Baleia-franca-austral
Eubalaena australis (Desmoulins, 1822)
Grande baleia do Hemisfério Sul que usa o litoral de Santa Catarina como área de reprodução; recuperou-se globalmente, mas segue ameaçada no Brasil.
- LCPouco preocupante
- Mamíferos
- Ocorre no Brasil
- Também chamada de baleia-franca
Descrição
A baleia-franca-austral recebeu esse nome dos baleeiros: era considerada a baleia certa para caçar, porque nada devagar, aproxima-se da costa e flutua depois de morta. Essa combinação quase levou a espécie ao desaparecimento entre os séculos XVIII e XX, com centenas de milhares de indivíduos abatidos no Hemisfério Sul.
Após a proibição internacional da caça, a espécie apresentou uma das recuperações mais expressivas entre os grandes cetáceos, e a avaliação global foi revista para pouco preocupante. No Brasil, porém, a situação é diferente: a população que usa o litoral de Santa Catarina como área de reprodução foi praticamente eliminada pela caça e ainda se recompõe a partir de um número reduzido de fêmeas reprodutoras, o que mantém a classificação nacional em perigo.
Entre junho e novembro, fêmeas com filhotes ocupam enseadas rasas do sul catarinense, dando origem a uma das temporadas de observação de baleias mais consolidadas do país.
Características físicas
Corpo maciço e escuro, sem nadadeira dorsal — característica que distingue imediatamente as baleias-francas das demais grandes baleias. A cabeça é enorme, correspondendo a cerca de um quarto do comprimento total, com a boca fortemente arqueada.
A marca mais distintiva são as calosidades: áreas de pele espessada na cabeça, ao redor dos olhos e do queixo, colonizadas por pequenos crustáceos que lhes dão aparência esbranquiçada. O padrão de calosidades é único em cada indivíduo e funciona como identificação natural, base dos catálogos de fotoidentificação usados no monitoramento. As nadadeiras peitorais são largas e em forma de pá.
| Comprimento | 13 a 16 m |
|---|---|
| Peso | 40 a 60 toneladas |
| Comprimento ao nascer | cerca de 4 a 6 m |
| Gestação | cerca de 12 meses |
| Longevidade | estimada acima de 50 anos |
Habitat
Alterna dois ambientes ao longo do ano. No verão austral, alimenta-se em águas frias e produtivas de alta latitude, próximas à convergência antártica, onde há grande concentração de crustáceos planctônicos.
No inverno e na primavera, desloca-se para águas costeiras temperadas e subtropicais, onde acasala e dá à luz. As áreas reprodutivas são enseadas abrigadas e rasas, com frequência a poucas centenas de metros da praia — o que aproxima os animais de embarcações, estruturas costeiras e atividades humanas justamente no período mais sensível.
Distribuição geográfica
Distribui-se por todo o Hemisfério Sul, entre aproximadamente 20° e 60° de latitude sul. As principais áreas reprodutivas conhecidas estão na Península Valdés, na Argentina, na costa sul da África do Sul, no sul da Austrália, na Nova Zelândia subantártica e no litoral de Santa Catarina, no Brasil.
No Brasil, a concentração ocorre entre Imbituba e Laguna, com registros que se estendem do Rio Grande do Sul ao sul de São Paulo, e ocorrências ocasionais mais ao norte. A Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca foi criada especificamente para proteger esse trecho de litoral catarinense.
Ocorrência registrada em: Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Antártica e Oceano Antártico.
Alimentação
Alimenta-se por filtragem, nadando lentamente com a boca aberta e retendo pequenos crustáceos planctônicos — sobretudo copépodes e krill — nas cerdas das barbatanas de queratina que substituem os dentes.
A alimentação concentra-se nas áreas de alta latitude durante o verão. Nas áreas reprodutivas costeiras, os animais praticamente não se alimentam e vivem das reservas de gordura acumuladas, o que torna a produtividade das áreas de alimentação um fator determinante para o sucesso reprodutivo da temporada seguinte.
Comportamento
Nada devagar e realiza comportamentos de superfície bastante visíveis: saltos, batidas de cauda e a chamada exposição da nadadeira caudal ao vento, em que o animal permanece com a cauda erguida por longos períodos.
Nas áreas reprodutivas, fêmeas com filhotes permanecem em águas muito rasas, possivelmente para proteção. Grupos de cortejo reúnem vários machos ao redor de uma fêmea. O jato respiratório é característico, em formato de V, resultante das duas narinas separadas — traço útil na identificação a distância.
