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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Tubarão-martelo-recortado

Sphyrna lewini (Griffith & Smith, 1834)

Tubarão de cabeça em formato de martelo que sofreu declínio superior a 80%, alvo do comércio internacional de barbatanas.

Descrição

O tubarão-martelo-recortado é uma das espécies de tubarão que mais sofreram declínio nas últimas décadas. Forma cardumes de dezenas ou centenas de indivíduos ao redor de montes submarinos e ilhas oceânicas, comportamento incomum entre tubarões de grande porte e que o torna especialmente vulnerável à pesca.

Suas barbatanas estão entre as mais valorizadas no comércio internacional, o que sustenta a captura dirigida em várias regiões do mundo. Somada à captura acidental em redes e espinhéis e à pesca de juvenis em áreas costeiras de berçário, a pressão levou a reduções populacionais estimadas em mais de 80% em grande parte da distribuição.

No Brasil, a espécie utiliza áreas costeiras rasas como berçário, o que expõe filhotes e juvenis à pesca artesanal com redes de emalhe. A avaliação nacional a classifica como criticamente em perigo.

Características físicas

A característica definidora é a cabeça achatada e expandida lateralmente em formato de martelo, com a borda frontal apresentando recortes e uma reentrância central — detalhe que distingue esta espécie das demais do grupo.

Os olhos e as narinas ficam nas extremidades dessa expansão, o que amplia o campo de visão e melhora a capacidade de localizar a origem de estímulos químicos e elétricos na água. A coloração é cinza-acastanhada no dorso e clara no ventre. A primeira nadadeira dorsal é alta e falciforme. Fêmeas atingem tamanho maior que machos.

Medidas registradas para a espécie
Comprimentogeralmente 2,5 a 3,5 m; registros próximos de 4 m
Pesopode ultrapassar 150 kg
Gestaçãocerca de 9 a 12 meses
Ninhadageralmente 15 a 30 filhotes
Maturidade sexualcerca de 10 a 15 anos

Habitat

Ocupa águas costeiras e oceânicas de regiões tropicais e temperadas quentes, da superfície a algumas centenas de metros de profundidade.

Adultos concentram-se em torno de montes submarinos, ilhas oceânicas e bordas de plataforma continental, onde formam cardumes durante o dia. Fêmeas prenhes deslocam-se para áreas costeiras rasas — baías, estuários e trechos de praia — que funcionam como berçários, onde os filhotes permanecem por meses ou anos antes de migrar para águas mais profundas. Essa separação entre habitat adulto e berçário expõe a espécie a dois tipos distintos de pesca.

Distribuição geográfica

Distribui-se de forma circumglobal em águas tropicais e temperadas quentes de todos os oceanos, com concentrações notáveis em torno de ilhas oceânicas do Pacífico oriental, como Galápagos, Cocos e Malpelo, onde formam grandes cardumes.

No Brasil, ocorre ao longo de todo o litoral, com áreas de berçário identificadas em trechos costeiros do Nordeste, Sudeste e Sul. A ocorrência em águas rasas durante os primeiros anos de vida faz com que a maior parte dos indivíduos capturados no país seja composta por juvenis, o que compromete a reposição da população adulta.

Ocorrência registrada em: Brasil, Estados Unidos, México, Costa Rica, Equador, Colômbia, Panamá, Austrália, Indonésia, Filipinas, África do Sul, Moçambique, Oceano Atlântico, Oceano Pacífico e Oceano Índico.

Alimentação

Alimenta-se de peixes ósseos, lulas, polvos, crustáceos e raias, além de tubarões menores. A dieta varia com a idade: juvenis em áreas costeiras consomem peixes pequenos e crustáceos, enquanto adultos capturam presas maiores em águas mais profundas.

A cabeça expandida abriga uma distribuição ampla de receptores capazes de detectar campos elétricos gerados por animais, o que permite localizar presas enterradas na areia. Raias figuram entre as presas preferidas, e indivíduos com ferrões de raia alojados na cabeça e na boca são registrados com frequência, sem aparente prejuízo.

Comportamento

É uma das poucas espécies de tubarão de grande porte a formar cardumes numerosos, comportamento observado principalmente durante o dia ao redor de montes submarinos e ilhas oceânicas, com dispersão noturna para alimentação individual.

