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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Ararinha-azul

Cyanopsitta spixii (Wagler, 1832)

Papagaio azul endêmico da Caatinga baiana, extinto na natureza desde o início dos anos 2000 e alvo de um programa internacional de reintrodução.

Descrição

A ararinha-azul é o exemplo brasileiro mais conhecido de espécie extinta na natureza. Endêmica de uma faixa muito restrita da Caatinga no norte da Bahia, dependia de matas ciliares de caraibeira ao longo de riachos temporários — um ambiente que soma poucos quilômetros quadrados em todo o mundo.

A combinação de duas pressões selou seu destino: a destruição dessas matas por desmatamento e pastoreio, e a captura para o mercado ilegal de aves. Quanto mais rara ficava, maior o valor no tráfico, criando um ciclo que acelerou o desaparecimento. O último indivíduo em liberdade, um macho solitário, foi visto pela última vez no ano 2000.

A espécie sobreviveu apenas em criadouros particulares e institucionais espalhados por vários países. Um programa internacional de reprodução, coordenado com o governo brasileiro, reuniu esses plantéis e iniciou solturas na região de origem a partir de 2022, com aves nascidas em cativeiro liberadas em área com mata ciliar restaurada.

Características físicas

Ave de porte médio para um psitacídeo, com plumagem predominantemente azul: tons acinzentados na cabeça, azul mais intenso nas asas e na cauda, e azul-claro no peito e no ventre.

A cauda é longa e afilada. A área nua ao redor dos olhos é escura, característica que a distingue das araras-azuis maiores, que têm anel ocular amarelo. O bico é robusto e escuro nos adultos. Machos e fêmeas são externamente semelhantes, e a determinação do sexo em cativeiro depende de análise laboratorial.

Medidas registradas para a espécie
Comprimentocerca de 55 a 57 cm, incluindo a cauda
Pesocerca de 300 g
Posturageralmente 2 a 4 ovos
Incubaçãocerca de 25 a 28 dias

Habitat

Dependia estritamente de matas ciliares de caraibeira, árvore de grande porte que cresce ao longo de riachos temporários no interior da Caatinga. Essas galerias de vegetação formam corredores estreitos e verdes em meio à vegetação espinhosa do semiárido.

A caraibeira fornecia os ocos usados para nidificação e servia de poleiro e ponto de referência. A associação era tão estreita que a distribuição da ave coincidia com a distribuição dessas matas — e a destruição delas para pastagem e agricultura eliminou, simultaneamente, os locais de reprodução e de abrigo.

Distribuição geográfica

Endêmica de uma área muito restrita do norte da Bahia, na região dos municípios de Curaçá e Juazeiro, associada às bacias de riachos temporários afluentes do rio São Francisco.

A distribuição histórica conhecida abrange poucos quilômetros quadrados de mata ciliar, uma das áreas de ocorrência mais restritas já documentadas para uma ave brasileira. As solturas do programa de reintrodução ocorrem exatamente nessa região, em áreas onde a vegetação ciliar vem sendo recuperada e há acordos com proprietários rurais.

Ocorrência registrada em: Brasil.

Alimentação

Alimenta-se de sementes e frutos de plantas típicas da Caatinga, com destaque para espécies de faveleira e pinhão-bravo, além de sementes de outras árvores e arbustos do semiárido.

O bico robusto permite quebrar sementes duras e revestidas, recurso disponível mesmo nos períodos secos. Em cativeiro, a dieta é composta por sementes, frutas e ração específica, e um dos desafios do programa de reintrodução é garantir que aves criadas sob cuidados humanos reconheçam e explorem os alimentos nativos após a soltura.

Comportamento

Vive em casais ou pequenos grupos familiares, com forte vínculo entre parceiros. É vocal e comunicativa, com chamados usados para manter contato entre indivíduos ao longo do corredor de mata ciliar.

O voo é rápido e direto. A espécie era descrita como discreta e difícil de observar apesar da coloração chamativa, permanecendo boa parte do tempo no dossel das caraibeiras. Aves reintroduzidas passam por período de aclimatação em recintos abertos na própria área de soltura, para aprendizado de deslocamento, reconhecimento de predadores e localização de recursos.

Reprodução

Nidifica em ocos de árvores de grande porte, historicamente em caraibeiras antigas, que levam décadas para formar cavidades adequadas. A postura é de dois a quatro ovos, incubados por cerca de quatro semanas, com os filhotes permanecendo no ninho por aproximadamente dois meses.

