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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Arara-azul-grande

Anodorhynchus hyacinthinus (Latham, 1790)

A maior arara do mundo, símbolo do Pantanal, recuperada de um colapso causado pelo tráfico graças a três décadas de trabalho de campo.

Descrição

A arara-azul-grande é a maior espécie de arara do planeta e uma das aves mais reconhecíveis do Brasil. Nos anos 1980, a captura para o tráfico internacional de aves havia reduzido a população pantaneira a poucos milhares de indivíduos, com estimativas que falavam em cerca de 1.500 aves na região.

A recuperação parcial que se seguiu é um dos casos mais bem documentados de conservação no país. O trabalho combinou instalação de ninhos artificiais, monitoramento de reprodução, plantio de palmeiras e, principalmente, engajamento de fazendeiros pantaneiros, que passaram de coniventes com a captura a guardiões dos ninhos em suas propriedades.

A espécie continua classificada como vulnerável: a recuperação foi expressiva no Pantanal, mas as populações da Amazônia e do Cerrado seguem sob pressão, e a dependência de poucas espécies de palmeira e de árvores muito antigas para nidificar mantém a vulnerabilidade estrutural.

Características físicas

É a maior arara do mundo em comprimento, com plumagem azul-cobalto uniforme e intensa em todo o corpo. Os traços mais distintivos são o anel de pele nua amarelo-vivo ao redor dos olhos e a faixa amarela na base da mandíbula inferior.

O bico é enorme, curvo e extremamente forte — capaz de quebrar cocos de palmeira que resistem à pressão de um martelo. A cauda é longa e afilada, correspondendo a boa parte do comprimento total. Machos e fêmeas são externamente idênticos. Os jovens têm bico mais claro e cauda mais curta.

Medidas registradas para a espécie
Comprimentocerca de 100 cm, incluindo a cauda
Envergaduracerca de 120 a 140 cm
Peso1,2 a 1,7 kg
Posturageralmente 2 ovos, com sobrevivência frequente de apenas um filhote
Longevidadepode passar de 50 anos

Habitat

Ocupa formações abertas e semiabertas com presença de palmeiras produtoras dos cocos que compõem sua dieta e de árvores de grande porte com ocos adequados para nidificação.

No Pantanal, associa-se a matas de galeria, capões e áreas de pastagem com manduvis remanescentes — árvore em cujos ocos a espécie nidifica preferencialmente. No Cerrado e na Amazônia oriental, ocupa veredas, buritizais e bordas de mata. A necessidade simultânea de palmeiras produtivas e de árvores centenárias com cavidades restringe muito a área efetivamente utilizável.

Distribuição geográfica

Ocorre em três núcleos separados: o Pantanal, no Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, com extensão à Bolívia e ao Paraguai; a Amazônia oriental, sobretudo na região do baixo Tocantins, Pará e Maranhão; e áreas de Cerrado no norte da Bahia, Piauí, Tocantins e Goiás.

O núcleo pantaneiro concentra a maior parte da população conhecida e é onde o monitoramento é mais consistente. As populações amazônica e do Cerrado são menos estudadas, mais fragmentadas e enfrentam pressões distintas, com perda de habitat acelerada pela expansão agrícola e por grandes obras.

Ocorrência registrada em: Brasil, Bolívia e Paraguai.

Alimentação

Especialista em cocos de poucas espécies de palmeira. No Pantanal, alimenta-se principalmente de acuri e bocaiúva; na Amazônia e no Cerrado, de tucum, babaçu e outras palmeiras regionais.

O bico gigantesco é a ferramenta que permite explorar esse nicho: quebra endocarpos que praticamente nenhum outro animal consegue abrir. No Pantanal, a espécie aproveita cocos de acuri que passaram pelo trato digestivo do gado, mais fáceis de abrir — uma associação curiosa com a pecuária local. Essa especialização alimentar, porém, torna a espécie refém da saúde dos palmeirais.

Comportamento

Vive em casais com vínculo duradouro, frequentemente acompanhados dos filhotes da temporada, e forma agregações maiores em locais de alimentação e dormitório. A vocalização é alta e rouca, audível a grande distância.

Os casais defendem o oco de nidificação com persistência, mas a competição por cavidades é intensa: tucanos, corujas, abelhas e outros psitacídeos disputam os mesmos ocos. Tucanos, aliás, são ao mesmo tempo competidores e predadores de ovos, respondendo por parcela relevante da perda de ninhos.

