Enguia-europeia
Anguilla anguilla (Linnaeus, 1758)
Peixe que nasce no meio do Atlântico, cresce em rios europeus e retorna ao oceano para desovar; teve queda superior a 90% no recrutamento.
- CRCriticamente em perigo
- Peixes
- Também chamada de enguia-comum
Descrição
A enguia-europeia realiza um dos ciclos de vida mais extraordinários entre os peixes. Nasce em algum ponto do mar dos Sargaços, no meio do Atlântico Norte, atravessa o oceano como larva transparente levada por correntes, entra em rios de toda a Europa e do norte da África, cresce ali por anos ou décadas, e então retorna ao mesmo ponto do oceano para desovar uma única vez e morrer.
Apesar de séculos de estudo, a desova nunca foi observada diretamente. A localização exata da área reprodutiva foi inferida a partir da distribuição das menores larvas encontradas, e apenas recentemente o rastreamento por satélite acompanhou adultos parte do caminho.
O colapso é dramático e bem documentado: o recrutamento de larvas nos rios europeus caiu mais de 90% em relação aos níveis das décadas de 1970 e 1980. Barragens que impedem a subida dos rios, pesca em todas as fases do ciclo, um parasita introduzido que ataca a bexiga natatória e alterações nas correntes oceânicas atuam simultaneamente.
Características físicas
Corpo alongado e cilíndrico, semelhante ao de uma serpente, com nadadeiras dorsal, caudal e anal contínuas formando uma única franja. As nadadeiras pélvicas são ausentes.
A aparência muda radicalmente ao longo da vida. As larvas são achatadas, transparentes e em formato de folha. Ao chegar à costa, transformam-se em enguias-de-vidro, ainda transparentes e com poucos centímetros. Nos rios, ganham pigmentação e tornam-se enguias-amarelas, com dorso escuro e ventre amarelado. Ao iniciar a migração reprodutiva, tornam-se enguias-prateadas: os olhos aumentam, o flanco fica prateado e o trato digestivo regride, já que o animal não se alimenta mais.
| Comprimento | 60 a 100 cm; fêmeas maiores que machos |
|---|---|
| Peso | geralmente até cerca de 6 kg |
| Distância migratória | cerca de 5.000 a 6.000 km em cada sentido |
| Permanência em água doce | de 5 a mais de 20 anos |
Habitat
Utiliza ambientes muito distintos ao longo da vida. A fase larval e a reprodução ocorrem em mar aberto, no Atlântico Norte. A fase de crescimento acontece em rios, lagos, estuários e lagoas costeiras de toda a Europa e do norte da África.
Nos rios, ocupa desde trechos próximos à foz até cabeceiras distantes, e é capaz de rastejar por terra úmida para contornar obstáculos, o que historicamente lhe permitiu colonizar corpos d'água isolados. Barragens, comportas e estações de bombeamento interrompem essa mobilidade e reduziram drasticamente a área acessível.
Distribuição geográfica
A área de crescimento cobre praticamente todos os sistemas de água doce e estuarinos da Europa, do norte da Escandinávia ao Mediterrâneo, incluindo o norte da África. A área de reprodução é o mar dos Sargaços, no Atlântico Norte ocidental.
Toda a espécie constitui uma única população que se reproduz em um mesmo local, característica que tem uma implicação importante: não existem subpopulações independentes capazes de compensar declínios regionais. O que acontece em qualquer bacia europeia afeta o conjunto, e a recuperação depende de ação coordenada em toda a área de distribuição.
Ocorrência registrada em: Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Reino Unido, Noruega, Turquia, Rússia e Oceano Atlântico.
Alimentação
Nos rios, alimenta-se de invertebrados aquáticos, crustáceos, moluscos, larvas de insetos, peixes e ovos, com dieta que varia conforme a idade e o ambiente. A atividade alimentar é predominantemente noturna.
Durante a fase larval oceânica, alimenta-se de partículas orgânicas em suspensão. Na fase final, ao iniciar a migração reprodutiva, o trato digestivo regride e o animal deixa de se alimentar: toda a viagem de milhares de quilômetros e a maturação das gônadas são sustentadas exclusivamente pelas reservas de gordura acumuladas nos anos de vida em água doce.
Comportamento
É noturna e discreta, permanecendo enterrada no substrato ou abrigada durante o dia. Tolera condições adversas de oxigênio e salinidade e é capaz de sobreviver longos períodos fora da água, rastejando por terreno úmido para contornar obstáculos entre corpos d'água.
A transformação em enguia-prateada marca uma mudança completa de comportamento: o animal abandona o território que ocupou por anos e inicia a migração para o mar, descendo os rios geralmente em noites escuras e chuvosas. Nessa fase, realiza mergulhos diários entre camadas de diferentes profundidades no oceano, padrão registrado por marcadores eletrônicos.
