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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Esturjão-beluga

Huso huso (Linnaeus, 1758)

Maior peixe de água doce do mundo, quase extinto pela pesca para produção de caviar e pelo represamento dos rios de desova.

Descrição

O esturjão-beluga é o maior peixe de água doce do mundo e pertence a uma linhagem que existe há mais de 200 milhões de anos, com forma corporal pouco alterada desde então. Exemplares históricos ultrapassaram cinco metros e mais de mil quilos.

Seu declínio tem duas causas que se reforçam. A primeira é o caviar: as ovas da espécie são as mais valorizadas do mundo, e a extração exige a morte de fêmeas que levam cerca de vinte anos para amadurecer. A segunda é o represamento dos grandes rios que desaguam nos mares Cáspio e Negro, que bloqueou o acesso às áreas de desova sobre leitos de cascalho, rio acima.

Hoje, a reprodução natural é considerada mínima ou inexistente em grande parte da distribuição histórica, e as populações remanescentes dependem em larga medida de repovoamento a partir de criatórios — situação que mantém indivíduos na água, mas não uma população autossustentável.

Características físicas

Peixe de corpo alongado e fusiforme, com esqueleto majoritariamente cartilaginoso e cinco fileiras longitudinais de placas ósseas, chamadas escudos, ao longo do corpo — estrutura arcaica que distingue o grupo.

O focinho é comprido e pontiagudo nos jovens, tornando-se mais curto e rombudo nos adultos. Na face ventral do focinho há quatro barbilhões sensoriais usados para localizar presas no fundo, e a boca, também ventral, é protrátil e desprovida de dentes nos adultos. A nadadeira caudal é assimétrica, com o lobo superior mais longo, como nos tubarões. A coloração é acinzentada no dorso e esbranquiçada no ventre.

Medidas registradas para a espécie
Comprimentocomumente 2 a 3,5 m; registros históricos acima de 5 m
Pesoregistros históricos acima de 1.000 kg
Maturidade sexualcerca de 15 a 20 anos nas fêmeas
Longevidadeestimada em mais de 100 anos

Habitat

É anádromo: passa a maior parte da vida em mares interiores e estuários e sobe grandes rios para desovar em trechos de correnteza sobre leitos de cascalho e pedra.

Os adultos ocupam águas profundas dos mares Cáspio, Negro e Azov, onde se alimentam. As áreas de desova ficam centenas de quilômetros rio acima, no Volga, no Danúbio, no Ural e em outros grandes cursos d'água. O bloqueio desses trechos por barragens eliminou a maior parte dos sítios reprodutivos historicamente utilizados, e os que restam acessíveis são poucos e degradados.

Distribuição geográfica

Ocorre nas bacias dos mares Cáspio, Negro e Azov, e no Adriático, com migrações reprodutivas para os grandes rios que desaguam nesses mares — Volga, Ural, Danúbio, Don e Dniepre, entre outros.

A distribuição efetiva encolheu drasticamente. Populações do Adriático estão praticamente extintas, e no mar Negro a reprodução natural restringe-se a um trecho inferior do Danúbio. No Cáspio, a maior parte das áreas de desova históricas do Volga ficou inacessível após a construção de barragens, e a população depende de repovoamento a partir de criatórios.

Ocorrência registrada em: Rússia, Cazaquistão, Turquia, Itália e Grécia.

Alimentação

Adultos são predadores e alimentam-se principalmente de peixes, além de crustáceos e moluscos capturados no fundo. É o único esturjão predominantemente piscívoro na fase adulta, característica ligada ao seu grande porte.

Jovens consomem invertebrados bentônicos e pequenos peixes. Os barbilhões sensoriais na face ventral do focinho detectam presas enterradas no substrato, e a boca protrátil é projetada para sugá-las. Durante a migração reprodutiva, os adultos reduzem drasticamente a alimentação e dependem das reservas acumuladas.

Comportamento

É migratório e realiza deslocamentos de centenas de quilômetros entre áreas de alimentação marinha e sítios de desova fluviais, com movimentos que se repetem em intervalos de vários anos.

Vive predominantemente junto ao fundo, em águas profundas, e tem hábitos discretos. A longevidade excepcional — indivíduos podem ultrapassar um século — significa que uma única fêmea contribui para a reprodução ao longo de muitas décadas, e que a remoção de adultos maduros tem efeito prolongado sobre a população.

