Kakapo
Strigops habroptilus Gray, 1845
Papagaio da Nova Zelândia que não voa, sobreviveu com poucas dezenas de indivíduos e hoje vive apenas em ilhas livres de predadores.
- CRCriticamente em perigo
- Aves
- Também chamada de papagaio-coruja
Descrição
O kakapo é o único papagaio do mundo que não voa e o mais pesado de todos. Evoluiu na Nova Zelândia, onde não havia mamíferos terrestres predadores, e desenvolveu uma estratégia de sobrevivência baseada em camuflagem e imobilidade — eficaz contra aves de rapina que caçam pelo movimento, e desastrosa contra gatos, arminhos e ratos, que caçam pelo olfato.
A chegada desses mamíferos com a colonização humana quase eliminou a espécie. Na década de 1990, restavam pouco mais de cinquenta indivíduos conhecidos, e a população era composta majoritariamente por machos.
A recuperação em curso é uma das operações de conservação mais intensivas já conduzidas: todos os indivíduos vivos têm nome, ficha individual e transmissor. A população foi transferida para ilhas onde os predadores introduzidos foram erradicados, e cada ninho é monitorado.
Características físicas
Papagaio robusto e pesado, com plumagem verde-musgo salpicada de amarelo e preto, padrão que o torna praticamente invisível contra a vegetação da floresta neozelandesa.
O rosto apresenta um disco de penas finas ao redor do bico e dos olhos, semelhante ao das corujas, o que lhe rendeu o nome de papagaio-coruja. As asas são curtas e insuficientes para voo, usadas apenas para equilíbrio e para amortecer descidas. As pernas são fortes e adaptadas a caminhar e escalar. Possui odor característico, adocicado e forte, que facilita sua detecção por mamíferos predadores.
| Comprimento | cerca de 58 a 64 cm |
|---|---|
| Peso | 1,5 a 4 kg; é o papagaio mais pesado do mundo |
| Postura | 1 a 4 ovos, em anos de frutificação abundante |
| Longevidade | estimada em várias décadas, possivelmente mais de 60 anos |
Habitat
Historicamente ocupava florestas temperadas úmidas, matas de arbustos e áreas subalpinas de toda a Nova Zelândia, do nível do mar às encostas de montanha.
Hoje sobrevive apenas em algumas ilhas costeiras onde todos os mamíferos predadores foram erradicados e onde a vegetação nativa fornece alimento e abrigo. Essas ilhas funcionam como recintos naturais: são cercadas por mar, monitoradas permanentemente e submetidas a protocolos rigorosos de biossegurança para impedir a reintrodução acidental de roedores por embarcações.
Distribuição geográfica
Endêmico da Nova Zelândia. A distribuição histórica cobria as ilhas Norte e Sul e a ilha Stewart, em ampla variedade de ambientes florestais.
A espécie foi extinta em todo o território continental. A população atual está concentrada em algumas ilhas livres de predadores, para onde os indivíduos remanescentes foram transferidos ao longo das últimas décadas. Novas ilhas vêm sendo preparadas conforme a população cresce, já que a capacidade de suporte das áreas atuais é limitada — um problema incomum e, neste caso, positivo.
Ocorrência registrada em: Nova Zelândia.
Alimentação
Estritamente herbívoro. Alimenta-se de frutos, sementes, folhas, caules, raízes e pólen de plantas nativas, com preferência marcada por frutos de uma conífera local cuja frutificação é irregular e ocorre apenas a cada alguns anos.
Essa dependência é central para a reprodução: o kakapo só se reproduz em anos de frutificação abundante dessa árvore. Nos demais anos, simplesmente não há ninhada. O manejo atual inclui suplementação alimentar calculada, usada para influenciar tanto a disposição reprodutiva quanto a proporção de sexos dos filhotes.
Comportamento
É noturno e terrestre, deslocando-se pelo chão da floresta e escalando árvores com o bico e as patas. Diante de ameaça, sua reação instintiva é congelar e confiar na camuflagem — comportamento que o protegia de aves de rapina e o torna presa fácil para mamíferos.
O sistema reprodutivo é peculiar entre os papagaios: os machos reúnem-se em arenas de exibição em pontos elevados, escavam depressões no solo com formato que amplifica o som e emitem chamados graves e ressonantes, repetidos por horas durante várias noites. Esses chamados propagam-se por quilômetros e atraem as fêmeas, que escolhem o parceiro e depois criam os filhotes sozinhas.
