Pato-mergulhão
Mergus octosetaceus Vieillot, 1817
Uma das aves aquáticas mais raras do mundo, dependente de rios de água limpa e corrente no Cerrado, com poucas centenas de indivíduos remanescentes.
- CRCriticamente em perigo
- Aves
- Ocorre no Brasil
- Também chamada de merganso-brasileiro
Descrição
O pato-mergulhão é considerado uma das aves aquáticas mais raras do planeta. Depende de um recurso cada vez mais escasso: rios de água limpa, corrente e transparente, com fundo rochoso ou pedregoso e mata ciliar preservada nas margens.
Essa exigência o transformou em um indicador direto da qualidade dos rios do Cerrado. Onde a água fica turva por assoreamento, garimpo ou barragem, a espécie desaparece — não por perseguição, mas porque não consegue mais enxergar as presas que caça mergulhando.
A distribuição histórica cobria vários estados brasileiros, além da Argentina e do Paraguai. Hoje restam poucos núcleos conhecidos, concentrados na Chapada dos Veadeiros, na Serra da Canastra, no Jalapão e em áreas próximas. Nos países vizinhos, a espécie é considerada possivelmente extinta ou reduzida a registros isolados.
Características físicas
Pato de porte médio e silhueta esguia, com plumagem escura: cabeça e pescoço pretos com brilho esverdeado, dorso cinza-escuro e ventre mais claro, acinzentado. Apresenta um topete de penas alongadas na nuca, presente em ambos os sexos.
O bico é longo, estreito e serrilhado nas bordas — adaptação para segurar peixes escorregadios, característica do grupo dos mergansos. Há uma mancha branca visível na asa durante o voo. Machos e fêmeas são semelhantes, com a fêmea ligeiramente menor e de topete mais curto.
| Comprimento | cerca de 49 a 56 cm |
|---|---|
| Peso | cerca de 700 g |
| Postura | geralmente 3 a 8 ovos |
| Território de casal | trechos de rio de vários quilômetros de extensão |
Habitat
Ocupa exclusivamente trechos de rios rasos, velozes e de água transparente, com corredeiras, fundo de pedra ou cascalho e mata ciliar contínua nas margens. Evita águas paradas, turvas ou represadas.
A transparência da água é condição indispensável, pois a espécie caça por perseguição visual submersa. A mata ciliar fornece os ocos de árvore usados para nidificação e sombra que mantém a temperatura da água. A combinação — rio limpo, corrente, com pedras e floresta na margem — é justamente o que desaparece primeiro quando uma bacia é ocupada.
Distribuição geográfica
A distribuição histórica abrangia bacias do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além do norte da Argentina e do leste do Paraguai. A área atual é uma fração disso.
Os núcleos conhecidos no Brasil concentram-se em Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros; em Minas Gerais, na Serra da Canastra e áreas próximas; e no Tocantins, na região do Jalapão. Há registros esparsos em outras localidades. Na Argentina, a espécie não é registrada com segurança há décadas em grande parte da área histórica, e no Paraguai é considerada possivelmente extinta.
Ocorrência registrada em: Brasil, Argentina e Paraguai.
Alimentação
Alimenta-se principalmente de peixes de pequeno porte capturados em mergulho, complementados por insetos aquáticos, moluscos e outros invertebrados.
Caça nadando com a cabeça submersa para localizar presas e mergulhando em perseguição, usando o bico serrilhado para segurar peixes. Toda a estratégia depende de visibilidade: em água turva, a caça é inviável. É por isso que o assoreamento causado por desmatamento das margens e por garimpo tem efeito tão direto sobre a permanência da espécie em um trecho de rio.
Comportamento
Vive em casais territoriais que ocupam trechos de rio de vários quilômetros e permanecem juntos ao longo do ano. Os casais defendem o território contra outros indivíduos da espécie, o que limita naturalmente a densidade populacional mesmo em rios preservados.
É arisco e reage rapidamente à aproximação de pessoas ou embarcações, voando rente à água rio acima ou rio abaixo. Fora da reprodução, o casal pode ser acompanhado dos filhotes da temporada. A intolerância à perturbação faz do turismo náutico desordenado em rios de corredeira um fator relevante de deslocamento.
