Ir para o conteúdo

Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Dragão-de-komodo

Varanus komodoensis Ouwens, 1912

O maior lagarto vivo, restrito a poucas ilhas da Indonésia e ameaçado pela elevação do nível do mar sobre seu habitat costeiro.

Descrição

O dragão-de-komodo é o maior lagarto vivo do planeta, com adultos que ultrapassam três metros de comprimento e setenta quilos. Ocorre apenas em um punhado de ilhas do arquipélago das Pequenas Ilhas de Sonda, na Indonésia.

É um predador de emboscada capaz de derrubar presas maiores que ele, incluindo búfalos e cervos. Por muito tempo se acreditou que suas presas morriam por infecção provocada por bactérias na saliva; pesquisas posteriores demonstraram a presença de glândulas produtoras de substâncias tóxicas na mandíbula, que reduzem a coagulação e a pressão arterial da presa.

A ameaça mais séria hoje não vem da caça direta, e sim da geografia. A espécie ocupa preferencialmente vales e áreas de baixada próximas ao litoral, e a elevação do nível do mar projetada para as próximas décadas deve reduzir substancialmente esse habitat, comprimindo populações já pequenas em ilhas de área limitada.

Características físicas

Lagarto de corpo maciço e musculoso, com pele cinza-acastanhada coberta por escamas reforçadas por pequenas placas ósseas embutidas, que formam uma espécie de cota de malha natural.

A cabeça é alongada e achatada, com dentes serrilhados e recurvados, semelhantes aos de tubarões, que se substituem ao longo da vida. A língua é bifurcada, amarelada e longa, usada para captar partículas odoríferas do ar e levá-las ao órgão vomeronasal — sistema que permite detectar carcaças a vários quilômetros de distância. As garras são fortes e a cauda, musculosa, corresponde a cerca de metade do comprimento total.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento2 a 3 m, com registros próximos de 3,1 m
Pesogeralmente 40 a 90 kg
Posturacerca de 15 a 30 ovos
Incubação7 a 8 meses
Longevidadeestimada em cerca de 30 anos

Habitat

Ocupa savanas tropicais secas, florestas de monção e áreas de baixada com vegetação aberta, em ilhas de clima marcadamente sazonal, com longa estação seca.

Prefere vales e planícies próximas ao litoral, onde a densidade de presas é maior e onde há solo adequado para escavar ninhos. Áreas de encosta e altitude mais elevada são usadas com menor frequência. Essa concentração em terras baixas costeiras é a razão pela qual a elevação do nível do mar representa uma ameaça tão direta.

Distribuição geográfica

Endêmico de um pequeno conjunto de ilhas do leste da Indonésia: Komodo, Rinca, Gili Motang, Nusa Kode e a porção oeste e norte de Flores, a maior delas.

A área total ocupada é reduzida, e as populações insulares estão isoladas entre si. Em Flores, única ilha grande da distribuição, a espécie ocorre de forma fragmentada e sofre pressão adicional pela presença humana e pela conversão de habitat. A extinção local já foi registrada em pelo menos uma ilha onde a espécie ocorria historicamente.

Ocorrência registrada em: Indonésia.

Alimentação

É predador e necrófago. Adultos caçam cervos, javalis, búfalos-asiáticos e cabras, além de consumir carcaças que localizam pelo olfato a grandes distâncias. Jovens alimentam-se de insetos, lagartos, aves e ovos.

A técnica de caça é de emboscada: o animal permanece imóvel em vegetação densa e ataca com um bote rápido, causando ferimentos profundos. Secreções produzidas por glândulas na mandíbula dificultam a coagulação do sangue e reduzem a pressão arterial da presa, que geralmente sucumbe pouco depois. Adultos praticam canibalismo sobre indivíduos jovens, o que explica um traço peculiar do comportamento juvenil.

Comportamento

É solitário e territorial, reunindo-se apenas em torno de grandes carcaças, onde se estabelece hierarquia por tamanho. Tem atividade predominantemente diurna, com repouso nas horas mais quentes.

Os juvenis passam os primeiros anos de vida no alto das árvores, comportamento que os protege do canibalismo praticado por adultos, e descem ao solo apenas quando atingem porte suficiente. Adultos são bons nadadores e cruzam braços de mar entre ilhas próximas, embora essa movimentação seja pouco frequente e insuficiente para conectar geneticamente as populações insulares.

Reprodução

As fêmeas escavam ninhos no solo ou aproveitam montes de vegetação construídos por aves megapódias, onde depositam de quinze a trinta ovos. A incubação é longa, de sete a oito meses, e a fêmea pode guardar o ninho durante parte desse período.

Os filhotes nascem com cerca de quarenta centímetros e sobem imediatamente às árvores. A maturidade sexual chega por volta dos oito a dez anos. A espécie é capaz de reprodução por partenogênese, com fêmeas produzindo descendentes viáveis sem fecundação — fenômeno documentado em cativeiro e de interesse para populações insulares isoladas, embora resulte apenas em filhotes machos.

