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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Mico-leão-dourado

Leontopithecus rosalia (Linnaeus, 1766)

Primata endêmico da Mata Atlântica de baixada do Rio de Janeiro, símbolo da conservação brasileira e caso raro de recuperação populacional documentada.

Descrição

O mico-leão-dourado existe apenas em um trecho da Mata Atlântica de baixada no estado do Rio de Janeiro. É provavelmente o caso mais conhecido de conservação bem-sucedida no Brasil: na década de 1970, a população havia sido reduzida a algumas centenas de indivíduos, e a extinção parecia próxima.

A recuperação combinou reprodução em cativeiro em instituições de vários países, reintrodução de grupos na natureza, restauração florestal em propriedades particulares e criação de reservas. O trabalho permitiu que a espécie fosse reclassificada de criticamente em perigo para em perigo, mudança sustentada por censos periódicos.

A história também mostra a fragilidade desses ganhos. O surto de febre amarela silvestre entre 2016 e 2018 atingiu a população de forma severa e reduziu em cerca de um terço o número de indivíduos, exigindo campanha de vacinação dos animais e reforço do monitoramento.

Características físicas

Pelagem alaranjada intensa e uniforme, com juba de pelos longos ao redor da face que dá origem ao nome. A face é escura e sem pelos. A cauda é longa, não preênsil, usada para equilíbrio nos saltos entre galhos.

As mãos são estreitas e os dedos alongados, adaptados para extrair presas de frestas em cascas, bromélias e ocos. Diferentemente dos primatas de maior porte, possui garras em vez de unhas achatadas na maior parte dos dedos, o que auxilia na sustentação em troncos verticais.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento do corpo26 a 33 cm, sem a cauda
Cauda32 a 40 cm
Peso500 a 700 g
Tamanho do grupo2 a 8 indivíduos
Longevidadecerca de 15 anos em vida livre

Habitat

Depende de floresta atlântica de baixada, abaixo de 300 metros de altitude, com dossel fechado, abundância de bromélias e de árvores com ocos que servem de dormitório. É justamente o tipo de floresta que sofreu a maior conversão histórica, por estar em terreno plano e próximo ao litoral.

Cada grupo defende um território de 40 a mais de 100 hectares, e a existência de árvores com cavidades adequadas para pernoite é um fator limitante: sem elas, o grupo fica exposto a predadores durante a noite.

Distribuição geográfica

Ocorre exclusivamente em remanescentes de Mata Atlântica na bacia do rio São João e arredores, no leste do estado do Rio de Janeiro, com destaque para a Reserva Biológica de Poço das Antas, a Reserva Biológica União e reservas privadas na região.

A área de ocupação total é pequena e altamente fragmentada, distribuída entre dezenas de manchas de floresta separadas por pastagem, agricultura e áreas urbanas. Os corredores florestais implantados nas últimas décadas, incluindo passagens sobre rodovia, foram desenhados para reconectar esses fragmentos.

Ocorrência registrada em: Brasil.

Alimentação

Onívoro, com dieta baseada em frutos maduros, complementada por insetos, pequenos vertebrados como lagartos e rãs, ovos, néctar e exsudatos de plantas.

A técnica de forrageamento é característica: introduz os dedos longos em frestas de casca, tocos de bambu e bromélias em busca de presas escondidas. Nos períodos de escassez de frutos, aumenta o consumo de néctar e de invertebrados. Como consome frutos de muitas espécies e se desloca por áreas amplas, atua como dispersor de sementes.

Comportamento

Vive em grupos familiares, normalmente formados por um casal reprodutor e seus filhotes de diferentes ninhadas. A cooperação é intensa: irmãos mais velhos e o pai carregam e alimentam os mais novos.

É diurno, dorme em ocos de árvore e mantém coesão do grupo por vocalizações agudas de longo alcance. Os territórios são defendidos por exibições vocais nas bordas, com confrontos físicos raros. O grupo percorre um circuito relativamente previsível entre árvores frutíferas e locais de forrageio.

Reprodução

O casal dominante monopoliza a reprodução. A gestação dura cerca de 125 a 130 dias e resulta com frequência em gêmeos, característica dos calitriquídeos. Há normalmente uma ninhada por ano, com possibilidade de duas em anos de boa oferta de alimento.

