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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Toninha

Pontoporia blainvillei (Gervais & d'Orbigny, 1844)

Pequeno golfinho costeiro do Atlântico Sul, considerado o cetáceo mais ameaçado do Brasil pela mortalidade em redes de pesca.

Descrição

A toninha é um pequeno golfinho de águas costeiras rasas que vive exclusivamente no Atlântico Sul ocidental, entre o Espírito Santo e o norte da Argentina. É discreta, não salta e raramente se aproxima de embarcações, o que a torna pouco conhecida do público apesar de habitar justamente o trecho de litoral mais povoado da América do Sul.

O problema central da espécie é simples de enunciar e difícil de resolver: ela ocupa a mesma faixa de mar usada pela pesca costeira com redes de emalhe. A mortalidade acidental estimada em algumas áreas supera o que a população consegue repor, e a avaliação nacional brasileira classifica a espécie como criticamente em perigo — condição mais grave que a atribuída globalmente.

Por não formar grandes agregações nem realizar migrações longas, as populações são relativamente isoladas entre si, e o declínio em um trecho não é compensado pela chegada de indivíduos de outro.

Características físicas

É um dos menores cetáceos do mundo. O rostro é extremamente longo em proporção ao corpo — o mais longo entre todos os golfinhos — e concentra numerosos dentes pequenos e pontiagudos.

A coloração é acinzentada a acastanhada, mais clara no ventre. A nadadeira dorsal é baixa e de ponta arredondada, e as nadadeiras peitorais são largas, com margem posterior serrilhada. Fêmeas são ligeiramente maiores que machos. O corpo compacto e a emersão discreta tornam a espécie difícil de avistar mesmo em áreas onde é relativamente comum.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento1,3 a 1,8 m
Peso30 a 53 kg
Gestaçãocerca de 11 meses
Longevidadecerca de 20 anos

Habitat

Vive em águas costeiras rasas, geralmente a menos de 30 metros de profundidade e a poucos quilômetros da costa, com preferência por áreas de fundo arenoso ou lodoso e por regiões próximas a estuários, onde a produtividade é maior.

Essa preferência define o conflito: a faixa de mar que a espécie ocupa coincide integralmente com a área de operação da frota pesqueira costeira artesanal e de pequena escala do Sul e Sudeste do Brasil, do Uruguai e da Argentina.

Distribuição geográfica

Endêmica do Atlântico Sul ocidental, ocorre do Espírito Santo, no Brasil, até a província de Chubut, na Argentina. A distribuição não é contínua: há um trecho sem registros no litoral do Espírito Santo e do norte do Rio de Janeiro, conhecido como hiato, que separa a população mais ao norte das demais.

Especialistas dividem a distribuição em quatro áreas de manejo, tratadas separadamente porque apresentam diferenças genéticas e níveis distintos de pressão de pesca. A população do norte, isolada pelo hiato, é considerada a mais frágil do conjunto.

Ocorrência registrada em: Brasil, Uruguai e Argentina.

Alimentação

Alimenta-se de peixes costeiros de pequeno porte, lulas e camarões, capturados perto do fundo. A dieta varia com a região e com a idade: filhotes recém-desmamados consomem presas menores e mais moles.

Usa ecolocalização para localizar presas em água turva, característica das áreas costeiras influenciadas por descargas de rios. Não realiza mergulhos profundos nem persegue cardumes em mar aberto, o que a mantém permanentemente na faixa de maior atividade pesqueira.

Comportamento

Forma grupos pequenos, tipicamente de dois a cinco indivíduos, ocasionalmente maiores em áreas de alimentação. Não salta, não acompanha embarcações e emerge de forma discreta, com pouca perturbação da superfície.

É residente: não realiza migrações longas e mantém-se em áreas relativamente restritas ao longo do ano, com deslocamentos sazonais curtos acompanhando a disponibilidade de presas. Esse comportamento sedentário explica a diferenciação genética entre populações vizinhas e agrava o efeito local da mortalidade em redes.