Reprodução

Nidifica em ocos naturais de árvores de grande porte, no Pantanal preferencialmente em manduvis com mais de sessenta anos, e ocasionalmente em paredões rochosos na região do Cerrado.

A postura é de dois ovos, incubados por cerca de 29 dias. Na prática, quase sempre apenas um filhote sobrevive: o segundo, nascido dias depois, raramente compete com sucesso pelo alimento. O filhote permanece no ninho por cerca de três meses e continua dependente dos pais por mais de meio ano. A maturidade sexual chega por volta dos sete anos, e o casal se reproduz a cada um ou dois anos — ritmo lento, que explica por que a recuperação exigiu décadas.

População estimada e tendência

Estimativa: estimada em torno de 6.500 indivíduos maduros, com a maior parte concentrada no Pantanal

A estimativa é apresentada com incerteza pelas próprias avaliações, e os números variam conforme a metodologia e o núcleo populacional considerado. O contraste com o quadro dos anos 1980, quando o Pantanal abrigava cerca de 1.500 aves, é o dado mais significativo: houve recuperação real e mensurável, ainda que a tendência global permaneça de declínio por causa da pressão sobre as populações amazônicas e do Cerrado.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Tráfico de animais silvestres

    A captura de filhotes para o mercado ilegal de aves foi a principal causa do colapso populacional nos anos 1980 e ainda ocorre, sobretudo nas populações menos monitoradas da Amazônia e do Cerrado.

  • Perda e conversão de habitat

    A supressão de palmeirais e a derrubada de árvores antigas para pastagem e lavoura eliminam simultaneamente alimento e locais de nidificação.

  • Incêndios e queimadas

    Incêndios de grande extensão no Pantanal e no Cerrado destroem árvores-ninho centenárias que levam décadas para serem repostas, além de matar filhotes em ninhos ativos.

  • Fragmentação de habitat

    A conversão de áreas naturais isola os núcleos populacionais e reduz o fluxo de indivíduos entre Pantanal, Cerrado e Amazônia.

  • Caça e abate ilegal

    O abate para uso das penas em adornos e, em menor escala, o abate em retaliação por danos a plantações são registrados em parte da área de ocorrência.

Importância ecológica

É dispersora e predadora de sementes de palmeiras, influenciando a distribuição desses vegetais em savanas e áreas alagáveis. Ao abrir cocos que nenhum outro animal consegue quebrar, disponibiliza restos aproveitados por outras espécies.

Funciona também como espécie-bandeira do Pantanal: a proteção dos manduvis centenários necessários para sua nidificação preserva árvores que abrigam dezenas de outras espécies dependentes de cavidades, e o programa de conservação tornou-se referência de articulação entre pesquisa e produtores rurais.

Projetos de conservação

Instituto Arara Azul · Organização de pesquisa e conservação sediada no Mato Grosso do Sul
Programa de longa duração no Pantanal com instalação e manutenção de ninhos artificiais, monitoramento de reprodução, manejo de filhotes e trabalho contínuo com proprietários rurais e comunidades.
Ações de conservação na Amazônia oriental e no Cerrado · Instituições de pesquisa e organizações regionais
Levantamentos populacionais e proteção de sítios de nidificação nos núcleos menos conhecidos da distribuição, onde as pressões sobre o habitat são mais intensas.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie consta do Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, o que proíbe o comércio internacional para fins comerciais, e integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria vulnerável.

A proteção efetiva no Pantanal apoia-se menos em fiscalização e mais em uma rede de fazendas parceiras que protegem ninhos, somada ao turismo de observação que dá valor econômico à presença das aves. A instalação de centenas de ninhos artificiais compensou parcialmente a escassez de ocos naturais e é hoje responsável por parcela significativa dos nascimentos registrados.

Curiosidades

  • É a maior arara do mundo em comprimento, chegando a um metro da cabeça à ponta da cauda.
  • O bico é forte o bastante para quebrar cocos de palmeira que resistem a impactos capazes de trincar pedra.
  • No Pantanal, aproveita cocos de acuri já processados pelo trato digestivo do gado, que ficam mais fáceis de abrir.
  • Nidifica preferencialmente em ocos de manduvis com mais de sessenta anos, árvores que não podem ser repostas em curto prazo.
  • Quase sempre apenas um dos dois filhotes de cada ninhada sobrevive, porque o segundo nasce dias depois e não compete pelo alimento.

Fontes consultadas

  1. Anodorhynchus hyacinthinus — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2021. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume III: Aves. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 22 de julho de 2026

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