Salamandra-gigante-da-china
Andrias davidianus (Blanchard, 1871)
O maior anfíbio do mundo, com quase dois metros de comprimento, praticamente extinto em ambiente natural pela criação comercial para consumo.
- CRCriticamente em perigo
- Anfíbios
- Também chamada de salamandra-gigante-chinesa
Descrição
A salamandra-gigante-da-china é o maior anfíbio vivo do planeta, com registros que se aproximam de dois metros de comprimento. Pertence a uma linhagem antiga, cujos fósseis remontam a dezenas de milhões de anos com forma corporal praticamente inalterada.
Sua situação atual é peculiar e grave. Existem hoje milhões de indivíduos em fazendas comerciais na China, criados para consumo como iguaria de alto valor. Ao mesmo tempo, levantamentos extensivos em rios de toda a área histórica de distribuição encontraram pouquíssimos animais selvagens — e boa parte dos que foram encontrados provinha de solturas de exemplares de criação.
Essa combinação criou um problema adicional. Estudos genéticos revelaram que o que era tratado como uma única espécie corresponde, na verdade, a várias linhagens distintas associadas a diferentes bacias hidrográficas. As solturas indiscriminadas de animais de fazenda misturaram essas linhagens, comprometendo populações que haviam evoluído isoladas por milhões de anos.
Características físicas
Anfíbio de corpo maciço, achatado e alongado, com pele enrugada e coberta de tubérculos, em tons acastanhados e cinzentos com manchas irregulares que servem de camuflagem sobre pedras.
A cabeça é larga e achatada, com boca ampla e olhos muito pequenos, sem pálpebras. Não possui brânquias na fase adulta: respira principalmente pela pele, e as pregas cutâneas laterais aumentam a superfície disponível para as trocas gasosas. As patas são curtas e robustas, e a cauda, comprimida lateralmente, corresponde a cerca de um terço do comprimento total.
| Comprimento | geralmente 1,1 m; registros históricos próximos de 1,8 m |
|---|---|
| Peso | pode ultrapassar 50 kg |
| Postura | várias centenas de ovos por desova |
| Longevidade | estimada em mais de 50 anos |
Habitat
Vive em rios e riachos de montanha com água fria, corrente, bem oxigenada e transparente, com fundo rochoso e abundância de tocas e cavidades submersas.
Depende de água com temperatura relativamente baixa e alto teor de oxigênio dissolvido, condição direta da respiração cutânea. Ocupa altitudes entre algumas centenas e mais de mil metros, em áreas de floresta ou vegetação preservada nas encostas. Represamentos, mineração e desmatamento nas cabeceiras alteram temperatura, turbidez e oxigenação, tornando trechos inteiros inabitáveis.
Distribuição geográfica
Historicamente distribuída por rios de montanha em grande parte do centro, sul e leste da China, nas bacias dos rios Amarelo, Yangtzé e Pérola.
A distribuição atual em ambiente natural é residual e fragmentada. Levantamentos de campo em larga escala conduzidos em dezenas de localidades ao longo de toda a área histórica encontraram um número muito pequeno de animais selvagens, vários deles geneticamente identificados como oriundos de criação. Estudos genéticos indicam que a distribuição original abrigava linhagens distintas por bacia, algumas das quais podem já ter desaparecido em vida livre.
Ocorrência registrada em: China.
Alimentação
É predador de emboscada e alimenta-se de peixes, crustáceos, insetos aquáticos, moluscos, anfíbios menores e ocasionalmente pequenos mamíferos que caem na água.
Caça à noite, permanecendo imóvel junto ao fundo e capturando presas com um movimento lateral rápido da cabeça que gera sucção. Como os olhos são pequenos e a água dos rios de montanha é escura à noite, depende de receptores sensoriais na pele que detectam vibrações e movimentos na água — sistema que compensa a visão limitada.
Comportamento
É noturna e solitária, permanecendo durante o dia abrigada em cavidades sob rochas e barrancos submersos. Machos defendem essas cavidades, que funcionam como locais de reprodução.
Tem metabolismo lento e pode passar longos períodos sem se alimentar. A respiração é feita quase inteiramente pela pele, o que restringe a espécie a águas frias e bem oxigenadas e a torna extremamente sensível à poluição dissolvida. Emite vocalizações que, segundo relatos tradicionais, lembram o choro de uma criança — origem do nome pelo qual é conhecida em chinês.
Reprodução
A reprodução ocorre no final do verão, em cavidades submersas defendidas por machos. A fêmea deposita várias centenas de ovos em cordões, e o macho realiza a fecundação externa e permanece guardando a desova.
