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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Boto-cor-de-rosa

Inia geoffrensis (Blainville, 1817)

Maior golfinho de água doce do mundo, vive nas bacias do Amazonas e do Orinoco e enfrenta declínio acentuado por captura para uso como isca e por contaminação.

Descrição

O boto-cor-de-rosa é o maior golfinho de água doce do planeta e um dos mamíferos mais emblemáticos da Amazônia. Vive em rios, lagos e áreas alagáveis, e na época de cheia entra na floresta inundada, nadando entre troncos e raízes — comportamento que exige alta flexibilidade corporal.

A coloração muda ao longo da vida: os jovens são acinzentados e os adultos, especialmente os machos, tornam-se rosados. A tonalidade se intensifica com a atividade e com cicatrizes acumuladas em disputas, e machos mais rosados tendem a ser os mais velhos e maiores.

O declínio documentado em áreas monitoradas na Amazônia central é acentuado e vem sendo associado principalmente à captura para uso como isca na pesca de um peixe comercial, além de emalhe acidental e contaminação por mercúrio.

Características físicas

Corpo robusto, com pescoço flexível — as vértebras cervicais não são fundidas, o que permite girar a cabeça em amplitude incomum entre cetáceos e é vantajoso para caçar em ambiente cheio de obstáculos.

Não possui nadadeira dorsal alta: em seu lugar há uma quilha baixa e alongada. As nadadeiras peitorais são largas e móveis, e o rostro é longo, com cerdas sensoriais que ajudam a detectar presas no fundo lodoso. Os dentes são diferenciados, com dentes posteriores mais achatados, capazes de quebrar carapaças de crustáceos e escamas duras.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento2,0 a 2,5 m
Peso85 a 185 kg; machos são maiores
Gestaçãocerca de 11 meses
Longevidadeestimada em até 30 anos

Habitat

Ocupa rios de água branca, água preta e água clara, lagos de várzea, igapós e canais estreitos. Na cheia, penetra na floresta alagada e em campos inundados; na seca, concentra-se nos canais principais e nos lagos remanescentes.

Essa flexibilidade tem contrapartida: a espécie depende do ciclo natural de cheia e seca. Barragens que regularizam a vazão eliminam a inundação sazonal da floresta e fragmentam as populações ao longo do rio, já que os animais não transpõem barramentos.

Distribuição geográfica

Ocorre nas bacias do Amazonas e do Orinoco, incluindo o alto rio Madeira, na Bolívia, cujas populações são tratadas por parte dos autores como espécie distinta — divergência taxonômica que ainda não tem consenso.

No Brasil, ocupa toda a bacia amazônica, com registros abundantes no Solimões, no Amazonas, no Negro, no Madeira, no Tapajós e em afluentes menores. A distribuição é ampla, mas as populações estão sendo fragmentadas por barramentos e sofrem pressões distintas conforme a sub-bacia.

Ocorrência registrada em: Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela e Equador.

Alimentação

Alimenta-se de peixes de mais de cinquenta espécies, além de crustáceos e, ocasionalmente, tartarugas jovens. A dentição diferenciada permite processar presas com carapaça ou escamas duras.

Caça sozinho ou em duplas, usando ecolocalização em água turva, onde a visão é praticamente inútil. Na floresta alagada, a flexibilidade do pescoço e das nadadeiras permite manobrar entre troncos e capturar peixes que se abrigam na vegetação submersa, nicho que nenhum outro cetáceo explora.

Comportamento

Geralmente solitário ou em pequenos grupos, com agregações temporárias em confluências de rios e em áreas de alta concentração de peixes. É curioso em relação a embarcações e frequentemente se aproxima delas.

A emersão para respirar é discreta, sem o salto típico dos golfinhos marinhos. Machos adultos apresentam cicatrizes de disputas e podem carregar objetos — galhos, cachos de fruto, tartarugas — em exibição associada a comportamento reprodutivo, registrada em estudos de longa duração.

Reprodução

A gestação dura cerca de 11 meses e resulta em um único filhote, com nascimentos concentrados nos meses de cheia, quando a oferta de alimento é maior e há mais áreas protegidas na floresta inundada.

