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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Kakapo

Strigops habroptilus Gray, 1845

Papagaio da Nova Zelândia que não voa, sobreviveu com poucas dezenas de indivíduos e hoje vive apenas em ilhas livres de predadores.

Descrição

O kakapo é o único papagaio do mundo que não voa e o mais pesado de todos. Evoluiu na Nova Zelândia, onde não havia mamíferos terrestres predadores, e desenvolveu uma estratégia de sobrevivência baseada em camuflagem e imobilidade — eficaz contra aves de rapina que caçam pelo movimento, e desastrosa contra gatos, arminhos e ratos, que caçam pelo olfato.

A chegada desses mamíferos com a colonização humana quase eliminou a espécie. Na década de 1990, restavam pouco mais de cinquenta indivíduos conhecidos, e a população era composta majoritariamente por machos.

A recuperação em curso é uma das operações de conservação mais intensivas já conduzidas: todos os indivíduos vivos têm nome, ficha individual e transmissor. A população foi transferida para ilhas onde os predadores introduzidos foram erradicados, e cada ninho é monitorado.

Características físicas

Papagaio robusto e pesado, com plumagem verde-musgo salpicada de amarelo e preto, padrão que o torna praticamente invisível contra a vegetação da floresta neozelandesa.

O rosto apresenta um disco de penas finas ao redor do bico e dos olhos, semelhante ao das corujas, o que lhe rendeu o nome de papagaio-coruja. As asas são curtas e insuficientes para voo, usadas apenas para equilíbrio e para amortecer descidas. As pernas são fortes e adaptadas a caminhar e escalar. Possui odor característico, adocicado e forte, que facilita sua detecção por mamíferos predadores.

Medidas registradas para a espécie
Comprimentocerca de 58 a 64 cm
Peso1,5 a 4 kg; é o papagaio mais pesado do mundo
Postura1 a 4 ovos, em anos de frutificação abundante
Longevidadeestimada em várias décadas, possivelmente mais de 60 anos

Habitat

Historicamente ocupava florestas temperadas úmidas, matas de arbustos e áreas subalpinas de toda a Nova Zelândia, do nível do mar às encostas de montanha.

Hoje sobrevive apenas em algumas ilhas costeiras onde todos os mamíferos predadores foram erradicados e onde a vegetação nativa fornece alimento e abrigo. Essas ilhas funcionam como recintos naturais: são cercadas por mar, monitoradas permanentemente e submetidas a protocolos rigorosos de biossegurança para impedir a reintrodução acidental de roedores por embarcações.

Distribuição geográfica

Endêmico da Nova Zelândia. A distribuição histórica cobria as ilhas Norte e Sul e a ilha Stewart, em ampla variedade de ambientes florestais.

A espécie foi extinta em todo o território continental. A população atual está concentrada em algumas ilhas livres de predadores, para onde os indivíduos remanescentes foram transferidos ao longo das últimas décadas. Novas ilhas vêm sendo preparadas conforme a população cresce, já que a capacidade de suporte das áreas atuais é limitada — um problema incomum e, neste caso, positivo.

Ocorrência registrada em: Nova Zelândia.

Alimentação

Estritamente herbívoro. Alimenta-se de frutos, sementes, folhas, caules, raízes e pólen de plantas nativas, com preferência marcada por frutos de uma conífera local cuja frutificação é irregular e ocorre apenas a cada alguns anos.

Essa dependência é central para a reprodução: o kakapo só se reproduz em anos de frutificação abundante dessa árvore. Nos demais anos, simplesmente não há ninhada. O manejo atual inclui suplementação alimentar calculada, usada para influenciar tanto a disposição reprodutiva quanto a proporção de sexos dos filhotes.

Comportamento

É noturno e terrestre, deslocando-se pelo chão da floresta e escalando árvores com o bico e as patas. Diante de ameaça, sua reação instintiva é congelar e confiar na camuflagem — comportamento que o protegia de aves de rapina e o torna presa fácil para mamíferos.

O sistema reprodutivo é peculiar entre os papagaios: os machos reúnem-se em arenas de exibição em pontos elevados, escavam depressões no solo com formato que amplifica o som e emitem chamados graves e ressonantes, repetidos por horas durante várias noites. Esses chamados propagam-se por quilômetros e atraem as fêmeas, que escolhem o parceiro e depois criam os filhotes sozinhas.

