atlântico, Oceano Índico e Oceano Pacífico.
Alimentação
Alimenta-se principalmente de esponjas marinhas, complementadas por anêmonas, águas-vivas, moluscos e algas. É uma das poucas espécies capazes de consumir esponjas em grande quantidade, incluindo variedades tóxicas ou com espículas silicosas que tornam esses organismos intragáveis para a maioria dos animais.
O bico afilado permite alcançar presas em fendas estreitas dos recifes. Essa especialização faz da espécie um agente relevante na estrutura das comunidades recifais e, ao mesmo tempo, a torna dependente da saúde dos recifes: onde as esponjas desaparecem junto com o coral, a base alimentar se perde.
Comportamento
É solitária fora do período reprodutivo e mantém áreas de alimentação relativamente fixas, às quais retorna com fidelidade por longos períodos. Indivíduos marcados em recifes brasileiros foram reencontrados nas mesmas áreas por anos consecutivos.
Realiza migrações entre áreas de alimentação e praias de desova, que podem estar a centenas ou milhares de quilômetros de distância. É ágil e capaz de manobrar em espaços estreitos entre formações de coral, o que a distingue das demais tartarugas marinhas, mais adaptadas a águas abertas.
Reprodução
As fêmeas desovam em praias de areia, geralmente próximas à vegetação, realizando de três a cinco posturas por temporada com intervalos de cerca de duas semanas. Cada ninho contém em média 130 ovos.
A incubação dura de 55 a 60 dias, e a temperatura da areia define o sexo dos filhotes, com areias mais quentes produzindo mais fêmeas. O intervalo entre temporadas reprodutivas é de dois a cinco anos. A maturidade sexual é tardia, estimada entre 20 e 35 anos — o que significa que os efeitos de qualquer medida de proteção só se tornam mensuráveis décadas depois de implementada. No Brasil, foram registrados casos de cruzamento com outra espécie de tartaruga marinha, fenômeno acompanhado por pesquisas específicas.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
Não há estimativa global confiável do número total de indivíduos. O monitoramento baseia-se em contagens de fêmeas em desova nas principais praias, o que exclui machos e juvenis. As avaliações indicam declínio superior a 80% ao longo de três gerações na maior parte das populações, com base na comparação entre o volume histórico do comércio de placas e os números atuais de desova. No Brasil, o número de ninhos monitorados por temporada cresceu desde o início do trabalho de proteção nos anos 1980.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Tráfico de animais silvestres
O comércio ilegal de artesanato feito com as placas da carapaça persiste em várias regiões do mundo, apesar da proibição internacional, e continua motivando o abate de indivíduos adultos.
Mudanças climáticas
O branqueamento e a mortalidade de corais eliminam o habitat de alimentação. O aquecimento da areia desequilibra a proporção de sexos dos filhotes, e a elevação do nível do mar reduz as praias de desova.
Sobrepesca e captura acidental
A captura em redes de emalhe, currais e espinhéis costeiros mata juvenis e adultos, e a pesca predatória em recifes degrada as áreas de alimentação.
Ocupação e iluminação da costa
A urbanização das praias de desova, com iluminação artificial, construções na faixa de areia e tráfego de veículos, desorienta filhotes e reduz as áreas disponíveis para postura.
Poluição e resíduos
A ingestão de resíduos plásticos e o emaranhamento em petrechos abandonados causam mortalidade, e a poluição costeira degrada os recifes de alimentação.
Caça e abate ilegal
A coleta de ovos para consumo e o abate para consumo da carne ainda ocorrem em parte da área de distribuição.
Importância ecológica
Ao consumir esponjas em grande quantidade, controla organismos que competem por espaço com os corais, favorecendo a manutenção da estrutura dos recifes. A remoção da espécie de um recife altera mensuravelmente a composição das comunidades bentônicas.
Contribui também para o transporte de nutrientes entre o mar e as praias, por meio de ovos e restos de ninhos que fertilizam a vegetação costeira. Recifes saudáveis, por sua vez, protegem o litoral da erosão e sustentam a pesca artesanal, de modo que a conservação da espécie e a das comunidades costeiras estão associadas.
Projetos de conservação
- Projeto Tamar · Fundação Pró-Tamar, em parceria com o ICMBio
- Monitoramento e proteção de ninhos no litoral norte da Bahia e em Sergipe, principais áreas de desova da espécie no Brasil, com envolvimento de comunidades pesqueiras e geração de renda alternativa ao uso de tartarugas.
- Proibição internacional do comércio de casco de tartaruga · Países signatários da Convenção CITES
- Inclusão da espécie no Anexo I, que proíbe o comércio internacional de suas placas, medida que reduziu drasticamente o volume do mercado legal e tornou ilegal a exportação de artesanato feito com o material.
Como a espécie é protegida
A espécie está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, que proíbe o comércio internacional de qualquer parte do animal, e integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria criticamente em perigo.
No Brasil, a proteção combina o monitoramento de praias de desova, com marcação de fêmeas e proteção de ninhos, áreas marinhas protegidas que abrangem recifes usados na alimentação e trabalho contínuo com comunidades costeiras. Campanhas de conscientização de turistas contra a compra de artesanato feito com casco de tartaruga complementam a fiscalização.
Curiosidades
- As placas da carapaça se sobrepõem como telhas, característica que distingue a espécie das demais tartarugas marinhas.
- O bico afilado e curvo, semelhante ao de uma ave de rapina, permite retirar esponjas de fendas estreitas nos recifes.
- Consome esponjas tóxicas e com espículas silicosas que praticamente nenhum outro animal consegue digerir.
- As placas polidas de sua carapaça foram usadas por séculos na confecção de pentes, armações de óculos e objetos decorativos, o que originou seu nome popular.
- Leva de duas a três décadas para atingir a maturidade sexual, de modo que os efeitos de qualquer medida de proteção levam décadas para aparecer nos números.
Fontes consultadas
- Eretmochelys imbricata — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2008. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume IV: Répteis. ICMBio, 2018. Consultar
- Projeto Tamar — Espécies. Fundação Pró-Tamar, 2024. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 28 de julho de 2026
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