Reprodução
A reprodução ocorre uma única vez na vida, no mar dos Sargaços, e é seguida pela morte dos adultos. Nunca foi observada diretamente, apesar de mais de um século de investigação.
As larvas eclodidas são transportadas por correntes oceânicas até as costas europeias, viagem que dura de um a três anos. Ao chegar, transformam-se em enguias-de-vidro, sobem os rios e crescem por períodos que variam de cinco a mais de vinte anos, dependendo da temperatura e da disponibilidade de alimento. O sexo não é determinado geneticamente: define-se durante o crescimento em função da densidade populacional e das condições ambientais.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
Não há estimativa do número de indivíduos, mas o indicador utilizado é robusto e alarmante: o recrutamento de enguias-de-vidro nos rios europeus, medido por séries históricas longas em vários países, caiu mais de 90% em relação aos níveis das décadas de 1970 e 1980, com quedas superiores a 95% em algumas séries. Como toda a espécie constitui uma única população reprodutiva, esse indicador reflete a situação global.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.
Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Barragens e alteração dos rios
Barragens, comportas e estações de bombeamento impedem a subida de juvenis e a descida de adultos reprodutores, e turbinas de usinas causam mortalidade direta na migração de retorno ao mar.
Sobrepesca e captura acidental
A pesca ocorre em todas as fases do ciclo, inclusive de enguias-de-vidro para engorda e para o comércio, o que remove indivíduos antes mesmo de qualquer reprodução.
Tráfico de animais silvestres
O contrabando de enguias-de-vidro vivas para mercados asiáticos movimenta valores elevados e é uma das rotas de tráfico de fauna mais lucrativas da Europa, apesar da proibição de exportação.
Doenças emergentes
Um parasita nematódeo introduzido a partir de enguias asiáticas infecta a bexiga natatória e compromete a capacidade de realizar a longa migração oceânica de retorno.
Poluição e resíduos
Contaminantes persistentes acumulam-se na gordura corporal ao longo de anos em rios poluídos e são mobilizados justamente durante a migração reprodutiva, quando essas reservas são consumidas.
Mudanças climáticas
Alterações nas correntes oceânicas do Atlântico Norte podem afetar o transporte das larvas até as costas europeias e a localização das áreas de desova.
Importância ecológica
Nos rios europeus, ocupa posição de predador de porte médio e constitui presa para aves aquáticas e mamíferos, funcionando como elo relevante nas cadeias alimentares de água doce.
Seu ciclo de vida conecta ecossistemas oceânicos e continentais, transportando biomassa e nutrientes do mar para o interior dos continentes e no sentido inverso. O declínio da espécie é usado como indicador da fragmentação dos rios europeus: a queda no recrutamento acompanha diretamente o número de barreiras construídas ao longo dos cursos d'água.
Projetos de conservação
- Regulamento europeu para a recuperação da enguia · União Europeia e Estados-membros
- Norma que obriga os países a elaborar planos nacionais de gestão com metas de escapamento de adultos reprodutores, restrições de pesca, remoção de barreiras e melhoria da passagem em obstáculos.
- Remoção de barreiras e passagens para peixes · Órgãos de gestão de bacias hidrográficas europeus
- Demolição de açudes obsoletos e instalação de estruturas de transposição específicas para enguias, que sobem obstáculos por superfícies úmidas e rugosas em vez de saltar.
Como a espécie é protegida
A espécie está no Anexo II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, e a União Europeia proíbe a exportação e a importação de enguias-europeias vivas desde 2010, medida adotada para conter o contrabando de juvenis.
A gestão é conduzida por planos nacionais que estabelecem metas de escapamento de adultos reprodutores, restrições sazonais de pesca e obrigações de melhoria da conectividade dos rios. A dificuldade central é que os benefícios de qualquer medida só aparecem depois de muitos anos, dado o ciclo de vida longo, e exigem coordenação entre dezenas de países que compartilham uma única população.
Curiosidades
- Nasce no meio do Atlântico, cresce em rios europeus por até duas décadas e retorna ao oceano para desovar uma única vez e morrer.
- A desova nunca foi observada diretamente, apesar de mais de um século de investigação científica.
- Muda completamente de aparência ao longo da vida, passando por fases de larva transparente, enguia-de-vidro, enguia-amarela e enguia-prateada.
- Na migração final, o trato digestivo regride e o animal atravessa milhares de quilômetros sem se alimentar.
- O sexo não é determinado geneticamente: define-se durante o crescimento, em função da densidade populacional e das condições do ambiente.
- É capaz de rastejar por terreno úmido para contornar obstáculos entre corpos d'água.
Fontes consultadas
- Anguilla anguilla — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2020. Consultar
- Apêndices da Convenção CITES. CITES, 2023. Consultar
- Report of the Joint EIFAAC/ICES/GFCM Working Group on Eels. Conselho Internacional para a Exploração do Mar, 2023. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 8 de agosto de 2026
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