Reprodução
Nidifica em ocos de árvores da mata ciliar e, em algumas localidades, em fendas de barrancos ou paredões rochosos próximos ao rio. A postura varia de três a oito ovos, incubados pela fêmea por cerca de um mês.
Os filhotes deixam o ninho poucos dias após a eclosão e passam a acompanhar os pais na água, alimentando-se sozinhos desde cedo, mas dependentes de proteção. A mortalidade de filhotes é alta, e frequentemente apenas parte da ninhada chega à idade adulta. O período reprodutivo concentra-se no fim da estação seca, quando o nível dos rios está baixo e a água mais clara.
População estimada e tendência
Estimativa: estimada em menos de 250 indivíduos maduros no mundo
A estimativa é reconhecidamente imprecisa, dada a dificuldade de amostrar trechos extensos de rio em áreas remotas. Existe consenso, porém, sobre a ordem de grandeza — poucas centenas de aves — e sobre o fato de que os núcleos conhecidos estão isolados entre si, sem troca de indivíduos documentada.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Barragens e alteração dos rios
Pequenas centrais hidrelétricas e barramentos transformam trechos de corredeira em água parada, eliminando o ambiente de caça e nidificação da espécie de forma definitiva.
Mineração e garimpo
O garimpo e a extração de areia aumentam a turbidez e assoreiam o leito, inviabilizando a caça visual submersa mesmo quando o rio continua correndo.
Perda e conversão de habitat
A supressão da mata ciliar remove os ocos de árvore usados para nidificar e acelera o carreamento de sedimento para dentro do rio.
Poluição e resíduos
Agrotóxicos e efluentes carregados das lavouras vizinhas reduzem a qualidade da água e a abundância de presas.
Conflito com atividades humanas
O uso recreativo intenso de rios de corredeira, com embarcações e banhistas, afasta casais de trechos historicamente ocupados durante o período reprodutivo.
Incêndios e queimadas
Incêndios de grande extensão no Cerrado atingem matas de galeria e destroem árvores com ocos usados para nidificação.
Importância ecológica
Como predador de topo do sistema de rios de corredeira, ocupa uma posição funcional pouco comum entre as aves do Cerrado e influencia comunidades de peixes e invertebrados aquáticos.
Seu valor mais evidente é como indicador: a presença de um casal de pato-mergulhão atesta que aquele trecho de rio mantém água limpa, corrente natural, fundo íntegro e mata ciliar funcional. Programas de conservação da espécie acabam protegendo bacias inteiras, com benefício direto para o abastecimento de água das regiões envolvidas.
Projetos de conservação
- Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves Aquáticas · ICMBio
- Instrumento oficial que reúne as ações prioritárias para a espécie, incluindo proteção de bacias, monitoramento de casais e restrição a novos barramentos em rios de ocorrência.
- Monitoramento em unidades de conservação do Cerrado · Órgãos ambientais e instituições de pesquisa
- Acompanhamento de casais e ninhadas na Chapada dos Veadeiros, na Serra da Canastra e no Jalapão, com instalação de ninhos artificiais e proteção de trechos de rio.
Como a espécie é protegida
A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria criticamente em perigo e é objeto de plano de ação específico. Parte dos núcleos conhecidos está dentro de unidades de conservação federais e estaduais, o que oferece proteção ao habitat.
O instrumento mais decisivo, porém, é o licenciamento ambiental: a presença comprovada da espécie tem sido usada para barrar ou condicionar projetos de barramento em rios de corredeira. Ações complementares incluem restauração de mata ciliar, ninhos artificiais e ordenamento do uso recreativo em trechos com casais reprodutores.
Curiosidades
- O bico serrilhado nas bordas funciona como uma pinça para segurar peixes escorregadios e é característico do grupo dos mergansos.
- É considerada uma das aves aquáticas mais raras do mundo, com menos de 250 indivíduos maduros estimados.
- Casais ocupam trechos de rio de vários quilômetros e permanecem juntos durante todo o ano.
- A presença da espécie é usada como atestado da qualidade da água de um rio: onde a água fica turva, ela desaparece.
- Nos países vizinhos onde ocorria historicamente, não há registros confirmados recentes na maior parte da área.
Fontes consultadas
- Mergus octosetaceus — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2020. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume III: Aves. ICMBio, 2018. Consultar
- Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves Aquáticas. ICMBio, 2022. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 24 de julho de 2026
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