Reprodução

A gestação dura cerca de 11 meses, e os nascimentos concentram-se entre a primavera e o início do verão. Nasce um único filhote, com cerca de 70 a 75 centímetros, amamentado por aproximadamente nove meses, com início do consumo de presas sólidas antes do desmame completo.

A maturidade sexual chega entre três e cinco anos, cedo em relação a outros cetáceos, e o intervalo entre nascimentos é de cerca de dois anos. Apesar de relativamente rápido para um golfinho, esse ritmo não compensa a mortalidade adicional imposta pela pesca nas áreas mais críticas.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa total confiável para toda a área de distribuição. Levantamentos aéreos e de embarcação produziram estimativas parciais para trechos específicos do litoral, na ordem de milhares de indivíduos por área de manejo, mas com intervalos de confiança amplos. O dado mais consistente e preocupante é o da mortalidade: estudos de captura acidental em várias localidades indicam taxas anuais de remoção superiores ao que as populações locais podem repor.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Sobrepesca e captura acidental

    É a principal ameaça e a causa direta da classificação crítica no Brasil. A espécie se enreda em redes de emalhe costeiras e morre afogada, em números que superam a capacidade de reposição das populações locais.

  • Poluição e resíduos

    Por viver perto da costa e de desembocaduras de rios, acumula contaminantes persistentes e metais pesados nos tecidos, com efeitos sobre reprodução e imunidade. Ingestão de plástico já foi registrada em necropsias.

  • Ocupação e iluminação da costa

    A urbanização do litoral, a dragagem e a expansão portuária degradam áreas de alimentação e aumentam o tráfego de embarcações na faixa usada pela espécie.

  • Colisão e ruído de embarcações

    O ruído de embarcações e de obras costeiras interfere na ecolocalização, ferramenta da qual a espécie depende integralmente para caçar em água turva.

  • Mudanças climáticas

    Alterações na temperatura e na circulação costeira modificam a distribuição das presas e podem deslocar áreas historicamente usadas pela espécie.

Importância ecológica

Como predador costeiro de médio porte, participa do controle de populações de peixes e cefalópodes em ambientes de plataforma rasa. Por ser residente e sensível, funciona como indicador da saúde do ecossistema costeiro: a permanência de grupos estáveis em determinado trecho sinaliza estoques pesqueiros e qualidade de água adequados.

A espécie é também um marcador da intensidade da pesca de emalhe costeira, e o monitoramento de sua mortalidade tem sido usado para orientar propostas de ordenamento pesqueiro no Sul e Sudeste do Brasil.

Projetos de conservação

Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Mamíferos Aquáticos · ICMBio
Instrumento oficial que define metas e ações para a espécie, incluindo redução da captura acidental, monitoramento de encalhes e articulação com o setor pesqueiro.
Redes de monitoramento de encalhes do litoral Sul e Sudeste · Instituições de pesquisa e organizações costeiras
Monitoramento sistemático de praias que registra carcaças, identifica causas de morte e fornece a base de dados usada para estimar mortalidade por pesca.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie consta da Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria criticamente em perigo e está no Anexo II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção. A legislação brasileira proíbe a captura e a molestação de qualquer cetáceo em águas jurisdicionais nacionais.

Na prática, a proteção depende de medidas de ordenamento pesqueiro: restrição de redes de emalhe em áreas e períodos críticos, limite de comprimento de redes, e testes com dispositivos acústicos que alertam os animais sobre a presença de petrechos. A cooperação com Uruguai e Argentina é necessária porque as populações não respeitam fronteiras nacionais.

Curiosidades

  • Tem o rostro mais longo, em proporção ao corpo, entre todos os golfinhos do mundo.
  • Recebe o nome de franciscana em referência à coloração acastanhada, associada ao hábito de frades franciscanos.
  • É o único representante vivo de sua família, sem parentes próximos entre os cetáceos atuais.
  • Existe um trecho do litoral entre o Espírito Santo e o Rio de Janeiro sem registros da espécie, conhecido como hiato, que separa geneticamente as populações.

Fontes consultadas

  1. Pontoporia blainvillei — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2017. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume II: Mamíferos. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Mamíferos Aquáticos. ICMBio, 2023. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 18 de julho de 2026

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