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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Sapinho-admirável

Melanophryniscus admirabilis Di-Bernardo, Maneyro & Grillo, 2006

Anfíbio descoberto em 2006 e conhecido apenas em um trecho de poucos quilômetros do arroio Forqueta, no Rio Grande do Sul.

Descrição

O sapinho-admirável foi descrito pela ciência em 2006 e é conhecido em apenas um lugar: um trecho de cerca de dois quilômetros do arroio Forqueta, na divisa entre os municípios de Arvorezinha e Putinga, no Rio Grande do Sul.

A área total de ocorrência conhecida é de poucos hectares, uma das menores registradas para um vertebrado brasileiro. Toda a população mundial da espécie vive em faixas estreitas de vegetação ripária às margens desse arroio, e depende diretamente da qualidade da água e da manutenção da mata ciliar.

A principal ameaça documentada não é o desmatamento direto, e sim a deriva de agrotóxicos aplicados em plantações de fumo nas encostas do vale. Anfíbios têm pele permeável e absorvem substâncias dissolvidas na água e no ar, o que os torna especialmente sensíveis a esse tipo de contaminação. Um projeto de aproveitamento hidrelétrico previsto para o mesmo trecho de arroio foi objeto de disputa e representou risco de submersão de toda a área ocupada pela espécie.

Características físicas

Anfíbio de porte muito pequeno, com dorso escuro, quase preto, e ventre marcado por manchas vermelhas e alaranjadas vivas sobre fundo escuro.

Essa coloração ventral tem função de advertência: quando ameaçado, o animal adota uma postura característica do gênero, erguendo as patas e arqueando o corpo para exibir as manchas, sinalizando a presença de substâncias tóxicas na pele. A pele dorsal é rugosa, com pequenas glândulas granulares. As patas são curtas e o corpo é achatado, adaptado a se abrigar entre pedras e serrapilheira nas margens do arroio.

Medidas registradas para a espécie
Comprimentocerca de 2 a 3 cm
Área de ocorrênciapoucos hectares ao longo de cerca de 2 km de arroio
Reproduçãoem poças temporárias formadas em rocha às margens do arroio

Habitat

Ocupa a faixa de vegetação ripária e os afloramentos rochosos às margens do arroio Forqueta, em um vale encaixado de Mata Atlântica no nordeste do Rio Grande do Sul.

A reprodução depende de poças temporárias que se formam em depressões nas rochas do leito e das margens após as chuvas. Essas poças precisam durar o suficiente para o desenvolvimento dos girinos, mas não podem ser permanentes, pois abrigariam peixes predadores. O equilíbrio é delicado e depende do regime hídrico natural do arroio, o que explica por que qualquer represamento representaria ameaça direta.

Distribuição geográfica

Endêmico de um único trecho do arroio Forqueta, na bacia do rio Taquari, na divisa entre Arvorezinha e Putinga, no Rio Grande do Sul.

Apesar de buscas realizadas em trechos vizinhos e em arroios da mesma bacia, nenhuma outra população foi localizada. A extensão de ocorrência estimada é inferior a dez quilômetros quadrados, e a área efetivamente ocupada é ainda menor. Essa concentração absoluta em um único ponto significa que a espécie inteira está exposta simultaneamente a qualquer evento que afete aquele trecho de arroio.

Ocorrência registrada em: Brasil.

Alimentação

Alimenta-se de pequenos artrópodes capturados no solo e na serrapilheira das margens: formigas, ácaros, colêmbolos e outros invertebrados de pequeno porte.

A dieta baseada em formigas e ácaros é relevante para a biologia da espécie: representantes do gênero obtêm dessas presas os compostos que acumulam nas glândulas da pele e que constituem sua defesa química. Animais criados em cativeiro sem acesso a esse tipo de presa apresentam concentração muito menor dessas substâncias, o que indica que a toxicidade é adquirida pela alimentação e não produzida diretamente pelo animal.

Comportamento

Tem atividade predominantemente diurna, o que é incomum entre anfíbios e está associado à defesa química: como não depende de escapar despercebido, pode se expor mais.

Quando ameaçado, adota a postura de advertência típica do gênero, erguendo as patas dianteiras e traseiras e arqueando o corpo para exibir as manchas vermelhas do ventre. A atividade concentra-se em períodos após chuvas, quando as poças reprodutivas se formam e a umidade da serrapilheira aumenta. Fora desses períodos, permanece abrigado sob pedras e folhiço.