Reprodução

A reprodução é intermitente e condicionada à frutificação abundante de plantas específicas, ocorrendo em intervalos de dois a quatro anos ou mais.

A fêmea põe de um a quatro ovos em um ninho no solo, sob raízes ou troncos, e cuida deles sozinha — precisando deixá-los desprotegidos para buscar alimento, o que agrava a exposição a predadores. A incubação dura cerca de 30 dias, e os filhotes permanecem dependentes por vários meses. A maturidade sexual chega tarde, entre quatro e seis anos nas fêmeas. Hoje, cada ninho é monitorado por câmeras, ovos inviáveis são substituídos e filhotes em risco são criados à mão.

População estimada e tendência

Estimativa: pouco mais de duas centenas de indivíduos, todos identificados individualmente

É uma das poucas espécies do mundo cuja população é conhecida com precisão absoluta: cada indivíduo vivo é registrado, nomeado e monitorado por transmissor. O número varia a cada temporada reprodutiva e é divulgado oficialmente pelo programa responsável. A trajetória é de crescimento sustentado desde o mínimo histórico de cerca de cinquenta aves nos anos 1990.

Tendência populacional: Crescente — as estimativas indicam aumento no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.

Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Espécies exóticas invasoras

    Gatos, arminhos, furões e ratos introduzidos pela colonização humana são a causa direta do colapso. A estratégia de defesa da espécie, baseada em imobilidade e camuflagem, é inútil contra predadores que caçam pelo olfato.

  • Perda e conversão de habitat

    A conversão de florestas nativas em pastagens e áreas agrícolas reduziu drasticamente o habitat disponível no território continental.

  • Doenças emergentes

    Com população muito pequena e concentrada em poucas ilhas, surtos de doenças respiratórias e fúngicas representam risco de perda expressiva em curto prazo.

  • Caça e abate ilegal

    A caça histórica pela carne e pelas penas contribuiu para a redução das populações antes que os predadores introduzidos se disseminassem.

Importância ecológica

Como grande herbívoro terrestre e consumidor de frutos, participava da dispersão de sementes e do consumo de vegetação em florestas onde não havia mamíferos herbívoros nativos — nicho que, na Nova Zelândia, era ocupado por aves.

O valor científico do caso é igualmente notável: o programa de recuperação do kakapo produziu conhecimento aplicado sobre manejo genético de populações mínimas, suplementação alimentar dirigida, inseminação artificial e biossegurança insular, técnicas hoje usadas em programas de conservação em vários países.

Projetos de conservação

Programa de Recuperação do Kakapo · Departamento de Conservação da Nova Zelândia
Manejo individual de todos os indivíduos vivos, transferência para ilhas livres de predadores, monitoramento por transmissores, suplementação alimentar, monitoramento de ninhos por câmeras e criação assistida de filhotes.
Erradicação de mamíferos introduzidos em ilhas · Departamento de Conservação da Nova Zelândia
Remoção completa de roedores e mustelídeos das ilhas usadas como refúgio, com protocolos permanentes de biossegurança para impedir reintrodução acidental.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie é protegida integralmente pela legislação da Nova Zelândia e está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção.

A proteção é, no caso do kakapo, indistinguível do manejo direto: não existe população fora de áreas geridas intensivamente. Cada ave carrega um transmissor que informa localização e atividade reprodutiva, o genoma de todos os indivíduos foi sequenciado para orientar cruzamentos, e o acesso às ilhas de refúgio é restrito e submetido a inspeção rigorosa contra a entrada de roedores.

Curiosidades

  • É o único papagaio do mundo que não voa e o mais pesado de todos.
  • O disco facial de penas finas ao redor do bico lembra o de uma coruja e deu origem ao nome papagaio-coruja.
  • Machos escavam depressões no solo em pontos elevados e emitem chamados graves que se propagam por quilômetros durante as noites da temporada reprodutiva.
  • Só se reproduz em anos de frutificação abundante de determinadas plantas nativas, o que pode significar intervalos de vários anos entre ninhadas.
  • Todos os indivíduos vivos têm nome próprio, ficha individual e transmissor, e o genoma de cada um foi sequenciado.

Fontes consultadas

  1. Strigops habroptila — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2021. Consultar
  2. Kākāpō recovery. Department of Conservation — Nova Zelândia, 2024. Consultar
  3. Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 26 de julho de 2026

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