O cuidado parental exercido pelo macho é prolongado: ele protege os ovos contra predadores, inclusive contra outros indivíduos da espécie, e movimenta a água para garantir oxigenação até a eclosão, que ocorre após cerca de dois meses. As larvas possuem brânquias externas, perdidas ao longo do desenvolvimento. A maturidade sexual chega por volta dos cinco a seis anos.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
Não há estimativa confiável da população selvagem, e o mais provável é que ela seja extremamente reduzida. Levantamentos de campo em larga escala realizados em dezenas de sítios ao longo de toda a área histórica localizaram pouquíssimos indivíduos, boa parte deles geneticamente compatível com animais de criação. Em contraste, o plantel comercial em fazendas chinesas é contado em milhões de indivíduos, o que não representa conservação da espécie em sentido biológico, já que essas populações são geneticamente misturadas e não ocupam o ambiente natural.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.
Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Caça e abate ilegal
A captura de indivíduos selvagens para consumo como iguaria de alto valor e para abastecer fazendas de criação com reprodutores é a causa direta do colapso das populações naturais.
Barragens e alteração dos rios
A construção de barragens em rios de montanha transforma trechos de corredeira em reservatórios de água parada e mais quente, inadequados para uma espécie que respira pela pele.
Poluição e resíduos
Efluentes agrícolas, industriais e de mineração reduzem o oxigênio dissolvido e introduzem substâncias absorvidas diretamente pela pele do animal.
Mineração e garimpo
A extração mineral e de areia nos leitos aumenta a turbidez, destrói as cavidades usadas como abrigo e reprodução e altera o fundo rochoso.
Doenças emergentes
Patógenos disseminados em fazendas de criação, incluindo ranavírus, podem alcançar populações selvagens por meio de solturas de animais não testados.
Espécies exóticas invasoras
A soltura de animais de criação geneticamente misturados em rios com linhagens locais distintas compromete populações que evoluíram isoladas por milhões de anos.
Importância ecológica
Como predador de topo de rios de montanha, regula populações de peixes e invertebrados aquáticos em ecossistemas onde poucos outros animais ocupam esse papel.
É também um indicador rigoroso de qualidade de água: por respirar pela pele, não tolera trechos poluídos, turvos ou aquecidos. Do ponto de vista evolutivo, representa uma linhagem antiga e distinta, cuja perda significaria a eliminação de um ramo inteiro da árvore dos anfíbios, com valor filogenético que não é reposto pela sobrevivência de espécies aparentadas.
Projetos de conservação
- Levantamento nacional de salamandras-gigantes · Instituições de pesquisa chinesas e internacionais
- Amostragem sistemática de rios em toda a área histórica de distribuição, com análise genética dos indivíduos encontrados, que revelou a existência de múltiplas linhagens e a origem cativa da maioria dos animais localizados.
- Reservas naturais para salamandras-gigantes · Governo da China
- Áreas protegidas estabelecidas em trechos de rios de montanha da área de distribuição histórica, com restrição à pesca e ao acesso, e programas de soltura que passaram a exigir triagem genética e sanitária.
Como a espécie é protegida
A espécie está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção e recebe proteção de primeira categoria pela legislação chinesa de vida selvagem.
A legislação permite a criação comercial, o que gera uma tensão central: o plantel de fazendas é imenso, mas geneticamente misturado, e as solturas realizadas sem triagem agravaram o problema em vez de resolvê-lo. As recomendações técnicas atuais apontam para a identificação e proteção das linhagens remanescentes, a triagem genética e sanitária obrigatória antes de qualquer soltura e a recuperação de trechos de rio adequados.
Curiosidades
- É o maior anfíbio vivo do mundo, com registros históricos próximos de um metro e oitenta de comprimento.
- Respira quase inteiramente pela pele, e as pregas cutâneas laterais ampliam a superfície de troca gasosa.
- Pertence a uma linhagem cujos fósseis, com forma corporal semelhante, remontam a dezenas de milhões de anos.
- O macho guarda os ovos por cerca de dois meses, protegendo-os e movimentando a água para garantir oxigenação.
- O que era considerado uma única espécie corresponde, segundo estudos genéticos, a várias linhagens distintas associadas a diferentes bacias hidrográficas.
Fontes consultadas
- Andrias davidianus — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2004. Consultar
- Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar
- Amphibian Conservation Action Plan. IUCN SSC Amphibian Specialist Group, 2023. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 4 de agosto de 2026
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