A escassez de árvores maduras com ocos é hoje um dos gargalos da reintrodução, contornado com a instalação de ninhos artificiais. A reprodução em cativeiro é a base do programa: todo o plantel atual descende de um número muito pequeno de fundadores, o que exige manejo genético cuidadoso para evitar perda de variabilidade.

População estimada e tendência

Estimativa: não há população autossustentável em vida livre; o plantel em cativeiro soma algumas centenas de indivíduos, e dezenas de aves foram soltas na natureza desde 2022

Os números de aves reintroduzidas e sobreviventes variam a cada temporada de soltura e são divulgados periodicamente pelas instituições responsáveis. A espécie permanece classificada como extinta na natureza porque ainda não há população em vida livre considerada autossustentável, condição que exige reprodução bem-sucedida no ambiente natural por gerações sucessivas.

Tendência populacional: Desconhecida — não há monitoramento suficiente para determinar a direção da mudança.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Extinta na natureza (EW). Sobrevive apenas em cativeiro ou em populações reintroduzidas fora da área de distribuição original.

Ver a definição completa da categoria extinta na natureza e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Tráfico de animais silvestres

    A captura para o mercado ilegal de aves foi determinante para o desaparecimento na natureza. O valor da espécie no tráfico aumentava conforme ela ficava mais rara, acelerando o processo.

  • Perda e conversão de habitat

    A supressão de matas ciliares de caraibeira para agricultura, pastagem e extração de madeira eliminou tanto os locais de nidificação quanto os corredores de deslocamento.

  • Espécies exóticas invasoras

    Abelhas africanizadas ocupam ocos de árvores adequados para nidificação, e mamíferos exóticos predam ninhos, reduzindo o sucesso reprodutivo na área de reintrodução.

  • Fragmentação de habitat

    O que restou da mata ciliar está em fragmentos isolados, o que limita o deslocamento das aves soltas e a formação de uma população conectada.

  • Mudanças climáticas

    A intensificação de secas prolongadas no semiárido reduz a disponibilidade de água e de recursos alimentares na área de reintrodução.

Importância ecológica

Como consumidora de sementes de plantas da Caatinga, participava da dinâmica de dispersão e predação de sementes em matas ciliares do semiárido. O papel ecológico mais relevante hoje, porém, é indireto: o programa de recuperação transformou a ararinha-azul em espécie-bandeira para a restauração de matas ciliares de caraibeira, um ambiente antes negligenciado nas políticas de conservação.

A recuperação dessas galerias beneficia dezenas de outras espécies de aves, mamíferos e plantas do semiárido e melhora a retenção de água nos riachos temporários.

Projetos de conservação

Programa de reintrodução da ararinha-azul · Governo brasileiro em parceria com instituições internacionais de criação e conservação
Reunião dos plantéis cativos, reprodução com manejo genético, construção de centro de soltura em Curaçá (BA), aclimatação em recintos abertos e solturas monitoradas por telemetria desde 2022.
Refúgios de Vida Silvestre e Área de Proteção Ambiental da Ararinha-Azul · Órgãos ambientais federais e estaduais
Unidades de conservação criadas na região de ocorrência histórica para proteger e restaurar as matas ciliares de caraibeira necessárias à reintrodução.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria extinta na natureza e está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, que proíbe o comércio internacional para fins comerciais.

A proteção prática combina o Plano de Ação Nacional específico, as unidades de conservação criadas na área histórica, acordos com proprietários rurais para restauração de mata ciliar, controle rigoroso do plantel cativo com registro individual e monitoramento por telemetria de todas as aves soltas.

Curiosidades

  • A espécie foi descrita a partir de um exemplar coletado no início do século XIX por um naturalista alemão que percorreu o interior do Brasil, e o nome científico homenageia esse coletor.
  • O último indivíduo conhecido em liberdade era um macho solitário, avistado pela última vez no ano 2000 na região de Curaçá, na Bahia.
  • Todo o plantel mundial atual descende de um número muito pequeno de aves fundadoras, o que torna o manejo genético uma tarefa central do programa.
  • As aves soltas passam por um período de adaptação em recintos abertos na própria área de reintrodução, para aprender a reconhecer alimentos nativos e predadores.
  • A caraibeira, árvore da qual a espécie dependia para nidificar, leva décadas para formar ocos de tamanho adequado.

Fontes consultadas

  1. Cyanopsitta spixii — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2019. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume III: Aves. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-Azul. ICMBio, 2023. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 22 de julho de 2026

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