Peixe-boi-marinho
Trichechus manatus Linnaeus, 1758
Mamífero aquático herbívoro de águas costeiras rasas, uma das espécies mais ameaçadas do litoral brasileiro, com população reduzida no Nordeste.
- VUVulnerável
- Mamíferos
- Ocorre no Brasil
- Também chamada de manatim e vaca-marinha
Descrição
O peixe-boi-marinho é um mamífero aquático herbívoro que vive em águas costeiras rasas, estuários e desembocaduras de rios. Move-se devagar, permanece perto da superfície e não tem predadores naturais relevantes — características que o tornaram presa fácil para a caça durante séculos e que hoje o expõem a colisões com embarcações.
No Brasil, a espécie foi caçada desde o período colonial pela carne, pelo couro e pela gordura, chegando a integrar circuitos comerciais. Desapareceu de vários estados do Nordeste e hoje ocupa uma faixa descontínua da costa, com a população nacional considerada em perigo — classificação mais severa que a global.
A sobrevivência de filhotes encalhados, frequentemente separados das mães em áreas de arrebentação, tornou-se uma das frentes centrais de trabalho: animais resgatados são reabilitados em centros especializados e reintroduzidos em áreas monitoradas.
Características físicas
Corpo fusiforme e maciço, com pele grossa, rugosa e acinzentada, coberta por pelos esparsos e sensíveis distribuídos por todo o corpo, que funcionam como sensores de movimento na água.
A cauda é achatada horizontalmente e arredondada, em forma de raquete — característica que distingue os peixes-bois dos golfinhos e das baleias. As nadadeiras peitorais possuem unhas nas pontas. O lábio superior é dividido e móvel, usado para arrancar e manipular plantas aquáticas. Os dentes são substituídos continuamente ao longo da vida, adaptação ao desgaste provocado pela areia ingerida junto com a vegetação.
| Comprimento | 2,5 a 3,5 m |
|---|---|
| Peso | 400 a 600 kg |
| Consumo diário | equivalente a cerca de 10% do peso corporal em vegetação |
| Gestação | cerca de 12 a 14 meses |
| Longevidade | pode passar de 50 anos |
Habitat
Vive em águas costeiras rasas, baías, estuários, canais de maré e trechos inferiores de rios, sempre onde há bancos de vegetação aquática submersa e acesso a água doce ou salobra para beber.
A combinação exigida é bastante específica: águas calmas e rasas para alimentação, canais mais profundos para descanso e deslocamento, e presença de manguezais e gramas marinhas. É justamente a faixa do litoral com maior ocupação humana, o que explica a sobreposição direta entre habitat e pressão antrópica.
Distribuição geográfica
Ocorre no Atlântico ocidental, do sudeste dos Estados Unidos ao nordeste do Brasil, com duas subespécies reconhecidas: a antilhana, presente no Caribe e no Brasil, e a da Flórida.
No Brasil, a distribuição atual vai aproximadamente do Amapá a Alagoas, de forma descontínua, com registros mais consistentes em Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amapá. A espécie foi extinta localmente em vários trechos intermediários, e a fragmentação da distribuição dificulta a troca de indivíduos entre núcleos.
Ocorrência registrada em: Brasil, Venezuela, Colômbia, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, México, Estados Unidos, Cuba, Bahamas, República Dominicana, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá e Belize.
Alimentação
Estritamente herbívoro. Alimenta-se de gramas marinhas, algas, plantas de mangue e vegetação aquática de estuários, consumindo diariamente o equivalente a cerca de um décimo do próprio peso.
Usa o lábio superior dividido para arrancar as plantas e passa grande parte do dia se alimentando em áreas rasas. A dependência de bancos de vegetação submersa torna a espécie diretamente vulnerável à turbidez causada por dragagem, assoreamento e efluentes, que reduzem a luz disponível e matam essas plantas.
Comportamento
Vive de forma solitária ou em pequenos grupos temporários, exceto pelo vínculo prolongado entre mãe e filhote. Não é territorial e realiza deslocamentos ao longo da costa em busca de alimento e de água doce.
A comunicação é feita por vocalizações de curto alcance, importantes na manutenção do contato entre mãe e cria. Respira a cada poucos minutos, com intervalos maiores em repouso. O metabolismo é lento e a tolerância a água fria é limitada, o que restringe a distribuição às regiões tropicais e subtropicais.
