Jararaca-ilhoa
Bothrops insularis (Amaral, 1922)
Serpente que existe apenas na Ilha da Queimada Grande, no litoral paulista, onde evoluiu isolada para caçar aves migratórias.
- CRCriticamente em perigo
- Répteis
- Endêmica do Brasil
- Também chamada de jararaca-da-queimada-grande
Descrição
A jararaca-ilhoa existe em um único lugar no mundo: a Ilha da Queimada Grande, um afloramento rochoso de pouco mais de 40 hectares a cerca de 35 quilômetros da costa de São Paulo. Não há outra população, em nenhum outro lugar.
A ilha se separou do continente há cerca de onze mil anos, com a elevação do nível do mar ao fim do último período glacial. As serpentes que ficaram isoladas encontraram um ambiente sem os pequenos mamíferos que constituem a dieta habitual das jararacas continentais. A alternativa disponível eram aves migratórias que param na ilha durante o deslocamento.
Caçar aves impõe um problema: uma ave picada voa antes de o veneno agir e morre longe. A resposta evolutiva foi um veneno consideravelmente mais potente que o das jararacas continentais, capaz de imobilizar a presa rapidamente. Junto com isso, a espécie desenvolveu hábitos parcialmente arborícolas.
Características físicas
Serpente de porte médio, com coloração amarelada a castanho-clara — tom mais claro que o das jararacas continentais, possivelmente ligado à camuflagem na vegetação e às condições térmicas da ilha.
Apresenta cauda proporcionalmente mais longa que a das espécies aparentadas, adaptação ao deslocamento entre galhos. Possui fossetas loreais entre o olho e a narina, órgãos sensíveis ao calor que detectam presas de sangue quente. A cabeça é triangular e bem destacada do pescoço. Uma peculiaridade da população é a ocorrência de indivíduos intersexo, com características de ambos os sexos, fenômeno estudado como possível consequência do isolamento e da baixa variabilidade genética.
| Comprimento | cerca de 70 a 90 cm, podendo chegar a 1,2 m |
|---|---|
| Área de ocorrência | cerca de 43 hectares, em uma única ilha |
| Ninhada | geralmente 6 a 10 filhotes |
| Reprodução | vivípara; os filhotes nascem formados |
Habitat
Ocupa a totalidade da Ilha da Queimada Grande, que apresenta um mosaico de floresta ombrófila em regeneração, áreas de vegetação rasteira e costões rochosos.
A cobertura florestal da ilha foi reduzida no passado por queimadas destinadas a abrir área para cultivo — origem do nome da ilha —, e a vegetação atual é resultado de regeneração parcial. A serpente utiliza tanto o solo quanto a vegetação arbustiva e arbórea, onde aguarda a passagem de aves. A ausência de água doce permanente e a variação sazonal na oferta de presas tornam o ambiente rigoroso.
Distribuição geográfica
Endêmica da Ilha da Queimada Grande, no litoral do município de Itanhaém, em São Paulo. A área total da ilha é de cerca de 43 hectares, e a espécie ocupa praticamente toda ela.
É uma das menores áreas de distribuição registradas para um vertebrado brasileiro. Não existem populações em nenhum outro local, e não há registro de indivíduos alcançando o continente. Esse isolamento absoluto significa que qualquer evento capaz de afetar a ilha — um incêndio, a introdução de um predador, uma doença — atinge simultaneamente toda a população mundial da espécie.
Ocorrência registrada em: Brasil.
Alimentação
Alimenta-se principalmente de aves migratórias que fazem parada na ilha durante os deslocamentos sazonais, além de lagartos e, ocasionalmente, de anfíbios e centopeias.
A disponibilidade de presas é fortemente sazonal, concentrada nos períodos de passagem das aves. Fora desses períodos, as serpentes passam longos intervalos em jejum. A estratégia de caça é de emboscada: a serpente permanece imóvel em galhos ou no solo e ataca quando a ave se aproxima. Diferentemente das jararacas continentais, que soltam a presa após a picada e a rastreiam depois, a jararaca-ilhoa segura a ave até o veneno agir — o que explica a necessidade de um veneno de ação rápida.
Comportamento
Tem atividade predominantemente diurna e crepuscular nos períodos de passagem de aves, e é parcialmente arborícola, subindo à vegetação para caçar, comportamento incomum entre as jararacas.
É pouco agressiva e tende a evitar confronto. A densidade populacional na ilha é notavelmente alta, com estimativas históricas de um indivíduo por poucos metros quadrados em alguns trechos, embora levantamentos mais recentes indiquem números menores. Essa concentração em área minúscula é o que torna a espécie tão vulnerável.