O filhote nasce com aproximadamente 80 centímetros e permanece com a mãe por um a dois anos, período de amamentação e aprendizado. O intervalo entre nascimentos é de dois a três anos, e a maturidade sexual chega por volta dos seis a dez anos. A reposição populacional é, portanto, lenta para um animal sujeito a mortalidade adulta elevada.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa populacional total confiável para a bacia amazônica. Existem, porém, séries de monitoramento de longa duração em áreas específicas da Amazônia central que documentam declínio acentuado, com reduções da ordem de metade da população local ao longo de aproximadamente uma década. Essas séries embasaram a classificação em perigo na avaliação global, ainda que não permitam calcular um número total de indivíduos.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Em perigo (EN). Risco muito alto de extinção na natureza a médio prazo.

Ver a definição completa da categoria em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Sobrepesca e captura acidental

    A captura para uso da carne como isca na pesca do peixe piracatinga foi identificada como uma das principais causas de mortalidade. O emalhe acidental em redes de pesca também mata indivíduos com frequência.

  • Mineração e garimpo

    O mercúrio liberado pelo garimpo se acumula na cadeia alimentar e atinge concentrações elevadas em predadores de topo aquáticos, com efeitos sobre reprodução e sistema imunológico.

  • Barragens e alteração dos rios

    Barramentos fragmentam populações, impedem o deslocamento e alteram o ciclo de cheia do qual a espécie depende para acessar a floresta alagada.

  • Poluição e resíduos

    Efluentes urbanos e agrotóxicos carregados para os rios reduzem a qualidade da água e a disponibilidade de presas.

  • Conflito com atividades humanas

    Pescadores relatam prejuízo com peixes retirados de redes, o que gera abate em retaliação em algumas regiões.

  • Colisão e ruído de embarcações

    O tráfego crescente de embarcações em canais estreitos aumenta o risco de colisão e o ruído que interfere na ecolocalização.

Importância ecológica

Como predador de topo do sistema aquático amazônico, influencia a abundância e o comportamento de populações de peixes. Sua presença é usada como indicador da integridade dos rios: depende de estoques de peixe saudáveis, de conectividade ao longo do curso d'água e da manutenção do ciclo de cheia.

Tem também papel cultural relevante em comunidades amazônicas, onde figura em narrativas tradicionais — fator que, historicamente, contribuiu para reduzir o abate deliberado em várias regiões.

Projetos de conservação

Monitoramento de botos na Amazônia central · Instituições de pesquisa que atuam em reservas de desenvolvimento sustentável
Séries de monitoramento de longa duração com identificação individual e marcação, que produziram as evidências de declínio usadas na avaliação de risco da espécie.
Suspensão da pesca da piracatinga · Órgãos federais brasileiros
Medida normativa que suspendeu a pesca do peixe cuja captura estava associada ao uso de botos como isca, com renovações posteriores e fiscalização em áreas de maior incidência.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie está no Anexo II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção. No Brasil, todos os cetáceos são protegidos por legislação específica que proíbe a captura, a molestação e o abate em águas jurisdicionais brasileiras.

A principal medida de proteção recente foi a suspensão da pesca do peixe piracatinga, cuja cadeia comercial incentivava a captura de botos para uso como isca. A conservação a longo prazo depende ainda do controle do garimpo, da manutenção de trechos de rio livres de barramento e do ordenamento da pesca artesanal em áreas de maior concentração da espécie.

Curiosidades

  • As vértebras do pescoço não são fundidas, o que permite girar a cabeça com amplitude incomum entre cetáceos e caçar dentro da floresta inundada.
  • A cor rosada se intensifica com a idade e com a atividade, e resulta em parte de cicatrizes acumuladas ao longo da vida.
  • Machos adultos carregam objetos na boca em exibições associadas ao comportamento reprodutivo, registradas em estudos de campo.
  • Na cheia, os botos nadam entre as árvores da floresta alagada, a metros de onde antes havia solo firme.

Fontes consultadas

  1. Inia geoffrensis — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2018. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume II: Mamíferos. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 15 de julho de 2026

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