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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 20 de outubro de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Gavial

Gavialis gangeticus (Gmelin, 1789)

Crocodiliano de focinho longo e finíssimo, especializado em capturar peixes em rios de águas limpas e bancos de areia, hoje reduzido a poucas centenas de adultos.

Descrição

O gavial é um dos maiores crocodilianos vivos e o mais ligado à água entre todos eles. Seu focinho estreito, em forma de bico alongado e armado de dentes finos e afiados, é uma ferramenta desenhada para um único trabalho: varrer lateralmente a água e agarrar peixes escorregadios. Em terra, o corpo mal se sustenta sobre as patas, e o animal se arrasta de barriga para chegar às praias onde toma sol e desova.

A espécie já ocupou os grandes rios que descem do Himalaia, da bacia do Indo à do Irauádi. Hoje sobrevive em uma fração minúscula desse território, em trechos isolados de poucos rios da Índia e do Nepal. O declínio no século XX foi tão rápido que o gavial passou de espécie comum em muitos rios a animal que a maioria das pessoas da própria região nunca viu.

Por ser inofensivo para pessoas e depender de rios correntes de águas limpas, o gavial funciona como indicador da saúde de ecossistemas fluviais inteiros. Onde ele desaparece, geralmente já se perderam também os bancos de areia, a vazão natural e boa parte dos peixes que sustentam pescadores locais.

Características físicas

O traço mais característico é o focinho longo e estreito, muito mais fino que o de qualquer jacaré ou crocodilo. Os dentes, numerosos e de tamanho parecido, se encaixam como uma armadilha para peixes. Os olhos ficam no alto da cabeça, o que permite ao animal vigiar a superfície enquanto o corpo permanece quase todo submerso.

Os machos adultos desenvolvem na ponta do focinho uma protuberância carnosa em forma de pote, chamada ghara, que dá nome à espécie na língua local. Ela funciona como ressonador, amplificando o zumbido que o macho produz ao expelir ar sob a água, e também como sinal visual para as fêmeas. As patas traseiras são fortemente palmadas, o que reflete uma vida quase integralmente aquática. A cor do dorso varia do verde-oliva ao marrom acinzentado, com faixas escuras transversais nos jovens.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento das fêmeasde 2,6 a 4,5 m
Comprimento dos machosde 3 a 6 m
Peso médio de machos adultoscerca de 160 kg, com indivíduos maiores acima de 600 kg
Maior macho registrado977 kg
Ninhadade 20 a 95 ovos, com ovos de cerca de 160 g

Habitat

Prefere rios grandes, de correnteza moderada e águas profundas e limpas, com bancos de areia expostos na estação seca. Os trechos de remanso fundo servem de refúgio e de área de pesca, e as praias arenosas são usadas para tomar sol e, na época certa, para construir ninhos.

Cada uma dessas peças é indispensável e nenhuma pode ser substituída por outra. Quando o rio é represado, a corrente cessa e os bancos de areia desaparecem; quando é retificado ou tem a areia dragada, o animal perde o lugar de desova. Por isso a espécie raramente é encontrada em lagos, canais ou rios muito alterados, ao contrário de crocodilianos mais generalistas.

Distribuição geográfica

A espécie se espalhava pelos grandes rios do norte do subcontinente indiano, do Indo, no oeste, ao Irauádi, em Mianmar. Estimativas citadas na literatura indicam que hoje ela ocupa cerca de 2% dessa área histórica. Foi extinta localmente no Butão e em Mianmar, e o Paquistão teve registro recente da espécie no rio Sutlej, a partir de 2023.

As populações remanescentes concentram-se na Índia, sobretudo no rio Chambal, e no Nepal, em sistemas como o Narayani e o Karnali. Alguns grupos menores persistem em afluentes do Ganges e em outros rios indianos. A maior parte dos adultos vive em poucas subpopulações isoladas, o que torna a espécie vulnerável a qualquer evento local de mortalidade.

Ocorrência registrada em: Índia e Nepal.

Alimentação

Alimenta-se principalmente de peixes, engolidos inteiros depois de capturados com um movimento lateral rápido do focinho. Filhotes comem também insetos, girinos e pequenas rãs; adultos podem eventualmente consumir pequenos crustáceos e, muito raramente, tartarugas de casco mole.

É comum encontrar pedras no estômago dos animais, que funcionam como lastro e talvez como auxílio na digestão. Como a dieta depende de peixes, a redução da pesca nos rios e a queda no número de espécies migradoras afetam diretamente a sobrevivência dos adultos.

Comportamento

É o crocodiliano mais aquático e passa quase todo o tempo na água, saindo para as praias apenas para se aquecer e se reproduzir. Costuma ficar em grupos, e em alguns trechos de rio é possível ver dezenas de indivíduos tomando sol lado a lado, de focinho aberto para dissipar calor.

Os machos adultos mantêm territórios na época de acasalamento e emitem zumbidos sonoros com a protuberância nasal. Ao contrário de crocodilos de grande porte, não são considerados perigosos para pessoas; a boca fina e a dentição de captura de peixes tornam o ataque a mamíferos grandes pouco provável.