Reprodução

A reprodução é explosiva e condicionada às chuvas: após precipitações que enchem as poças temporárias em rocha, os machos vocalizam e os casais se formam em poucos dias.

Os ovos são depositados na água dessas poças, e os girinos completam o desenvolvimento antes que ela seque. A janela disponível é curta, e temporadas com chuvas irregulares resultam em falha reprodutiva total. Essa dependência de um regime hídrico específico é o que torna a espécie tão vulnerável tanto a alterações no arroio quanto a mudanças no padrão de chuvas.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa populacional consolidada. Estudos de marcação e recaptura conduzidos na área indicam população pequena, na ordem de centenas a poucos milhares de indivíduos, com variação acentuada entre temporadas em função das chuvas. A avaliação de risco baseia-se principalmente na área de ocorrência extremamente restrita e na existência de uma única localidade conhecida, critérios que por si sós justificam a classificação criticamente em perigo.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Poluição e resíduos

    A deriva de agrotóxicos aplicados em lavouras de fumo nas encostas do vale atinge diretamente a mata ciliar e as poças reprodutivas. A pele permeável dos anfíbios absorve essas substâncias com facilidade.

  • Barragens e alteração dos rios

    Projetos de aproveitamento hidrelétrico previstos para o mesmo trecho do arroio representariam a submersão de toda a área de ocorrência conhecida da espécie.

  • Perda e conversão de habitat

    A supressão de vegetação ripária para ampliação de lavouras reduz o abrigo disponível e aumenta o carreamento de sedimento e de resíduos para o arroio.

  • Doenças emergentes

    O fungo causador da quitridiomicose está presente na região Sul do Brasil e representa risco sério para uma população concentrada em uma única localidade.

  • Mudanças climáticas

    A alteração no padrão de chuvas afeta a formação e a duração das poças temporárias das quais a reprodução depende integralmente.

Importância ecológica

Participa do controle de populações de pequenos artrópodes na serrapilheira da mata ciliar e serve de elo entre invertebrados e predadores maiores em um ecossistema ripário restrito.

Seu valor mais evidente, contudo, é como indicador e como argumento de proteção: a existência de uma espécie que não ocorre em nenhum outro lugar do planeta transformou aquele trecho de arroio em área de interesse para conservação, com efeitos sobre o licenciamento de empreendimentos e sobre a discussão do uso de agrotóxicos na bacia. A pele de espécies do gênero contém compostos de interesse para pesquisa em química de produtos naturais.

Projetos de conservação

Monitoramento populacional no arroio Forqueta · Instituições de pesquisa em herpetologia do Rio Grande do Sul
Estudos de marcação e recaptura, acompanhamento do sucesso reprodutivo nas poças temporárias e avaliação da presença de contaminantes e de patógenos na área de ocorrência.
Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna Ameaçada · ICMBio
Instrumento oficial que inclui a espécie entre as prioridades e prevê a proteção legal da área, a articulação com produtores rurais e a restrição a empreendimentos no trecho de arroio.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria criticamente em perigo e consta também da lista estadual do Rio Grande do Sul.

Sua proteção depende essencialmente de duas frentes: impedir a instalação de empreendimentos que alterem o regime hídrico do trecho de arroio e reduzir a contaminação por agrotóxicos na bacia, o que exige diálogo direto com produtores rurais da região. A criação de uma área protegida específica para o trecho de ocorrência tem sido apontada como a medida mais efetiva e vem sendo discutida com as instâncias competentes.

Curiosidades

  • Toda a população mundial da espécie vive em um trecho de cerca de dois quilômetros de um único arroio no Rio Grande do Sul.
  • Quando ameaçado, ergue as patas e arqueia o corpo para exibir as manchas vermelhas do ventre, sinalizando toxicidade.
  • As substâncias tóxicas da pele não são produzidas pelo animal: vêm das formigas e ácaros que ele consome.
  • Reproduz-se em poças temporárias formadas em depressões de rocha, que precisam durar o suficiente para os girinos se desenvolverem, mas não podem ser permanentes.
  • Foi descrito pela ciência apenas em 2006, e o nome específico faz referência ao caráter notável da descoberta.

Fontes consultadas

  1. Melanophryniscus admirabilis — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2023. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume V: Anfíbios. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna Ameaçada. ICMBio, 2022. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 2 de agosto de 2026

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