Reprodução

As fêmeas atingem a maturidade sexual por volta dos quinze a vinte anos e reproduzem-se em intervalos de quatro a sete anos, não anualmente. A desova ocorre em trechos de rio com correnteza forte e fundo de cascalho, onde os ovos aderem ao substrato.

Uma fêmea de grande porte pode produzir centenas de milhares a milhões de ovos por desova. Os juvenis descem o rio rumo ao mar nos primeiros meses ou anos de vida. A combinação de maturação tardia, reprodução intermitente e necessidade de acesso a trechos específicos de rio torna a espécie incompatível com pesca intensiva e com rios barrados.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa confiável do número de indivíduos maduros em ambiente natural, e as avaliações indicam declínio superior a 90% ao longo de três gerações. Um dado é particularmente esclarecedor: boa parte dos indivíduos capturados em levantamentos recentes tem origem em repovoamento a partir de criatórios, e a reprodução natural é considerada mínima ou ausente na maior parte da distribuição histórica.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.

Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Sobrepesca e captura acidental

    A pesca para extração de ovas destinadas à produção de caviar, incluindo captura ilegal persistente, remove justamente as fêmeas maduras, que levam cerca de duas décadas para atingir essa condição.

  • Barragens e alteração dos rios

    Barragens nos grandes rios bloquearam o acesso à maior parte das áreas históricas de desova sobre leitos de cascalho, tornando a reprodução natural inviável em grande parte da distribuição.

  • Tráfico de animais silvestres

    O comércio ilegal de caviar, com falsificação de rótulos e de documentos de origem, sustenta a captura clandestina mesmo onde a pesca é proibida.

  • Poluição e resíduos

    Efluentes industriais, agrícolas e da extração de petróleo no mar Cáspio degradam a qualidade da água e afetam a reprodução e o desenvolvimento larval.

  • Mineração e garimpo

    A extração de areia e cascalho nos leitos dos rios destrói fisicamente os substratos necessários para a fixação dos ovos.

Importância ecológica

Como predador de topo dos mares interiores onde vive, influencia populações de peixes e a estrutura das comunidades aquáticas. Sua migração conecta ecossistemas marinhos e fluviais, transportando nutrientes rio acima.

Representa ainda uma linhagem evolutiva muito antiga, com traços anatômicos que remontam a formas de mais de duzentos milhões de anos. A perda de espécies desse grupo elimina ramos inteiros da diversidade dos peixes, com valor evolutivo que não é substituído pela sobrevivência de espécies mais recentes.

Projetos de conservação

Controle internacional do comércio de caviar · Países signatários da Convenção CITES
Sistema de rotulagem universal obrigatória para caviar, cotas de exportação e suspensão do comércio de caviar de origem selvagem, medidas destinadas a separar produto legal de origem ilegal.
Programas de repovoamento e passagem para peixes · Órgãos ambientais dos países da bacia do Cáspio e do Danúbio
Produção de juvenis em criatórios para soltura nos rios, associada a projetos de restauração de habitat de desova e de melhoria da transposição de barragens.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie está no Anexo II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, com sistema específico de rotulagem obrigatória para caviar, e o comércio internacional de caviar de origem selvagem está suspenso.

Vários países da área de distribuição instituíram moratórias de pesca. A dificuldade persistente é dupla: o valor extremamente alto do produto sustenta o mercado ilegal, e o repovoamento com juvenis de criatório, embora mantenha indivíduos na água, não resolve o problema estrutural do acesso bloqueado às áreas de desova.

Curiosidades

  • É o maior peixe de água doce do mundo, com registros históricos acima de cinco metros e mil quilos.
  • Pertence a uma linhagem que existe há mais de duzentos milhões de anos, com forma corporal pouco alterada desde então.
  • Pode ultrapassar um século de vida, e as fêmeas só atingem a maturidade por volta dos vinte anos.
  • As ovas dão origem ao caviar mais valorizado do mundo, e sua extração exige a morte da fêmea.
  • O esqueleto é majoritariamente cartilaginoso e o corpo é protegido por cinco fileiras de placas ósseas.

Fontes consultadas

  1. Huso huso — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2022. Consultar
  2. Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar
  3. Sturgeon conservation. World Wide Fund for Nature, 2023. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 10 de agosto de 2026

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