Os filhotes são carregados pelo grupo desde os primeiros dias, e o pai assume parte importante do transporte a partir da segunda semana. O desmame ocorre por volta dos três meses, e a maturidade sexual entre 18 e 24 meses. Jovens em idade reprodutiva costumam dispersar para formar novos grupos, movimento que depende da existência de conexão entre fragmentos.

População estimada e tendência

Estimativa: estimada em cerca de 2.500 indivíduos em levantamento de 2014, com redução de aproximadamente um terço após o surto de febre amarela de 2016 a 2018

Esta é uma das poucas espécies brasileiras com série histórica de censos, conduzida pelas instituições que atuam na região. Os números divulgados variam conforme o ano e a metodologia do levantamento, e censos posteriores ao surto indicam recuperação parcial. Recomenda-se consultar os balanços mais recentes das instituições responsáveis para o valor atualizado.

Tendência populacional: Estável — não há evidência de aumento ou redução consistente.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Em perigo (EN). Risco muito alto de extinção na natureza a médio prazo.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Em perigo (EN). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Fragmentação de habitat

    A floresta remanescente está dividida em manchas pequenas separadas por áreas ocupadas. Grupos isolados perdem diversidade genética, e a dispersão de jovens depende de corredores que ainda estão em formação.

  • Doenças emergentes

    O surto de febre amarela silvestre entre 2016 e 2018 provocou queda acentuada na população. Desde então, parte dos animais é vacinada, estratégia inédita aplicada a primatas de vida livre no Brasil.

  • Perda e conversão de habitat

    A Mata Atlântica de baixada foi historicamente convertida em pastagem, lavoura e área urbana, e a pressão imobiliária na região continua.

  • Atropelamentos e barreiras de infraestrutura

    Rodovias que cortam a área de ocorrência causam mortalidade e separam fragmentos; a duplicação de uma delas motivou a construção de passagens específicas para a espécie.

  • Espécies exóticas invasoras

    A presença do mico-estrela, introduzido na região, gera competição por recursos e risco de hibridação com espécies do gênero, além de transmissão de doenças.

  • Tráfico de animais silvestres

    A captura para o comércio ilegal foi uma das causas históricas do declínio e, embora muito reduzida, permanece como risco em razão do alto valor atribuído à espécie.

Importância ecológica

Atua como dispersor de sementes de dezenas de espécies de plantas da Mata Atlântica de baixada, papel relevante em fragmentos onde os grandes frugívoros já desapareceram.

Seu valor de conservação vai além da função ecológica: por ser uma espécie carismática e restrita a uma região definida, tornou-se referência para a proteção de todo o conjunto de espécies da Mata Atlântica de baixada, e as reservas e corredores criados em seu nome beneficiam centenas de outras espécies.

Projetos de conservação

Programa de conservação do mico-leão-dourado · Associação Mico-Leão-Dourado
Reintrodução e translocação de grupos, restauração florestal em propriedades particulares, criação de reservas privadas, corredores ecológicos e censo populacional periódico.
Vacinação contra febre amarela em primatas de vida livre · Instituições de pesquisa e órgãos ambientais
Campanha de imunização de indivíduos após o surto de 2016 a 2018, com acompanhamento sanitário da população.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie está no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção e integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria em perigo. A Mata Atlântica conta ainda com legislação específica de proteção da vegetação remanescente.

Na prática, a proteção se apoia em duas reservas biológicas federais na área de ocorrência, em uma rede de reservas particulares do patrimônio natural, na exigência de medidas de mitigação em obras de infraestrutura na região e no monitoramento contínuo conduzido pelas instituições responsáveis.

Curiosidades

  • Foi a primeira espécie brasileira a se tornar símbolo nacional de conservação, tendo figurado em cédula de dinheiro em circulação no país.
  • Gêmeos são a regra, e não a exceção, entre os micos-leões.
  • O pai e os irmãos mais velhos carregam os filhotes na maior parte do tempo, revezando com a mãe.
  • A reclassificação da espécie para uma categoria de risco menos severa em 2003 foi um dos primeiros casos brasileiros de melhora de status por resultado de conservação.

Fontes consultadas

  1. Leontopithecus rosalia — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2021. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume II: Mamíferos. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Associação Mico-Leão-Dourado — censos e relatórios de atividade. AMLD, 2024. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 5 de agosto de 2026

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