Mutum-do-nordeste
Pauxi mitu (Linnaeus, 1766)
Ave endêmica da Mata Atlântica de Alagoas e Pernambuco, extinta na natureza desde os anos 1980 e em processo de reintrodução.
- EWExtinta na natureza
- Aves
- Endêmica do Brasil
- Também chamada de mutum-de-alagoas
Descrição
O mutum-do-nordeste é uma ave de grande porte que existia apenas nas florestas atlânticas do interior de Alagoas e Pernambuco. A região perdeu a quase totalidade de sua cobertura florestal original para o cultivo de cana-de-açúcar, e com ela desapareceu o habitat da espécie.
Os últimos indivíduos em vida livre foram registrados na década de 1980. A espécie sobreviveu porque um pequeno número de aves havia sido capturado e mantido em criadouros particulares, e todo o plantel mundial atual descende desse punhado de fundadores — situação que gerou, ao longo das décadas, sérios problemas de consanguinidade e um episódio de hibridação com uma espécie aparentada que precisou ser identificado e separado geneticamente.
Desde 2019, aves nascidas em cativeiro vêm sendo soltas em remanescentes florestais protegidos de Alagoas, no primeiro esforço estruturado de devolver a espécie ao ambiente natural.
Características físicas
Ave robusta e de grande porte, com plumagem preta de brilho azulado no corpo, ventre castanho-avermelhado e ponta da cauda esbranquiçada.
A característica mais marcante é o bico: alto, comprimido lateralmente e de coloração vermelha intensa, com formato distinto de qualquer outra ave brasileira. Possui ainda um topete de penas eriçadas na cabeça. Machos e fêmeas são semelhantes na aparência. As pernas são fortes e adaptadas ao deslocamento pelo solo da floresta.
| Comprimento | cerca de 83 a 89 cm |
|---|---|
| Peso | estimado em torno de 2,5 a 3 kg |
| Postura | geralmente 2 ovos |
| Incubação | cerca de 30 dias |
Habitat
Ocupava a Mata Atlântica de baixada e de encosta do Nordeste, em áreas úmidas com sub-bosque denso e presença de cursos d'água, no chamado Centro de Endemismo Pernambuco — o trecho da Mata Atlântica ao norte do rio São Francisco.
Esse é o setor mais devastado do bioma: restam fragmentos pequenos e isolados, cercados por canaviais. A espécie precisava de floresta contínua com abundância de frutos no chão e sub-bosque para abrigo, condições que hoje só existem em alguns remanescentes protegidos onde a reintrodução vem sendo conduzida.
Distribuição geográfica
Endêmica da Mata Atlântica do Nordeste, com registros históricos restritos a Alagoas e Pernambuco, e possivelmente à Paraíba e ao Rio Grande do Norte em época anterior.
A última população conhecida vivia em remanescentes florestais do interior de Alagoas, na região dos municípios de São Miguel dos Campos e vizinhança, e desapareceu nos anos 1980. As solturas atuais ocorrem em áreas protegidas do mesmo estado, escolhidas por manterem cobertura florestal suficiente e vigilância contra caça.
Ocorrência registrada em: Brasil.
Alimentação
Alimenta-se de frutos caídos, sementes, folhas e brotos coletados no chão da floresta, complementados eventualmente por pequenos invertebrados. É uma ave essencialmente frugívora de sub-bosque.
O tamanho do bico e do corpo permitia processar frutos e sementes grandes, papel hoje desempenhado por poucos animais na Mata Atlântica nordestina. Em cativeiro, a dieta é composta por frutas, verduras, sementes e ração, e o preparo das aves para soltura inclui a apresentação de frutos nativos que elas precisarão reconhecer na floresta.
Comportamento
É uma ave predominantemente terrestre, que caminha pelo chão da floresta em busca de alimento e sobe às árvores para pernoitar em galhos altos, comportamento típico da família.
Vive sozinha ou em casais, e é discreta apesar do porte. O macho emite um som grave e ressonante, produzido com auxílio da traqueia alongada, que se propaga bem no interior da mata. O hábito terrestre e o porte tornaram a espécie alvo preferencial de caça, fator que, somado ao desmatamento, selou seu destino em vida livre.
Reprodução
Constrói ninhos volumosos de galhos e folhas em árvores ou emaranhados de vegetação, a alguns metros do solo. A postura é de dois ovos grandes, incubados por cerca de um mês.
