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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Mero

Epinephelus itajara (Lichtenstein, 1822)

Maior peixe de recife do Atlântico, protegido por moratória de pesca no Brasil desde 2002, com recuperação lenta e disputada.

Descrição

O mero é o maior peixe ósseo de recife do Atlântico ocidental, capaz de ultrapassar dois metros e trezentos quilos. Cresce devagar, vive várias décadas e reúne-se em agregações reprodutivas previsíveis, sempre nos mesmos locais e nas mesmas épocas do ano.

Essa previsibilidade foi sua ruína. Bastava conhecer os pontos de agregação para capturar dezenas de adultos reprodutores em poucos dias, e a pesca com compressor e arpão eliminou populações inteiras ao longo do litoral brasileiro entre as décadas de 1970 e 1990.

Em 2002, o Brasil instituiu uma moratória proibindo a captura da espécie, renovada desde então. A medida é objeto de disputa constante com setores da pesca, que alegam recuperação suficiente, enquanto pesquisadores apontam que uma espécie que leva de seis a oito anos para atingir a maturidade e depende de manguezais íntegros na fase juvenil precisa de décadas de proteção contínua para se recompor.

Características físicas

Peixe de corpo robusto e alongado, com cabeça larga e boca ampla, capaz de engolir presas inteiras por sucção. A coloração é acastanhada a esverdeada, com manchas escuras irregulares espalhadas pelo corpo e pelas nadadeiras.

Os olhos são pequenos em relação à cabeça, e a nadadeira caudal é arredondada. Juvenis apresentam padrão de faixas mais contrastante, que se dilui com o crescimento. A espécie é hermafrodita protogínica em parte de sua história natural: indivíduos nascem fêmeas e alguns se convertem em machos ao atingir determinado porte — característica que torna a pesca seletiva de grandes exemplares especialmente danosa, por remover justamente os machos reprodutores.

Medidas registradas para a espécie
Comprimentopode ultrapassar 2 m
Pesoregistros acima de 300 kg
Maturidade sexualcerca de 6 a 8 anos
Longevidadeestimada em mais de 35 anos

Habitat

Muda de ambiente ao longo da vida. Os juvenis dependem de manguezais e estuários, onde passam os primeiros cinco a seis anos abrigados entre raízes de mangue, em água salobra e turva.

Os adultos ocupam recifes, costões rochosos, naufrágios e estruturas submersas em profundidades de até cerca de cinquenta metros, com preferência por locais que ofereçam tocas e cavidades amplas. Essa dependência sequencial de dois ambientes distintos significa que a destruição de manguezais compromete a espécie mesmo onde os recifes estão preservados.

Distribuição geográfica

Ocorre no Atlântico ocidental, do sudeste dos Estados Unidos ao sul do Brasil, e em parte da costa oeste africana. As populações mais bem monitoradas estão na Flórida e no Golfo do México.

No Brasil, distribui-se do Amapá a Santa Catarina, com concentrações históricas em áreas de recifes e manguezais do Nordeste, em estruturas submersas do Sudeste e em estuários do Sul. Várias agregações reprodutivas conhecidas desapareceram após décadas de pesca dirigida, e a recolonização de áreas onde a espécie foi eliminada tem sido lenta.

Ocorrência registrada em: Brasil, Estados Unidos, México, Cuba, Bahamas, Belize, Honduras, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Guiana Francesa, Senegal e Nigéria.

Alimentação

Alimenta-se principalmente de crustáceos, especialmente caranguejos e lagostas, complementados por peixes, polvos e outros invertebrados. Captura as presas por sucção: abre rapidamente a enorme boca, gerando um fluxo de água que arrasta o alimento inteiro.

Não persegue presas em nado rápido; é um predador de emboscada que aguarda junto a tocas e estruturas. Em manguezais, os juvenis consomem caranguejos e camarões, ocupando posição de predador relevante nesse ambiente antes de migrar para os recifes.

Comportamento

É territorial e sedentário na fase adulta, ocupando tocas e cavidades específicas às quais retorna com fidelidade. Indivíduos podem permanecer anos na mesma estrutura submersa.

É curioso e pouco arisco em relação a mergulhadores, comportamento que o torna atração em pontos de mergulho e, ao mesmo tempo, presa fácil para arpoadores. Emite sons graves produzidos pela bexiga natatória, usados em comunicação territorial e durante as agregações reprodutivas — ruído perceptível a distância debaixo d'água e utilizado por pesquisadores no monitoramento acústico das agregações.