Reprodução
A gestação dura cerca de doze meses. As fêmeas dão à luz um único filhote em águas costeiras rasas, e o intervalo entre nascimentos é de aproximadamente três anos: um ano de gestação, um de amamentação e um de recuperação das reservas corporais.
O filhote nasce com quatro a seis metros e permanece com a mãe por cerca de um ano, período em que aprende as rotas migratórias — conhecimento transmitido culturalmente, o que explica por que áreas reprodutivas abandonadas durante a era da caça demoram décadas a serem recolonizadas. A maturidade sexual chega por volta dos nove anos.
População estimada e tendência
Estimativa: estimada em algumas dezenas de milhares de indivíduos no Hemisfério Sul, com recuperação sustentada desde o fim da caça comercial
A estimativa global agrega populações distintas com trajetórias diferentes e é apresentada com intervalos amplos pelas próprias avaliações. A população reprodutiva que usa o litoral brasileiro é muito menor, na casa de algumas centenas de indivíduos identificados por fotoidentificação ao longo das temporadas, o que justifica a classificação nacional em perigo apesar do quadro global favorável.
Tendência populacional: Crescente — as estimativas indicam aumento no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Pouco preocupante (LC). Espécie avaliada e considerada fora de risco no momento.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Em perigo (EN). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria pouco preocupante e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Sobrepesca e captura acidental
O emaranhamento em cabos de petrechos de pesca, especialmente linhas de armadilhas e redes fixas, causa ferimentos, exaustão e morte, e é a ameaça direta mais frequente hoje.
Colisão e ruído de embarcações
Por nadar devagar e permanecer perto da superfície em águas costeiras movimentadas, é atingida por embarcações. O ruído de tráfego e de prospecção interfere na comunicação de longa distância entre indivíduos.
Ocupação e iluminação da costa
A ocupação das enseadas usadas para reprodução, com aumento de tráfego náutico e obras, reduz a tranquilidade das áreas de cria em Santa Catarina.
Mudanças climáticas
A variação na disponibilidade de krill nas áreas de alimentação de alta latitude afeta a condição corporal das fêmeas e, com isso, o intervalo entre nascimentos.
Poluição e resíduos
Contaminantes persistentes acumulam-se nos tecidos, e resíduos flutuantes representam risco de ingestão e emaranhamento.
Importância ecológica
Grandes baleias transportam nutrientes entre profundidades e camadas superficiais e entre áreas de alimentação e reprodução, processo que fertiliza águas superficiais e favorece a produtividade do fitoplâncton. Carcaças que afundam levam carbono e matéria orgânica ao fundo oceânico, sustentando comunidades de mar profundo.
No litoral catarinense, a presença sazonal da espécie sustenta uma cadeia de turismo de observação com regras específicas, que gera renda local vinculada diretamente à conservação do ambiente marinho.
Projetos de conservação
- Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca · ICMBio
- Unidade de conservação federal criada no litoral sul de Santa Catarina para proteger a principal área de reprodução da espécie no Brasil, com ordenamento do tráfego náutico e regras para observação.
- Monitoramento por fotoidentificação · Instituições de pesquisa que atuam no litoral catarinense
- Catálogo de indivíduos baseado no padrão único de calosidades, que permite acompanhar retornos, intervalos entre partos e crescimento da população reprodutiva brasileira.
Como a espécie é protegida
A caça comercial de baleias está proibida internacionalmente desde a moratória da Comissão Baleeira Internacional, e a espécie consta do Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção. No Brasil, a legislação proíbe a captura e a molestação de cetáceos em águas jurisdicionais nacionais desde 1987.
A proteção específica combina a área protegida costeira em Santa Catarina, regras de aproximação para embarcações de turismo, ordenamento de petrechos de pesca em áreas e períodos de ocorrência e o monitoramento contínuo que permite avaliar se a população reprodutiva brasileira segue crescendo.
Curiosidades
- O padrão de calosidades na cabeça é único em cada indivíduo e funciona como uma impressão digital usada para identificação.
- Não possui nadadeira dorsal, o que a distingue de imediato das demais grandes baleias.
- O jato respiratório tem formato de V, resultado das duas narinas bem separadas.
- Foi chamada de baleia certa pelos baleeiros porque nada devagar, ocupa águas costeiras e flutua após a morte, características que quase causaram seu desaparecimento.
- As rotas migratórias são aprendidas com a mãe, e áreas abandonadas durante a era da caça levam décadas para voltar a ser usadas.
Fontes consultadas
- Eubalaena australis — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2018. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume II: Mamíferos. ICMBio, 2018. Consultar
- Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca. ICMBio, 2024. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 18 de julho de 2026
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