Tartaruga-verde
Chelonia mydas (Linnaeus, 1758)
Tartaruga marinha herbívora na fase adulta, a mais comum no litoral brasileiro, ameaçada por captura acidental, plástico e um tumor de origem viral.
- ENEm perigo
- Répteis
- Ocorre no Brasil
- Também chamada de aruanã e tartaruga-de-casco-verde
Descrição
A tartaruga-verde é a espécie de tartaruga marinha mais frequentemente observada no litoral brasileiro e a única que se torna essencialmente herbívora na fase adulta, alimentando-se de algas e gramas marinhas.
O nome não vem da cor do casco, e sim da gordura corporal esverdeada, resultado da dieta vegetal — coloração que ficou conhecida justamente porque a espécie foi intensamente explorada para consumo de carne e para a produção de sopa, prato de grande demanda internacional no século XIX e início do XX.
Hoje, as ameaças são outras. Além da captura acidental em redes, a espécie enfrenta a fibropapilomatose, uma doença de origem viral que provoca tumores externos e internos, associada à degradação de áreas costeiras e frequente em regiões com poluição urbana. É também a espécie que mais aparece em estatísticas de ingestão de plástico no Brasil.
Características físicas
Tartaruga marinha de grande porte, com carapaça oval e lisa, de placas justapostas — sem sobreposição, ao contrário da tartaruga-de-pente. A coloração varia do castanho ao esverdeado, com padrões radiados ou marmoreados.
A cabeça é relativamente pequena e arredondada, com um único par de escamas entre os olhos, característica usada na identificação da espécie. O bico apresenta borda serrilhada, adaptada a cortar algas e vegetação submersa. As nadadeiras anteriores são longas, com uma única garra visível. Filhotes têm dorso escuro e ventre branco.
| Comprimento de carapaça | cerca de 90 a 120 cm |
|---|---|
| Peso | 100 a 180 kg |
| Postura | cerca de 120 ovos por ninho, em várias posturas por temporada |
| Incubação | cerca de 50 a 60 dias |
| Maturidade sexual | estimada entre 20 e 40 anos |
Habitat
Os adultos ocupam áreas costeiras rasas com bancos de algas e gramas marinhas, costões rochosos e recifes, onde se alimentam. Os juvenis passam os primeiros anos em mar aberto, associados a bancos de algas flutuantes, e depois se recrutam para áreas costeiras.
Para desovar, buscam praias arenosas com acesso desimpedido, em ilhas oceânicas e no litoral continental. As áreas de alimentação e de desova podem estar separadas por milhares de quilômetros, e os indivíduos realizam migrações longas entre elas ao longo da vida.
Distribuição geográfica
Distribui-se por águas tropicais e subtropicais de todos os oceanos. As maiores colônias reprodutivas conhecidas estão na Costa Rica, na Austrália e em ilhas do Indo-Pacífico.
No Brasil, é a tartaruga marinha mais comum em áreas de alimentação costeiras, presente em todo o litoral. A desova concentra-se em ilhas oceânicas: o atol das Rocas, Fernando de Noronha, Trindade e Martim Vaz. A ilha de Trindade, no Espírito Santo, abriga a principal área de desova da espécie no país. No litoral continental, os registros de desova são pontuais, mas as áreas de alimentação são amplamente utilizadas.
Ocorrência registrada em: Brasil, México, Costa Rica, Estados Unidos, Venezuela, Colômbia, Austrália, Indonésia, Malásia, Oman, Moçambique, África do Sul, Oceano Atlântico, Oceano Índico e Oceano Pacífico.
Alimentação
É a única tartaruga marinha que se torna essencialmente herbívora na fase adulta, alimentando-se de algas, gramas marinhas e, em menor medida, de vegetação de manguezal. Os juvenis são onívoros e consomem também águas-vivas, pequenos crustáceos e outros invertebrados durante a fase oceânica.
O bico serrilhado permite cortar vegetação fixa em rochas e no fundo. Essa dieta é a origem de duas características da espécie: a gordura esverdeada que lhe dá nome e a alta incidência de ingestão de plástico, já que fragmentos e filmes plásticos se misturam às algas nas áreas costeiras onde se alimenta.
Comportamento
Adultos mantêm áreas de alimentação estáveis, às quais retornam com fidelidade por anos, e realizam migrações longas até as praias de desova, orientando-se pelo campo magnético terrestre.
É comum observar indivíduos em repouso sob costões rochosos ou saliências de recife, e em algumas regiões do mundo a espécie sobe à praia para tomar sol, comportamento raro entre tartarugas marinhas. Juvenis em áreas de alimentação costeiras no Brasil formam agregações em locais com abundância de algas, incluindo estruturas artificiais como píeres e emissários.