Realiza migrações sazonais e mergulhos profundos, alternando entre águas superficiais e camadas mais frias. O comportamento gregário, que provavelmente evoluiu em resposta a fatores sociais e reprodutivos, tornou-se uma desvantagem diante da pesca industrial: um único lance sobre um cardume pode capturar dezenas de indivíduos maduros.

Reprodução

É vivíparo, com desenvolvimento dos embriões ligados à fêmea por uma estrutura semelhante a placenta. A gestação dura de nove a doze meses e resulta em ninhadas geralmente de quinze a trinta filhotes.

As fêmeas dão à luz em áreas costeiras rasas que funcionam como berçários, onde os juvenis permanecem protegidos de predadores maiores. A maturidade sexual chega tarde, entre dez e quinze anos, e o intervalo entre gestações é de um a dois anos. Esse conjunto — maturação tardia, poucos filhotes, ciclo longo — é o que impede a espécie de suportar pressão de pesca elevada, mesmo moderada.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa do número total de indivíduos. As avaliações baseiam-se em séries de captura por unidade de esforço em pescarias e em censos visuais em ilhas oceânicas, que indicam reduções superiores a 80% ao longo de três gerações na maior parte da distribuição. Algumas regiões com proteção efetiva mostram estabilização local, mas a tendência global permanece de declínio acentuado.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Sobrepesca e captura acidental

    A pesca dirigida e a captura acidental em espinhéis, redes de emalhe e cerco são a principal causa do declínio. O comportamento de formar cardumes permite capturas massivas em um único lance.

  • Tráfico de animais silvestres

    Suas barbatanas estão entre as mais valorizadas no comércio internacional, o que mantém o incentivo econômico à captura mesmo onde a pesca é regulada.

  • Perda e conversão de habitat

    A degradação de áreas costeiras rasas usadas como berçário, por urbanização, dragagem e destruição de manguezais, reduz a sobrevivência de filhotes e juvenis.

  • Poluição e resíduos

    Contaminantes acumulam-se ao longo da cadeia alimentar e atingem concentrações elevadas em predadores de topo, com efeitos sobre reprodução e imunidade.

  • Mudanças climáticas

    Alterações na temperatura e na distribuição de presas modificam as rotas de migração e o uso de áreas de berçário.

Importância ecológica

Como predador de topo, influencia a abundância e o comportamento de presas em ecossistemas costeiros e oceânicos. A remoção de grandes tubarões desencadeia efeitos em cascata documentados, como o aumento de populações de raias e de peixes de porte médio, com consequências sobre invertebrados bentônicos e sobre a estrutura de comunidades recifais.

Agregações da espécie em ilhas oceânicas sustentam turismo de mergulho de alto valor em várias regiões do mundo, atividade que gera receita recorrente e depende diretamente da presença dos animais vivos.

Projetos de conservação

Inclusão no Anexo II da Convenção CITES · Países signatários da convenção
Regulação do comércio internacional de barbatanas e demais produtos da espécie, com exigência de comprovação de origem legal e sustentável para exportação.
Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Tubarões e Raias Ameaçados · ICMBio
Instrumento brasileiro que define medidas de ordenamento pesqueiro, proteção de áreas de berçário e monitoramento das capturas em pescarias industriais e artesanais.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria criticamente em perigo, o que proíbe sua captura, transporte e comercialização em território brasileiro, e está no Anexo II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção.

A legislação brasileira também proíbe a prática de retirar barbatanas e descartar o corpo do animal no mar. A efetividade depende de fiscalização das pescarias, de identificação correta das espécies desembarcadas — as várias espécies de tubarão-martelo são difíceis de distinguir depois de processadas — e da proteção de áreas costeiras usadas como berçário.

Curiosidades

  • A cabeça em formato de martelo amplia o campo de visão e abriga receptores capazes de detectar campos elétricos de presas enterradas na areia.
  • É uma das poucas espécies de tubarão de grande porte a formar cardumes numerosos, com dezenas ou centenas de indivíduos.
  • Indivíduos são frequentemente encontrados com ferrões de raia alojados na cabeça, aparentemente sem prejuízo.
  • As fêmeas dão à luz em águas costeiras rasas, e os juvenis permanecem nesses berçários por meses antes de migrar para o mar aberto.
  • Leva de dez a quinze anos para atingir a maturidade sexual, o que impede a reposição rápida diante da pesca.

Fontes consultadas

  1. Sphyrna lewini — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2018. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume VI: Peixes. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 6 de agosto de 2026

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