Iguana-marinha-de-Galápagos
Amblyrhynchus cristatus Bell, 1825
Único lagarto do mundo que se alimenta no mar, vive apenas nas rochas vulcânicas de Galápagos e sofre cada vez que as águas do Pacífico esquentam.
- VUVulnerável
- Répteis
- Também chamada de iguana-marinha e lagarto-marinho-de-Galápagos
Descrição

A iguana-marinha é a única espécie de lagarto que obtém alimento no oceano. Ela mergulha para raspar algas das rochas submersas e volta à costa para se aquecer ao sol, formando aglomerados escuros sobre a lava que lembram, para quem chega de barco, parte da própria rocha. Charles Darwin a descreveu como um animal desajeitado e repugnante, e hoje ela é um dos símbolos mais conhecidos do arquipélago equatoriano.
O que torna a espécie notável é a combinação de uma vida de réptil com uma rotina de mamífero marinho: ela depende da temperatura da água fria que traz alimento, mas precisa de sol para digerir o que come. Essa dependência a deixa muito exposta a variações climáticas do Pacífico, como o fenômeno El Niño, que reduz as algas e provoca mortalidade em massa.
Existem populações com tamanhos e comportamentos diferentes em cada ilha, e a literatura reconhece até onze subespécies. As maiores vivem nas ilhas ocidentais, e as menores, na pequena Genovesa. Algumas dessas populações insulares estão em situação pior que a da espécie como um todo.
Características físicas
O corpo é robusto, com cauda achatada nas laterais que funciona como remo, e dedos longos com garras afiadas que seguram o animal contra a correnteza e as ondas. A cabeça é larga e o focinho, curto e rombudo, bom para raspar algas. Uma crista de espinhos corre pelo dorso, do pescoço à cauda.
A cor típica é o cinza escuro ou preto, que ajuda a absorver calor, mas os machos de algumas ilhas, como Española, ganham tons de vermelho e verde na época de acasalamento. As glândulas de sal próximas às narinas filtram o excesso de sal ingerido, e o animal expele o sal em espirros, o que deixa o alto da cabeça esbranquiçado. Os indivíduos de ilhas grandes crescem mais do que os de ilhas pequenas, onde o alimento é mais escasso.
| Comprimento do corpo (focinho à cloaca) | de 12 a 56 cm, conforme a ilha |
|---|---|
| Cauda | de 17 a 84 cm |
| Peso máximo de machos | de cerca de 1 kg em Genovesa a cerca de 12 kg no sul de Isabela |
| Profundidade de mergulho | até cerca de 30 m |
| Ovos por postura | geralmente 2 ou 3 |
Habitat
Vive em costas rochosas de lava, em zonas de maré e em águas rasas próximas, onde as algas crescem em abundância. Usa a pedra exposta para se aquecer ao sol de manhã e para repousar entre os mergulhos, e se concentra nos trechos mais batidos pelas ondas, onde há mais alimento.
As colônias variam de poucas dezenas a algumas centenas de animais. As fêmeas sobem para áreas de areia ou cinza vulcânica, às vezes a certa distância da água, para cavar ninhos. A dependência de uma faixa estreita de costa torna a espécie sensível a derramamentos de óleo, à ocupação de praias e a espécies invasoras que chegam pela terra.
Distribuição geográfica
A espécie é endêmica do arquipélago de Galápagos, território do Equador no Pacífico, e ocorre em quase todas as ilhas principais. A ilha de Fernandina concentra a maior fração da população, possivelmente cerca de dois quintos dos indivíduos.
Todo o seu território está dentro do Parque Nacional e da Reserva Marinha de Galápagos, que também são reserva da biosfera e sítio do Patrimônio Mundial. As populações de ilhas diferentes são em boa parte isoladas, o que explica a diferenciação em subespécies e a ocorrência de populações pequenas com risco maior que a média da espécie.
Ocorrência registrada em: Equador.
Alimentação
Come quase exclusivamente algas vermelhas e verdes, raspadas das rochas na zona de maré ou em mergulhos rasos. Machos grandes mergulham mais fundo; indivíduos menores se alimentam sobretudo na maré baixa, na faixa exposta das rochas.
As algas marrons são difíceis de digerir, e a espécie pode passar fome se essas forem a única opção. A digestão depende de bactérias intestinais que decompõem as algas, e por isso o animal precisa se aquecer ao sol depois de se alimentar na água fria. Há registros raros de consumo de carniça, insetos e fezes de leões-marinhos.