Reprodução
As fêmeas retornam a praias próximas às de seu nascimento para desovar, com intervalos de dois a cinco anos entre temporadas. Em cada temporada, realizam de três a sete posturas espaçadas por cerca de duas semanas.
Cada ninho contém em média 120 ovos, e a incubação dura de 50 a 60 dias. A temperatura da areia determina o sexo dos filhotes: ninhos mais quentes produzem predominantemente fêmeas, e o aquecimento das praias já provoca desequilíbrio documentado em algumas populações do mundo. A maturidade sexual é tardia, estimada entre 20 e 40 anos, o que torna a espécie especialmente sensível à mortalidade de adultos.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
Não há estimativa global do número total de indivíduos. O monitoramento se baseia em contagens de fêmeas em desova, e as subpopulações apresentam trajetórias muito distintas: algumas, protegidas há décadas, mostram recuperação consistente, enquanto outras seguem em declínio. A avaliação global considera a espécie em perigo com base na redução histórica acumulada. No Brasil, o número de ninhos monitorados em ilhas oceânicas aumentou desde o início do trabalho de proteção nos anos 1980.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Em perigo (EN). Risco muito alto de extinção na natureza a médio prazo.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Sobrepesca e captura acidental
A captura em redes de emalhe, currais de pesca e arrasto é a principal causa de mortalidade de juvenis e adultos no litoral brasileiro.
Poluição e resíduos
A ingestão de plástico é frequente e documentada em necropsias, porque fragmentos flutuantes se misturam às algas de que a espécie se alimenta. A poluição costeira também está associada à ocorrência de tumores.
Doenças emergentes
A fibropapilomatose, doença de origem viral que provoca tumores externos e internos, atinge parcelas expressivas das populações em áreas costeiras degradadas e pode inviabilizar a alimentação e a visão do animal.
Ocupação e iluminação da costa
A iluminação artificial desorienta filhotes recém-eclodidos, que se afastam do mar, e a ocupação das praias reduz as áreas disponíveis para desova.
Mudanças climáticas
O aquecimento da areia desequilibra a proporção de sexos dos filhotes, e a elevação do nível do mar inunda ninhos e reduz a faixa de praia.
Caça e abate ilegal
A captura para consumo de carne e a coleta de ovos persistem em parte da área de distribuição mundial, embora tenham sido drasticamente reduzidas no Brasil.
Importância ecológica
Ao pastar em bancos de gramas marinhas, mantém essas formações produtivas e saudáveis, de modo semelhante ao papel de grandes herbívoros em campos naturais. Bancos pastejados regularmente apresentam maior produtividade e menor acúmulo de matéria morta.
Esses bancos funcionam como berçário para peixes e crustáceos, retêm sedimento e armazenam carbono. Em recifes, o consumo de algas por tartarugas-verdes reduz a competição com corais. A espécie transporta ainda nutrientes marinhos para praias e dunas por meio de ovos e restos de ninho.
Projetos de conservação
- Projeto Tamar · Fundação Pró-Tamar, em parceria com o ICMBio
- Monitoramento e proteção de ninhos, com destaque para a ilha de Trindade e o atol das Rocas, atendimento a animais encalhados, redução da captura acidental em parceria com pescadores e programas de educação e geração de renda em comunidades costeiras.
- Áreas marinhas protegidas em ilhas oceânicas · ICMBio
- Unidades de conservação em Fernando de Noronha, no atol das Rocas e em Trindade, que protegem simultaneamente áreas de desova e de alimentação da espécie.
Como a espécie é protegida
A espécie está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção e integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria vulnerável.
No Brasil, a proteção combina o monitoramento de praias de desova em ilhas oceânicas, unidades de conservação marinhas, atendimento veterinário a animais encalhados e trabalho contínuo com a pesca artesanal para reduzir a captura acidental. O trabalho iniciado nos anos 1980 tornou-se referência internacional pela combinação entre proteção de ninhos e envolvimento econômico das comunidades costeiras.
Curiosidades
- O nome não vem da cor do casco, e sim da gordura corporal esverdeada, resultado da dieta baseada em algas.
- É a única tartaruga marinha que se torna essencialmente herbívora na fase adulta.
- A principal área de desova da espécie no Brasil é a ilha de Trindade, a mais de mil quilômetros da costa do Espírito Santo.
- Em algumas regiões do mundo, sobe à praia para tomar sol, comportamento raro entre tartarugas marinhas.
- Filhotes recém-nascidos memorizam características do campo magnético da praia onde nasceram e retornam a ela décadas depois para desovar.
Fontes consultadas
- Chelonia mydas — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2004. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume IV: Répteis. ICMBio, 2018. Consultar
- Projeto Tamar — Espécies. Fundação Pró-Tamar, 2024. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 28 de julho de 2026
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