Ir para o conteúdo

Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 20 de outubro de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Papagaio-chauá

Amazona rhodocorytha (Salvadori, 1890)

Papagaio de copa vermelha exclusivo da Mata Atlântica, que perdeu a maior parte da floresta onde vivia e foi por décadas alvo do tráfico de filhotes.

Descrição

O chauá é um papagaio de porte médio, de voo barulhento e bandos pequenos, que só existe no Brasil. Sua área original ia de Alagoas ao Rio de Janeiro, passando pelo leste de Minas Gerais, mas a derrubada da Mata Atlântica e a captura de filhotes para criação ilegal fizeram a espécie desaparecer de boa parte desse território.

Hoje o maior contingente conhecido está no Espírito Santo, e a espécie é considerada vulnerável tanto pela IUCN quanto pela lista brasileira de fauna ameaçada. O caso do chauá ilustra bem uma realidade da Mata Atlântica: a floresta que sobrou é pouca, fragmentada e cercada por estradas e áreas urbanas, e cada remanescente grande, como a região de Sooretama e Linhares, passa a ter peso decisivo para a sobrevivência da espécie.

Características físicas

A plumagem é predominantemente verde. Na cabeça, a fronte e o alto do crânio são vermelhos, com o vermelho se esvaecendo em tons arroxeados em direção à nuca, e as bochechas e a garganta têm reflexos azulados. As asas, ao abrir, mostram manchas vermelhas e pretas, e as penas da cauda têm marcas vermelhas e pontas amareladas.

O bico e as patas são acinzentados, e os olhos têm cor castanho-alaranjada. A combinação da cor da cabeça e dos desenhos nas asas facilita distingui-lo de outros papagaios da Mata Atlântica, como o papagaio-de-peito-roxo e o papagaio-verdadeiro.

Medidas registradas para a espécie
Plumagem da cabeçafronte e coroa vermelhas, com transição para tons arroxeados
Período de reproduçãode setembro a novembro
Ninhada em cativeirogeralmente quatro ovos
Incubação em cativeirocerca de 24 dias
Saída do ninho (cativeiro)cerca de 34 dias após a eclosão
População contada no Espírito Santocerca de 2.300 aves em levantamento de 2004 a 2006

Habitat

Vive em florestas tropicais úmidas de baixada e de encosta, com preferência pelo dossel, onde procura frutos e sementes e costuma evitar as bordas expostas. Também usa matas secundárias e florestas de restinga, desde que haja árvores grandes com cavidades para nidificar.

Essa dependência de árvores antigas e ocas é um dos gargalos da espécie: um oco apropriado leva décadas para se formar, e a derrubada seletiva ou a queima de um fragmento elimina de uma só vez locais de ninho que nenhuma restauração substitui a curto prazo. Quando o habitat se fragmenta, os bandos passam a usar mais a borda da floresta, exposta a caçadores e a estradas.

Distribuição geográfica

A espécie é endêmica da Mata Atlântica do leste do Brasil. O maior bloco de ocorrência está no Espírito Santo, com populações importantes na Reserva Biológica de Sooretama, na Reserva Natural Vale, em Linhares, e em fragmentos do entorno. Há ainda núcleos no sul da Bahia, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, com registros no norte de São Paulo.

Em Alagoas, onde chegou a ser comum, a espécie praticamente desapareceu: em 2019 foram vistos apenas quatro indivíduos. Uma população separada, mais ao norte, existiu em Sergipe e em Alagoas, hoje reduzida a relictos ou reposta por programas de soltura.

Ocorrência registrada em: Brasil.

Alimentação

O papagaio-chauá se alimenta de sementes, frutos, flores, brotos, folhas e néctar de diversas espécies de plantas, ocasionalmente complementados por invertebrados. A dieta é considerada generalista, mas há pouca informação sobre quais plantas são realmente importantes para a espécie ao longo do ano.

Por ingerir e deslocar frutos e sementes, o animal pode atuar tanto como dispersor quanto como predador de sementes, dependendo da planta. Bandos pequenos percorrem o dossel em busca de árvores em frutificação e podem se deslocar por distâncias consideráveis, o que os torna dependentes de várias áreas de floresta conectadas.

Comportamento

É uma ave gregária fora da época de reprodução, vista em grupos pequenos ou em casais que voam acima do dossel emitindo gritos fortes.

Na primavera, os casais defendem um território e escolhem uma cavidade em árvore para nidificar, normalmente reutilizada em anos seguidos. Como a maior parte da vida social e alimentar ocorre no alto da mata, a espécie sempre foi pouco exposta a rodovias, o que mudou com a fragmentação: em novembro de 2025, foi documentado o primeiro atropelamento da espécie, na BR-101, em Sooretama.

Reprodução

A temporada reprodutiva vai de setembro a novembro, na primavera. O casal usa um oco de árvore, geralmente o mesmo de anos anteriores. Em cativeiro, a postura costuma ter quatro ovos, incubados por cerca de 24 dias, e os filhotes deixam o ninho por volta de 34 dias após a eclosão.

Esses números vêm de aves cativas, e na natureza o sucesso reprodutivo é menor e ainda pouco medido. A pressão de saque de filhotes dos ninhos pesa muito: ao retirar um filhote, o caçador destrói a cavidade ou a expõe a invasões, o que reduz a chance de reprodução em anos seguintes.