Reprodução
É vivípara: os filhotes se desenvolvem no corpo da fêmea e nascem já formados, característica comum entre as jararacas. Cada ninhada tem geralmente de seis a dez filhotes.
A reprodução ocorre em ciclos que dependem da condição corporal das fêmeas, diretamente ligada à disponibilidade de aves na temporada anterior. A ocorrência de indivíduos intersexo na população, com órgãos reprodutivos de ambos os sexos, é objeto de estudo e pode estar associada à consanguinidade acumulada em uma população isolada e pequena, com possíveis efeitos sobre a taxa reprodutiva.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
As estimativas variam bastante entre levantamentos e metodologias, e não há consenso sobre um número atual. Estudos indicam declínio em relação a levantamentos das décadas anteriores, associado à captura ilegal e à degradação da vegetação da ilha. Há concordância, porém, quanto ao essencial: toda a população mundial da espécie vive em uma única ilha de pouco mais de 40 hectares.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Tráfico de animais silvestres
A captura ilegal para colecionadores e para o comércio clandestino de animais exóticos é a ameaça mais imediata, agravada pelo fato de que qualquer indivíduo retirado representa uma perda direta na única população existente.
Perda e conversão de habitat
Queimadas históricas reduziram a cobertura florestal da ilha, e a vegetação remanescente segue em regeneração lenta, com efeito sobre a disponibilidade de abrigo e de poleiros de caça.
Doenças emergentes
Com toda a população concentrada em uma única área e com baixa variabilidade genética, a introdução de um patógeno poderia atingir a espécie inteira em curto prazo.
Espécies exóticas invasoras
A introdução acidental de roedores ou de outros animais por embarcações representaria risco direto de predação de filhotes e de competição por recursos.
Mudanças climáticas
Alterações nas rotas e no calendário das aves migratórias que constituem sua principal presa podem comprometer a base alimentar da população.
Importância ecológica
É o predador de topo de um ecossistema insular minúsculo e fechado, e regula as populações de aves e lagartos que utilizam a ilha. A remoção da espécie alteraria integralmente a dinâmica ecológica do local.
Seu veneno tem interesse científico específico: a composição, resultado de uma trajetória evolutiva de onze mil anos em isolamento, difere da de espécies continentais e é objeto de pesquisas em bioquímica e farmacologia. Estudos com venenos do gênero deram origem a linhas de pesquisa relevantes para o desenvolvimento de medicamentos, o que ilustra o valor prático de preservar variação biológica que não existe em nenhum outro lugar.
Projetos de conservação
- Restrição de acesso à Ilha da Queimada Grande · Marinha do Brasil e ICMBio
- Controle rigoroso de desembarque na ilha, com autorização exigida para qualquer visita, medida destinada a impedir a coleta ilegal e a introdução acidental de espécies exóticas.
- Monitoramento populacional e pesquisa · Instituições de pesquisa em herpetologia
- Levantamentos periódicos com marcação de indivíduos, estudos sobre a composição do veneno, sobre a ocorrência de indivíduos intersexo e sobre a variabilidade genética da população.
Como a espécie é protegida
A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria criticamente em perigo. A Ilha da Queimada Grande é área de acesso restrito, sob controle da Marinha, e a visitação é proibida sem autorização específica, concedida basicamente para pesquisa e manutenção do farol.
Essa restrição de acesso é, na prática, a medida de conservação mais importante: reduz simultaneamente o risco de coleta ilegal, de incêndio e de introdução de espécies exóticas. O manejo da vegetação da ilha e o monitoramento de longo prazo complementam o esforço.
Curiosidades
- Toda a população mundial da espécie vive em uma única ilha de pouco mais de 40 hectares, a cerca de 35 quilômetros da costa paulista.
- O veneno é consideravelmente mais potente que o das jararacas continentais, adaptação para imobilizar aves antes que elas consigam voar para longe.
- A espécie ficou isolada há cerca de onze mil anos, quando a elevação do nível do mar separou a ilha do continente.
- É parcialmente arborícola, comportamento incomum entre as jararacas, e tem cauda mais longa que suas parentes continentais.
- Parte da população apresenta indivíduos intersexo, fenômeno investigado como possível efeito do isolamento genético prolongado.
Fontes consultadas
- Bothrops insularis — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2021. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume IV: Répteis. ICMBio, 2018. Consultar
- Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna Ameaçada. ICMBio, 2022. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 30 de julho de 2026
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