Papagaio-chauá
Amazona rhodocorytha (Salvadori, 1890)
Papagaio de copa vermelha exclusivo da Mata Atlântica, que perdeu a maior parte da floresta onde vivia e foi por décadas alvo do tráfico de filhotes.
- VUVulnerável
- Aves
- Endêmica do Brasil
- Também chamada de chauá
Descrição
O chauá é um papagaio de porte médio, de voo barulhento e bandos pequenos, que só existe no Brasil. Sua área original ia de Alagoas ao Rio de Janeiro, passando pelo leste de Minas Gerais, mas a derrubada da Mata Atlântica e a captura de filhotes para criação ilegal fizeram a espécie desaparecer de boa parte desse território.
Hoje o maior contingente conhecido está no Espírito Santo, e a espécie é considerada vulnerável tanto pela IUCN quanto pela lista brasileira de fauna ameaçada. O caso do chauá ilustra bem uma realidade da Mata Atlântica: a floresta que sobrou é pouca, fragmentada e cercada por estradas e áreas urbanas, e cada remanescente grande, como a região de Sooretama e Linhares, passa a ter peso decisivo para a sobrevivência da espécie.
Características físicas
A plumagem é predominantemente verde. Na cabeça, a fronte e o alto do crânio são vermelhos, com o vermelho se esvaecendo em tons arroxeados em direção à nuca, e as bochechas e a garganta têm reflexos azulados. As asas, ao abrir, mostram manchas vermelhas e pretas, e as penas da cauda têm marcas vermelhas e pontas amareladas.
O bico e as patas são acinzentados, e os olhos têm cor castanho-alaranjada. A combinação da cor da cabeça e dos desenhos nas asas facilita distingui-lo de outros papagaios da Mata Atlântica, como o papagaio-de-peito-roxo e o papagaio-verdadeiro.
| Plumagem da cabeça | fronte e coroa vermelhas, com transição para tons arroxeados |
|---|---|
| Período de reprodução | de setembro a novembro |
| Ninhada em cativeiro | geralmente quatro ovos |
| Incubação em cativeiro | cerca de 24 dias |
| Saída do ninho (cativeiro) | cerca de 34 dias após a eclosão |
| População contada no Espírito Santo | cerca de 2.300 aves em levantamento de 2004 a 2006 |
Habitat
Vive em florestas tropicais úmidas de baixada e de encosta, com preferência pelo dossel, onde procura frutos e sementes e costuma evitar as bordas expostas. Também usa matas secundárias e florestas de restinga, desde que haja árvores grandes com cavidades para nidificar.
Essa dependência de árvores antigas e ocas é um dos gargalos da espécie: um oco apropriado leva décadas para se formar, e a derrubada seletiva ou a queima de um fragmento elimina de uma só vez locais de ninho que nenhuma restauração substitui a curto prazo. Quando o habitat se fragmenta, os bandos passam a usar mais a borda da floresta, exposta a caçadores e a estradas.
Distribuição geográfica
A espécie é endêmica da Mata Atlântica do leste do Brasil. O maior bloco de ocorrência está no Espírito Santo, com populações importantes na Reserva Biológica de Sooretama, na Reserva Natural Vale, em Linhares, e em fragmentos do entorno. Há ainda núcleos no sul da Bahia, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, com registros no norte de São Paulo.
Em Alagoas, onde chegou a ser comum, a espécie praticamente desapareceu: em 2019 foram vistos apenas quatro indivíduos. Uma população separada, mais ao norte, existiu em Sergipe e em Alagoas, hoje reduzida a relictos ou reposta por programas de soltura.
Ocorrência registrada em: Brasil.
Alimentação
O papagaio-chauá se alimenta de sementes, frutos, flores, brotos, folhas e néctar de diversas espécies de plantas, ocasionalmente complementados por invertebrados. A dieta é considerada generalista, mas há pouca informação sobre quais plantas são realmente importantes para a espécie ao longo do ano.
Por ingerir e deslocar frutos e sementes, o animal pode atuar tanto como dispersor quanto como predador de sementes, dependendo da planta. Bandos pequenos percorrem o dossel em busca de árvores em frutificação e podem se deslocar por distâncias consideráveis, o que os torna dependentes de várias áreas de floresta conectadas.
Comportamento
É uma ave gregária fora da época de reprodução, vista em grupos pequenos ou em casais que voam acima do dossel emitindo gritos fortes.
Na primavera, os casais defendem um território e escolhem uma cavidade em árvore para nidificar, normalmente reutilizada em anos seguidos. Como a maior parte da vida social e alimentar ocorre no alto da mata, a espécie sempre foi pouco exposta a rodovias, o que mudou com a fragmentação: em novembro de 2025, foi documentado o primeiro atropelamento da espécie, na BR-101, em Sooretama.
Reprodução
A temporada reprodutiva vai de setembro a novembro, na primavera. O casal usa um oco de árvore, geralmente o mesmo de anos anteriores. Em cativeiro, a postura costuma ter quatro ovos, incubados por cerca de 24 dias, e os filhotes deixam o ninho por volta de 34 dias após a eclosão.
Esses números vêm de aves cativas, e na natureza o sucesso reprodutivo é menor e ainda pouco medido. A pressão de saque de filhotes dos ninhos pesa muito: ao retirar um filhote, o caçador destrói a cavidade ou a expõe a invasões, o que reduz a chance de reprodução em anos seguintes.