Reprodução
A reprodução é intermitente e condicionada à frutificação abundante de plantas específicas, ocorrendo em intervalos de dois a quatro anos ou mais.
A fêmea põe de um a quatro ovos em um ninho no solo, sob raízes ou troncos, e cuida deles sozinha — precisando deixá-los desprotegidos para buscar alimento, o que agrava a exposição a predadores. A incubação dura cerca de 30 dias, e os filhotes permanecem dependentes por vários meses. A maturidade sexual chega tarde, entre quatro e seis anos nas fêmeas. Hoje, cada ninho é monitorado por câmeras, ovos inviáveis são substituídos e filhotes em risco são criados à mão.
População estimada e tendência
Estimativa: pouco mais de duas centenas de indivíduos, todos identificados individualmente
É uma das poucas espécies do mundo cuja população é conhecida com precisão absoluta: cada indivíduo vivo é registrado, nomeado e monitorado por transmissor. O número varia a cada temporada reprodutiva e é divulgado oficialmente pelo programa responsável. A trajetória é de crescimento sustentado desde o mínimo histórico de cerca de cinquenta aves nos anos 1990.
Tendência populacional: Crescente — as estimativas indicam aumento no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.
Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Espécies exóticas invasoras
Gatos, arminhos, furões e ratos introduzidos pela colonização humana são a causa direta do colapso. A estratégia de defesa da espécie, baseada em imobilidade e camuflagem, é inútil contra predadores que caçam pelo olfato.
Perda e conversão de habitat
A conversão de florestas nativas em pastagens e áreas agrícolas reduziu drasticamente o habitat disponível no território continental.
Doenças emergentes
Com população muito pequena e concentrada em poucas ilhas, surtos de doenças respiratórias e fúngicas representam risco de perda expressiva em curto prazo.
Caça e abate ilegal
A caça histórica pela carne e pelas penas contribuiu para a redução das populações antes que os predadores introduzidos se disseminassem.
Importância ecológica
Como grande herbívoro terrestre e consumidor de frutos, participava da dispersão de sementes e do consumo de vegetação em florestas onde não havia mamíferos herbívoros nativos — nicho que, na Nova Zelândia, era ocupado por aves.
O valor científico do caso é igualmente notável: o programa de recuperação do kakapo produziu conhecimento aplicado sobre manejo genético de populações mínimas, suplementação alimentar dirigida, inseminação artificial e biossegurança insular, técnicas hoje usadas em programas de conservação em vários países.
Projetos de conservação
- Programa de Recuperação do Kakapo · Departamento de Conservação da Nova Zelândia
- Manejo individual de todos os indivíduos vivos, transferência para ilhas livres de predadores, monitoramento por transmissores, suplementação alimentar, monitoramento de ninhos por câmeras e criação assistida de filhotes.
- Erradicação de mamíferos introduzidos em ilhas · Departamento de Conservação da Nova Zelândia
- Remoção completa de roedores e mustelídeos das ilhas usadas como refúgio, com protocolos permanentes de biossegurança para impedir reintrodução acidental.
Como a espécie é protegida
A espécie é protegida integralmente pela legislação da Nova Zelândia e está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção.
A proteção é, no caso do kakapo, indistinguível do manejo direto: não existe população fora de áreas geridas intensivamente. Cada ave carrega um transmissor que informa localização e atividade reprodutiva, o genoma de todos os indivíduos foi sequenciado para orientar cruzamentos, e o acesso às ilhas de refúgio é restrito e submetido a inspeção rigorosa contra a entrada de roedores.
Curiosidades
- É o único papagaio do mundo que não voa e o mais pesado de todos.
- O disco facial de penas finas ao redor do bico lembra o de uma coruja e deu origem ao nome papagaio-coruja.
- Machos escavam depressões no solo em pontos elevados e emitem chamados graves que se propagam por quilômetros durante as noites da temporada reprodutiva.
- Só se reproduz em anos de frutificação abundante de determinadas plantas nativas, o que pode significar intervalos de vários anos entre ninhadas.
- Todos os indivíduos vivos têm nome próprio, ficha individual e transmissor, e o genoma de cada um foi sequenciado.
Fontes consultadas
- Strigops habroptila — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2021. Consultar
- Kākāpō recovery. Department of Conservation — Nova Zelândia, 2024. Consultar
- Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 26 de julho de 2026
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