População estimada e tendência

Estimativa: entre 2.500 e 9.999 indivíduos maduros, segundo a avaliação global mais recente

A faixa vem da avaliação da BirdLife para a IUCN, que indica população em declínio. Em uma contagem regional no Espírito Santo, entre 2004 e 2006, foram registradas cerca de 2.300 aves. Como a espécie é sensível ao tráfico e à perda de floresta, os números mudam rapidamente, e não há um censo recente que cubra toda a distribuição.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Perda e conversão de habitat

    A Mata Atlântica original foi reduzida a uma pequena parte da cobertura inicial, e no Espírito Santo restam menos de 10% da floresta primitiva, de acordo com as fontes consultadas. A perda de árvores grandes com cavidades prejudica diretamente a nidificação.

  • Fragmentação de habitat

    Os remanescentes são pequenos e isolados, o que obriga as aves a se deslocarem por áreas abertas e usarem bordas, onde ficam mais expostas a caçadores e a estradas.

  • Tráfico de animais silvestres

    A retirada de filhotes dos ninhos para o comércio ilegal de animais de estimação continua, inclusive dentro de reservas, e parte das aves é enviada ao exterior.

  • Atropelamentos e barreiras de infraestrutura

    Um estudo publicado em 2025 documentou o primeiro atropelamento da espécie, em trecho da BR-101 que liga a Reserva Biológica de Sooretama à Reserva Natural Vale, apontando uma ameaça nova para a espécie.

Importância ecológica

Como consumidora de frutos e sementes do dossel, a espécie participa da dinâmica de regeneração de florestas da Mata Atlântica e é um bioindicador sensível: sua presença em um fragmento costuma significar que há árvores grandes, frutificação regular e cavidades disponíveis.

Proteger o chauá também traz ganhos para outras espécies. As áreas prioritárias para ele, como o corredor entre a Reserva Biológica de Sooretama e a Reserva Natural Vale, abrigam muitas aves e mamíferos que dependem das mesmas florestas maduras e que não ocorrem em lugar nenhum fora desse bioma.

Projetos de conservação

Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Papagaios da Mata Atlântica · ICMBio (CEMAVE) e SPVS
Teve dois ciclos, de 2010 a 2016 e de 2017 a 2022, com ações de proteção de habitat, combate ao tráfico, capacitação de fiscais e educação ambiental. As espécies foram depois incorporadas ao PAN Aves da Mata Atlântica.
Plano de Ação Estadual e reintrodução do papagaio-chauá em Alagoas · Instituto para Preservação da Mata Atlântica (IPMA), com Ministério Público de Alagoas, IMA-AL, ICMBio e parceiros
A partir de 2022, dezenas de aves resgatadas do tráfico foram levadas à RPPN Mata da Sálvia, em Rio Largo, para reabilitação e soltura gradual, que incluiu um método de soltura branda, em casais; em 2024 chegaram mais sete aves.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie está na categoria vulnerável tanto na avaliação global quanto na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, e consta no Anexo I da CITES, o que proíbe o comércio internacional com fins comerciais. A captura, a venda e a manutenção em cativeiro sem autorização são crime ambiental no Brasil.

A conservação depende de proteger os grandes blocos de floresta do Espírito Santo, de controlar o tráfico nas rotas conhecidas e de reduzir riscos criados por infraestrutura, como o atropelamento. Pesquisadores recomendam redutores de velocidade e monitoramento sistemático tanto dentro das unidades de conservação quanto em suas zonas de amortecimento, e destacam que o atropelamento de aves é pouco registrado no país.

Curiosidades

  • Em Alagoas, uma reintrodução com aves resgatadas do tráfico foi descrita como a primeira da história da espécie.
  • O presidente do IPMA chegou a chamá-lo de papagaio mais raro do Brasil.
  • O primeiro atropelamento documentado da espécie ocorreu em novembro de 2025, na BR-101.
  • Os casais costumam voltar ao mesmo oco de árvore a cada temporada de reprodução.

Fontes consultadas

  1. Primeiro registro de atropelamento de papagaio-chauá alerta para nova ameaça à ave em risco de extinção. Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), 2026. Consultar
  2. Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Papagaios da Mata Atlântica. ICMBio, 2022. Consultar
  3. Papagaios ameaçados de extinção chegam a Alagoas para reintrodução na natureza. TNH1, 2024. Consultar
  4. Sobrevida para os papagaios-chauás. Folha de Pernambuco, 2023. Consultar
  5. Red-browed amazon (Amazona rhodocorytha). Wikipedia. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026

Encontrou um erro? Relate uma correção

Continue a consulta

Espécies relacionadas

Selecionadas por proximidade taxonômica, ambiente compartilhado, estado de conservação e ameaças em comum com a papagaio-chauá.

Ver a biblioteca completa
EWExtinta na natureza

Ararinha-azul

Cyanopsitta spixii

Papagaio azul endêmico da Caatinga baiana, extinto na natureza desde o início dos anos 2000 e alvo de um programa…

  • Aves
  • Caatinga
  • Endêmica do Brasil
VUVulnerável

Arara-azul-grande

Anodorhynchus hyacinthinus

A maior arara do mundo, símbolo do Pantanal, recuperada de um colapso causado pelo tráfico graças a três décadas de…

  • Aves
  • Pantanal
EWExtinta na natureza

Mutum-do-nordeste

Pauxi mitu

Ave endêmica da Mata Atlântica de Alagoas e Pernambuco, extinta na natureza desde os anos 1980 e em processo de…

  • Aves
  • Mata Atlântica
  • Endêmica do Brasil
ENEm perigo

Mico-leão-dourado

Leontopithecus rosalia

Primata endêmico da Mata Atlântica de baixada do Rio de Janeiro, símbolo da conservação brasileira e caso raro de…

  • Mamíferos
  • Mata Atlântica
  • Endêmica do Brasil