População estimada e tendência

Estimativa: estimada em cerca de 1.400 indivíduos adultos, com um total em torno de 3.000 a 3.500 incluindo jovens

As estimativas derivam de monitoramento sistemático conduzido no parque nacional que abrange a maior parte da distribuição, e são relativamente confiáveis para as ilhas protegidas. A situação em Flores é menos conhecida e considerada mais preocupante. O número de fêmeas maduras é o parâmetro mais crítico e foi determinante para a classificação em perigo.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Em perigo (EN). Risco muito alto de extinção na natureza a médio prazo.

Ver a definição completa da categoria em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Mudanças climáticas

    A elevação do nível do mar deve reduzir substancialmente o habitat de baixada costeira preferido pela espécie, comprimindo populações já pequenas em ilhas de área limitada.

  • Perda e conversão de habitat

    Em Flores, a conversão de savanas e florestas para agricultura e pastagem fragmenta a distribuição e reduz a área disponível.

  • Caça e abate ilegal

    A caça de cervos e javalis por comunidades locais reduz a base alimentar dos adultos, e o abate direto ocorre em resposta a ataques a animais domésticos.

  • Conflito com atividades humanas

    A proximidade com vilarejos gera episódios de ataque a rebanhos e, ocasionalmente, a pessoas, o que motiva retaliação.

  • Incêndios e queimadas

    Queimadas para renovação de pastagem em ilhas de vegetação seca destroem habitat e ninhos durante o longo período de incubação.

  • Fragmentação de habitat

    As populações insulares estão isoladas entre si, com pouca ou nenhuma troca genética, o que limita a capacidade de recuperação após qualquer declínio local.

Importância ecológica

Como único grande predador terrestre das ilhas onde ocorre, regula populações de cervos, javalis e outros herbívoros, com efeito direto sobre a vegetação e a estrutura das savanas insulares.

Atua também como necrófago, acelerando a remoção de carcaças. Sua presença mantém funcional um ecossistema insular onde nenhum outro animal desempenha esse papel — situação incomum, já que grandes predadores terrestres são geralmente mamíferos. A espécie é ainda o principal atrativo do turismo de natureza da região, que constitui fonte relevante de renda local.

Projetos de conservação

Parque Nacional de Komodo · Governo da Indonésia
Unidade de conservação que abrange as principais ilhas de ocorrência, com monitoramento populacional de longa duração, controle de visitação e proteção das populações de presas.
Monitoramento e pesquisa de longo prazo · Instituições de pesquisa indonésias e internacionais
Programa de marcação e recaptura que produz a série de dados populacionais usada nas avaliações de risco, além de estudos sobre uso de habitat e efeitos projetados da elevação do nível do mar.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção e é protegida pela legislação indonésia desde a década de 1930, uma das proteções legais mais antigas concedidas a um réptil.

A maior parte da população vive dentro de um parque nacional, o que oferece proteção efetiva contra caça e conversão de habitat nas ilhas principais. As populações de Flores, fora da unidade de conservação, são as mais vulneráveis. O turismo regulado gera receita destinada à manutenção do parque, mas exige controle rigoroso para não perturbar os animais nem alterar seu comportamento.

Curiosidades

  • É o maior lagarto vivo do mundo, com adultos que ultrapassam três metros de comprimento.
  • A língua bifurcada capta partículas odoríferas do ar e permite localizar carcaças a vários quilômetros de distância.
  • Filhotes passam os primeiros anos de vida no alto das árvores para escapar do canibalismo praticado por adultos.
  • Fêmeas podem produzir descendentes sem fecundação, fenômeno documentado em cativeiro que resulta apenas em filhotes machos.
  • Foi descrito pela ciência apenas em 1912, depois que relatos sobre lagartos gigantes nas ilhas indonésias foram investigados.

Fontes consultadas

  1. Varanus komodoensis — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2021. Consultar
  2. Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar
  3. Komodo National Park. UNESCO World Heritage Centre, 2024. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 30 de julho de 2026

Encontrou um erro? Relate uma correção

Continue a consulta

Espécies relacionadas

Selecionadas por proximidade taxonômica, ambiente compartilhado, estado de conservação e ameaças em comum com a dragão-de-komodo.

Ver a biblioteca completa
CRCriticamente em perigo

Jararaca-ilhoa

Bothrops insularis

Serpente que existe apenas na Ilha da Queimada Grande, no litoral paulista, onde evoluiu isolada para caçar aves…

  • Répteis
  • Mata Atlântica
  • Endêmica do Brasil
CRCriticamente em perigo

Orangotango-de-sumatra

Pongo abelii

Grande primata arborícola restrito ao norte da ilha de Sumatra, ameaçado pela conversão de florestas em plantações de…

  • Mamíferos
  • Florestas tropicais asiáticas
ENEm perigo

Tartaruga-verde

Chelonia mydas

Tartaruga marinha herbívora na fase adulta, a mais comum no litoral brasileiro, ameaçada por captura acidental…

  • Répteis
  • Zona costeira e marinha brasileira
CRCriticamente em perigo

Kakapo

Strigops habroptilus

Papagaio da Nova Zelândia que não voa, sobreviveu com poucas dezenas de indivíduos e hoje vive apenas em ilhas livres…

  • Aves
  • Ilhas oceânicas