População estimada e tendência
Estimativa: entre 2.500 e 9.999 indivíduos maduros, segundo a avaliação global mais recente
A faixa vem da avaliação da BirdLife para a IUCN, que indica população em declínio. Em uma contagem regional no Espírito Santo, entre 2004 e 2006, foram registradas cerca de 2.300 aves. Como a espécie é sensível ao tráfico e à perda de floresta, os números mudam rapidamente, e não há um censo recente que cubra toda a distribuição.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Perda e conversão de habitat
A Mata Atlântica original foi reduzida a uma pequena parte da cobertura inicial, e no Espírito Santo restam menos de 10% da floresta primitiva, de acordo com as fontes consultadas. A perda de árvores grandes com cavidades prejudica diretamente a nidificação.
Fragmentação de habitat
Os remanescentes são pequenos e isolados, o que obriga as aves a se deslocarem por áreas abertas e usarem bordas, onde ficam mais expostas a caçadores e a estradas.
Tráfico de animais silvestres
A retirada de filhotes dos ninhos para o comércio ilegal de animais de estimação continua, inclusive dentro de reservas, e parte das aves é enviada ao exterior.
Atropelamentos e barreiras de infraestrutura
Um estudo publicado em 2025 documentou o primeiro atropelamento da espécie, em trecho da BR-101 que liga a Reserva Biológica de Sooretama à Reserva Natural Vale, apontando uma ameaça nova para a espécie.
Importância ecológica
Como consumidora de frutos e sementes do dossel, a espécie participa da dinâmica de regeneração de florestas da Mata Atlântica e é um bioindicador sensível: sua presença em um fragmento costuma significar que há árvores grandes, frutificação regular e cavidades disponíveis.
Proteger o chauá também traz ganhos para outras espécies. As áreas prioritárias para ele, como o corredor entre a Reserva Biológica de Sooretama e a Reserva Natural Vale, abrigam muitas aves e mamíferos que dependem das mesmas florestas maduras e que não ocorrem em lugar nenhum fora desse bioma.
Projetos de conservação
- Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Papagaios da Mata Atlântica · ICMBio (CEMAVE) e SPVS
- Teve dois ciclos, de 2010 a 2016 e de 2017 a 2022, com ações de proteção de habitat, combate ao tráfico, capacitação de fiscais e educação ambiental. As espécies foram depois incorporadas ao PAN Aves da Mata Atlântica.
- Plano de Ação Estadual e reintrodução do papagaio-chauá em Alagoas · Instituto para Preservação da Mata Atlântica (IPMA), com Ministério Público de Alagoas, IMA-AL, ICMBio e parceiros
- A partir de 2022, dezenas de aves resgatadas do tráfico foram levadas à RPPN Mata da Sálvia, em Rio Largo, para reabilitação e soltura gradual, que incluiu um método de soltura branda, em casais; em 2024 chegaram mais sete aves.
Como a espécie é protegida
A espécie está na categoria vulnerável tanto na avaliação global quanto na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, e consta no Anexo I da CITES, o que proíbe o comércio internacional com fins comerciais. A captura, a venda e a manutenção em cativeiro sem autorização são crime ambiental no Brasil.
A conservação depende de proteger os grandes blocos de floresta do Espírito Santo, de controlar o tráfico nas rotas conhecidas e de reduzir riscos criados por infraestrutura, como o atropelamento. Pesquisadores recomendam redutores de velocidade e monitoramento sistemático tanto dentro das unidades de conservação quanto em suas zonas de amortecimento, e destacam que o atropelamento de aves é pouco registrado no país.
Curiosidades
- Em Alagoas, uma reintrodução com aves resgatadas do tráfico foi descrita como a primeira da história da espécie.
- O presidente do IPMA chegou a chamá-lo de papagaio mais raro do Brasil.
- O primeiro atropelamento documentado da espécie ocorreu em novembro de 2025, na BR-101.
- Os casais costumam voltar ao mesmo oco de árvore a cada temporada de reprodução.
Fontes consultadas
- Primeiro registro de atropelamento de papagaio-chauá alerta para nova ameaça à ave em risco de extinção. Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), 2026. Consultar
- Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Papagaios da Mata Atlântica. ICMBio, 2022. Consultar
- Papagaios ameaçados de extinção chegam a Alagoas para reintrodução na natureza. TNH1, 2024. Consultar
- Sobrevida para os papagaios-chauás. Folha de Pernambuco, 2023. Consultar
- Red-browed amazon (Amazona rhodocorytha). Wikipedia. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026
Espécies relacionadas
Selecionadas por proximidade taxonômica, ambiente compartilhado, estado de conservação e ameaças em comum com a papagaio-chauá.
Ararinha-azul
Cyanopsitta spixii
Papagaio azul endêmico da Caatinga baiana, extinto na natureza desde o início dos anos 2000 e alvo de um programa…
Arara-azul-grande
Anodorhynchus hyacinthinus
A maior arara do mundo, símbolo do Pantanal, recuperada de um colapso causado pelo tráfico graças a três décadas de…
Mutum-do-nordeste
Pauxi mitu
Ave endêmica da Mata Atlântica de Alagoas e Pernambuco, extinta na natureza desde os anos 1980 e em processo de…
Mico-leão-dourado
Leontopithecus rosalia
Primata endêmico da Mata Atlântica de baixada do Rio de Janeiro, símbolo da conservação brasileira e caso raro de…