Reprodução

Reproduz-se em agregações sazonais que reúnem dezenas ou centenas de indivíduos em locais específicos, geralmente entre o fim do verão e o início do outono, sempre nos mesmos pontos ao longo dos anos.

A fecundação é externa, com liberação de ovos e esperma na coluna d'água. As larvas permanecem no plâncton por algumas semanas antes de se estabelecerem em manguezais, onde crescem por anos até atingirem porte suficiente para migrar aos recifes. A maturidade sexual chega entre seis e oito anos, e a previsibilidade das agregações torna a espécie extremamente vulnerável à pesca dirigida durante o período reprodutivo.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa do número total de indivíduos. O acompanhamento é feito por contagens em agregações reprodutivas conhecidas, por registros de mergulho e por monitoramento acústico. Os dados indicam recuperação parcial em algumas áreas protegidas, sobretudo em estruturas submersas do Sudeste e em unidades de conservação marinhas, e ausência persistente em trechos onde a espécie foi eliminada. A avaliação global foi revista de criticamente em perigo para vulnerável em função de sinais de recuperação em parte da distribuição, mas a avaliação brasileira mantém a categoria mais severa.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Sobrepesca e captura acidental

    A pesca dirigida às agregações reprodutivas, com arpão e compressor, eliminou populações inteiras e continua ocorrendo de forma ilegal em parte do litoral, apesar da moratória.

  • Perda e conversão de habitat

    A destruição de manguezais por aterro, carcinicultura e expansão urbana elimina o berçário do qual os juvenis dependem por vários anos antes de migrar para os recifes.

  • Poluição e resíduos

    Efluentes urbanos e industriais degradam estuários e áreas costeiras, reduzindo a qualidade das áreas de criação e de alimentação.

  • Mudanças climáticas

    O branqueamento de corais e a alteração das condições costeiras afetam a estrutura dos recifes que abrigam os adultos.

  • Conflito com atividades humanas

    A pressão de setores da pesca pela revogação da moratória gera insegurança regulatória e episódios de captura em áreas onde a fiscalização é frágil.

Importância ecológica

Como predador de topo de recifes, regula populações de crustáceos e peixes e influencia a estrutura das comunidades recifais. A remoção de grandes predadores de recife altera a composição das assembleias de peixes e pode favorecer a proliferação de espécies que danificam corais.

A espécie é também um elo funcional entre manguezais e recifes, transportando biomassa entre esses dois ambientes ao longo de seu ciclo de vida. Do ponto de vista econômico, indivíduos vivos em pontos de mergulho geram renda recorrente para operadoras de turismo, valor que se perde inteiramente com a captura.

Projetos de conservação

Moratória de pesca do mero · Órgãos ambientais e de pesca do governo brasileiro
Proibição da captura, do transporte e da comercialização da espécie em águas brasileiras, instituída em 2002 e renovada desde então, acompanhada de monitoramento científico da recuperação.
Monitoramento de agregações reprodutivas · Instituições de pesquisa e organizações de conservação marinha
Identificação e acompanhamento de locais de agregação por censo visual e monitoramento acústico, com envolvimento de operadoras de mergulho e comunidades pesqueiras na proteção desses pontos.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria criticamente em perigo e está sujeita à moratória de pesca em águas brasileiras, que proíbe captura, transporte e comercialização.

A proteção complementar vem de unidades de conservação marinhas que abrangem recifes e estruturas usadas pela espécie, e da proteção legal dos manguezais como áreas de preservação permanente — condição essencial para a fase juvenil. A efetividade depende de fiscalização em pontos de agregação durante o período reprodutivo e da continuidade da moratória por prazo compatível com o ciclo de vida da espécie.

Curiosidades

  • É o maior peixe ósseo de recife do Atlântico ocidental e pode ultrapassar trezentos quilos.
  • Captura presas por sucção: abre a boca rapidamente e engole o alimento inteiro junto com um jato de água.
  • Emite sons graves com a bexiga natatória, audíveis a distância debaixo d'água e usados por pesquisadores para localizar agregações.
  • Os juvenis passam os primeiros cinco a seis anos de vida entre raízes de mangue antes de migrar para os recifes.
  • Indivíduos nascem fêmeas e alguns se tornam machos ao atingir determinado porte, o que torna a pesca de grandes exemplares especialmente danosa.

Fontes consultadas

  1. Epinephelus itajara — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2018. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume VI: Peixes. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Portaria de proteção do mero. Ministério do Meio Ambiente, 2022. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 6 de agosto de 2026

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