Reprodução

As fêmeas escavam ninhos em bancos de areia à beira do rio e depositam de 20 a 95 ovos entre o fim de março e o começo de abril. A incubação dura cerca de 71 a 93 dias, o que faz os filhotes eclodirem por volta de julho, pouco antes das chuvas das monções, quando o nível dos rios sobe e os bancos de areia ficam submersos.

O tempo é crítico: se a água sobe antes da eclosão, o ninho é perdido. Chacais e roedores atacam parte dos ovos, e os filhotes têm mortalidade alta nas primeiras cheias. Como os adultos demoram a atingir a maturidade e cada fêmea só reproduz uma vez por temporada, perdas sucessivas de ninhos têm efeito acumulado sobre uma população já pequena.

População estimada e tendência

Estimativa: estimada em cerca de 650 indivíduos maduros (intervalo de 300 a 900), segundo a avaliação da IUCN citada na literatura, com a maior parte no rio Chambal

O número de adultos varia entre fontes, de algumas centenas a pouco menos de mil, porque os censos são feitos em trechos de rio e as populações liberadas a partir de criadouros dificultam a contagem. Há consenso de que a população caiu de milhares de indivíduos nos anos 1940 para poucas centenas na década de 2000, uma redução superior a 90%.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.

Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Barragens e alteração dos rios

    Represas, barragens de derivação e diques eliminaram trechos de rio corrente, reduziram a vazão e alteraram o ciclo de cheias, destruindo praias de desova e áreas de pesca.

  • Mineração e garimpo

    A extração de areia do leito e das margens remove os bancos onde os ninhos são construídos e perturba os animais em período reprodutivo.

  • Sobrepesca e captura acidental

    Redes de emalhar e a pesca com dinamite matam animais de todas as idades, e a sobrepesca reduz os peixes dos quais o gavial depende.

  • Perda e conversão de habitat

    Cultivo em barrancos e várzeas, aterros e ocupação de margens fazem a faixa de areia disponível para desova diminuir.

  • Caça e abate ilegal

    No passado, a caça por pele e a coleta de ovos e de partes do corpo para uso tradicional contribuíram para o colapso da espécie; o abate ilegal ainda ocorre de forma esporádica.

  • Poluição e resíduos

    Metais pesados e resíduos que chegam aos rios acumulam-se em peixes e, por consequência, nos predadores que deles se alimentam.

Importância ecológica

Como predador de peixes, o gavial regula comunidades aquáticas e dispersa nutrientes, e sua presença indica rios com água limpa, corrente adequada e bancos de areia estáveis. Onde a espécie se mantém, geralmente ainda existe boa parte da fauna fluvial associada.

A proteção do gavial beneficia também outras espécies do mesmo habitat, como o golfinho-do-ganges, tartarugas fluviais e aves que nidificam em barrancos e bancos de areia, além das comunidades humanas que dependem da pesca e da água dos mesmos rios.

Projetos de conservação

Programas de criação e soltura de gaviais na Índia e no Nepal · Órgãos de vida silvestre dos governos da Índia e do Nepal
Desde o fim da década de 1970, ovos coletados em ninhos naturais são incubados e os filhotes criados em instalações antes de serem soltos em rios. Mais de 5 mil animais foram liberados na Índia até 2006, e 1.365 no sistema Rapti-Narayani, no Nepal, entre 1981 e 2018, embora a sobrevivência dos soltos tenha sido baixa.
Restauração de praias de desova no rio Girwa · Gestores de áreas protegidas indianas e equipes locais
A criação de um banco de areia artificial elevou o número de ninhos registrados no trecho de 25, em 2018, para 36, em 2020, mostrando que a recuperação do habitat de desova funciona como complemento à soltura de animais criados.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

O gavial consta no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, que proíbe o comércio internacional com fins comerciais. Na Índia, a espécie é protegida pela Lei de Proteção da Vida Silvestre de 1972, e no Nepal pela lei de parques nacionais e conservação da vida silvestre de 1973.

A recuperação, porém, depende menos de leis do que de rios: é preciso garantir vazão mínima, manter bancos de areia livres de mineração, restringir redes de emalhar e envolver os pescadores locais na vigilância. Santuários fluviais, como o do Chambal, concentram hoje a maior parte dos adultos e são o principal reduto da espécie.

Curiosidades

  • O nome vem de ghara, palavra local para pote, em referência à protuberância na ponta do focinho dos machos adultos.
  • O focinho fino reduz a resistência da água, o que permite um golpe lateral rápido para pegar peixes.
  • A população caiu de milhares nos anos 1940 para poucas centenas, uma das reduções mais bruscas já documentadas entre crocodilianos.
  • Engole pedras que podem funcionar como lastro e auxiliar a digestão.
  • A eclosão dos ovos é cronometrada para ocorrer pouco antes das monções, quando os rios ainda estão baixos.

Fontes consultadas

  1. Gharial. Wikipedia, com referências à avaliação da IUCN de 2019. Consultar
  2. Gavialis gangeticus — Reptile Database. The Reptile Database, 2026. Consultar
  3. Gharial — Gavialis gangeticus. IUCN SSC Crocodile Specialist Group, 2026. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026

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