Reprodução
A gestação dura de 12 a 14 meses e resulta em uma única cria, raramente gêmeos. O filhote nasce com cerca de 1 a 1,2 metro e é amamentado por um a dois anos, período em que aprende com a mãe as rotas de deslocamento e as áreas de alimentação.
O intervalo entre nascimentos é de dois a cinco anos, e a maturidade sexual chega entre três e cinco anos. Esse ritmo reprodutivo lento significa que a perda de fêmeas adultas tem efeito prolongado. A separação de filhotes das mães em áreas de arrebentação é um problema recorrente no litoral do Nordeste brasileiro e leva a encalhes.
População estimada e tendência
Estimativa: estimada em cerca de mil indivíduos no litoral brasileiro, segundo levantamentos do órgão ambiental federal
Trata-se de estimativa aproximada, obtida por sobrevoos, entrevistas com comunidades pesqueiras e registros de encalhe, e não de censo. A população global da espécie, incluindo Caribe e Estados Unidos, é maior e melhor monitorada na Flórida. Para a população brasileira, a avaliação nacional considera o quadro em perigo, com poucos núcleos reprodutivos conhecidos.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Em perigo (EN). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Perda e conversão de habitat
A ocupação da zona costeira, o aterro de manguezais, a dragagem de canais e a instalação de estruturas portuárias eliminam áreas de alimentação e de descanso.
Sobrepesca e captura acidental
O emalhe em redes de pesca costeira causa afogamento, e a presença de petrechos em áreas de circulação é um risco constante em todo o litoral de ocorrência.
Colisão e ruído de embarcações
Como se alimenta perto da superfície e se move devagar, é atingido por cascos e hélices. Cicatrizes características são comuns nos indivíduos avistados.
Poluição e resíduos
Esgoto sem tratamento, efluentes industriais e resíduos sólidos degradam estuários. O aumento da turbidez elimina a vegetação submersa da qual a espécie depende.
Ocupação e iluminação da costa
A urbanização e o tráfego intenso de embarcações em áreas rasas afastam os animais de trechos historicamente usados e contribuem para a separação de filhotes das mães.
Caça e abate ilegal
A caça em larga escala foi interrompida, mas o abate ocasional ainda é registrado em algumas comunidades, e o consumo eventual de carne persiste.
Importância ecológica
Ao pastar em bancos de vegetação aquática submersa, mantém essas formações produtivas e evita o acúmulo excessivo de biomassa, papel semelhante ao dos grandes herbívoros terrestres em campos naturais.
Esses bancos funcionam como berçário para peixes e crustáceos e retêm sedimento, protegendo a costa da erosão. A presença de peixes-bois é indicador de estuários e áreas costeiras em bom estado de conservação, com água suficientemente clara para sustentar a vegetação submersa.
Projetos de conservação
- Projeto Peixe-boi · Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (ICMBio)
- Resgate e reabilitação de filhotes encalhados, reintrodução em áreas monitoradas com acompanhamento por telemetria e trabalho junto a comunidades pesqueiras.
- Áreas de Proteção Ambiental costeiras do Nordeste · Órgãos ambientais federais e estaduais
- Unidades de conservação de uso sustentável que abrangem estuários e trechos de litoral usados pela espécie, com ordenamento do tráfego de embarcações e da pesca.
Como a espécie é protegida
A espécie está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção e integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria em perigo. A caça e a captura são proibidas no Brasil desde a legislação de proteção à fauna de 1967.
A proteção prática combina áreas protegidas costeiras, ordenamento do tráfego de embarcações em áreas rasas de ocorrência, ações junto à pesca artesanal para reduzir emalhe e a rede de resgate e reabilitação de filhotes, que já devolveu dezenas de animais à natureza com monitoramento pós-soltura.
Curiosidades
- Os dentes são substituídos continuamente ao longo da vida, movendo-se de trás para frente na arcada, adaptação ao desgaste causado pela areia.
- Pelos sensoriais espalhados por todo o corpo detectam correntes e movimentos na água, funcionando como um sistema de tato à distância.
- É parente distante dos elefantes, com quem compartilha ancestral comum, e não dos golfinhos.
- A associação entre sereias e peixes-bois aparece em relatos de navegadores europeus que confundiram os animais avistados à distância.
Fontes consultadas
- Trichechus manatus — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2008. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume II: Mamíferos. ICMBio, 2018. Consultar
- Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos. ICMBio, 2024. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 15 de julho de 2026
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