Os filhotes são precoces e deixam o ninho poucos dias após a eclosão, acompanhando os pais pelo sub-bosque. A reprodução em cativeiro é bem estabelecida, mas o manejo genético é a preocupação central: com um número muito pequeno de fundadores, cada cruzamento é planejado para preservar a variabilidade restante, e aves com sinais de hibridação foram excluídas do programa de reintrodução.
População estimada e tendência
Estimativa: não há população autossustentável em vida livre; o plantel em cativeiro soma pouco mais de duas centenas de aves, e dezenas foram soltas em Alagoas desde 2019
Os números do plantel e das solturas variam a cada temporada e são acompanhados pelas instituições responsáveis. A espécie permanece classificada como extinta na natureza porque as aves soltas ainda não constituem população autossustentável, condição que exige reprodução bem-sucedida na floresta ao longo de gerações.
Tendência populacional: Desconhecida — não há monitoramento suficiente para determinar a direção da mudança.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Extinta na natureza (EW). Sobrevive apenas em cativeiro ou em populações reintroduzidas fora da área de distribuição original.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Extinta na natureza (EW). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria extinta na natureza e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Perda e conversão de habitat
A conversão quase total da Mata Atlântica de Alagoas e Pernambuco em canaviais eliminou o habitat da espécie e foi a causa estrutural de seu desaparecimento.
Caça e abate ilegal
O porte, o hábito terrestre e a carne apreciada fizeram da espécie alvo preferencial de caça, pressão que acelerou o colapso das últimas populações.
Fragmentação de habitat
Os remanescentes disponíveis para reintrodução são pequenos e isolados entre si, o que limita o tamanho possível das populações e impede troca natural de indivíduos.
Espécies exóticas invasoras
Cães e outros animais domésticos presentes no entorno dos fragmentos representam risco de predação para aves soltas, que se deslocam pelo chão da floresta.
Incêndios e queimadas
A queima de canaviais no entorno pode atingir bordas de fragmentos florestais usados na reintrodução.
Importância ecológica
Como frugívoro de grande porte que se alimenta no chão da floresta, dispersava sementes de plantas cujos frutos poucos animais conseguem processar. A ausência da espécie contribuiu para o empobrecimento funcional dos remanescentes de Mata Atlântica nordestina, fenômeno em que a floresta permanece de pé mas perde os animais responsáveis por sua regeneração.
A reintrodução tem, portanto, um objetivo que vai além da espécie: recuperar um processo ecológico interrompido há décadas em um dos trechos mais ameaçados do bioma.
Projetos de conservação
- Programa de reintrodução do mutum-do-nordeste · Criadouros conservacionistas em parceria com órgãos ambientais e organizações de conservação
- Manejo genético do plantel cativo, exclusão de indivíduos híbridos, preparo das aves para soltura e liberação monitorada em remanescentes florestais protegidos de Alagoas desde 2019.
- Proteção de remanescentes da Mata Atlântica nordestina · Órgãos ambientais e organizações de conservação
- Criação e manutenção de áreas protegidas nos fragmentos florestais de Alagoas usados como sítios de reintrodução, com vigilância contra caça e restauração de vegetação.
Como a espécie é protegida
A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria extinta na natureza e é objeto de Plano de Ação Nacional específico. Está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção.
Todo o plantel cativo é registrado individualmente e submetido a análise genética, medida adotada após a constatação de que parte das aves apresentava mistura com uma espécie aparentada. A reintrodução depende da proteção contínua dos poucos fragmentos florestais disponíveis e do controle da caça em seu entorno.
Curiosidades
- O bico alto, comprimido e vermelho é único entre as aves brasileiras e dá nome popular à espécie em algumas regiões.
- Todo o plantel mundial descende de um número muito pequeno de aves capturadas antes do desaparecimento na natureza.
- Parte das aves do plantel apresentava mistura genética com uma espécie aparentada, e foi preciso separar os indivíduos puros antes de iniciar as solturas.
- O macho emite um som grave e ressonante produzido com auxílio da traqueia alongada, que se propaga por longas distâncias no interior da mata.
- A Mata Atlântica ao norte do rio São Francisco, onde a espécie vivia, é o trecho mais devastado do bioma.
Fontes consultadas
- Pauxi mitu — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2020. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume III: Aves. ICMBio, 2018. Consultar
- Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves da Mata Atlântica. ICMBio, 2022. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 24 de julho de 2026
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