Comportamento
Passa a maior parte do dia imóvel sobre rochas, alternando banho de sol e curtas incursões ao mar. Os animais se agrupam para conservar calor, e o grupo é mais uma consequência da escassez de bons pontos de sol do que uma organização social.
Na época de reprodução, machos grandes defendem pequenos territórios por até três meses, cabeceando rivais e exibindo-se. Fora desse período, a espécie é pouco territorial. Ao contrário de outros répteis, mergulha para alimentar-se e reduz a frequência cardíaca debaixo d'água. A vida média é curta, de 12 anos ou menos para a maioria, mas alguns indivíduos podem chegar a cerca de 60 anos.
Reprodução
A época de cortejo vai de dezembro a março, e a postura ocorre de janeiro a abril. As fêmeas cavam túneis no solo arenoso ou de cinza vulcânica e depositam em geral dois ou três ovos, que eclodem após três a quatro meses.
As fêmeas amadurecem aos 3 a 5 anos, e os machos aos 6 a 8. A espécie pode se hibridizar com iguanas-terrestres do gênero Conolophus, com descendentes viáveis, curiosidade genética que confirma o parentesco estreito entre as duas linhagens. Em anos de El Niño, as fêmeas magras podem deixar de se reproduzir.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
As estimativas disponíveis são muito incertas e divergem entre fontes: uma estimativa para o arquipélago fala em 200 a 300 mil animais, enquanto outra, divulgada pela International Iguana Foundation, indica entre cerca de 19.800 e 210.000. A amplitude mostra a dificuldade de contar animais dispersos em centenas de quilômetros de costa vulcânica. As subpopulações de San Cristóbal, Santiago e Genovesa são consideradas em perigo.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.
Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Mudanças climáticas
Eventos de El Niño aquecem a água e reduzem as algas de que a espécie depende, e a mortalidade por fome pode eliminar até 90% de algumas populações. Em anos de perdas moderadas, de 30% a 50%, o declínio costuma ser recuperado em cerca de quatro anos, mas o aquecimento prolongado reduz a margem de recuperação.
Espécies exóticas invasoras
Cães, gatos, porcos e ratos introduzidos predam adultos, filhotes e ovos; uma alga marrom invasora pode também dominar áreas após El Niño, deixando as iguanas sem alimento digerível.
Poluição e resíduos
O derramamento do navio Jessica, em 2001, reduziu em cerca de dois terços a população de Santa Fé, em parte porque o óleo destrói as bactérias intestinais que digerem as algas. Microplásticos e outros resíduos marinhos somam-se a esse risco.
Doenças emergentes
Patógenos trazidos por pessoas, animais domésticos ou turistas podem afetar populações sem imunidade, e a pequena população de cada ilha torna qualquer surto potencialmente grave.
Ocupação e iluminação da costa
A presença humana em praias e o turismo mal ordenado perturbam áreas de repouso e desova em trechos próximos às comunidades das ilhas habitadas.
Importância ecológica
A iguana-marinha é o principal herbívoro de algas das zonas de maré em várias ilhas e, ao pastar, influencia a composição da comunidade algal e a disponibilidade de espaço para outros organismos. Seus ninhos e carcaças alimentam aves, caranguejos e outros animais costeiros.
Para a ciência, é um exemplo clássico de adaptação a ambiente extremo e um sinal precoce do impacto de variações oceânicas sobre a fauna: cada El Niño e cada derramamento de óleo documentado forneceu dados valiosos sobre como a vida do litoral responde ao aquecimento e à poluição.
Projetos de conservação
- Estudo sobre poluição por plásticos marinhos · Pesquisadores com apoio da International Iguana Foundation
- Em 2018, a fundação financiou um estudo sobre o impacto de resíduos plásticos sobre a espécie, conduzido por Jen Jones e Juan Pablo Muñoz-Pérez.
- Monitoramento com drones e ciência cidadã · Amy Macleod, com apoio da International Iguana Foundation
- Em 2019, um projeto passou a usar drones e voluntários para acompanhar a população em ilhas de difícil acesso, ajudando a reduzir a incerteza das contagens.
Como a espécie é protegida
A espécie está no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção e é totalmente protegida pela legislação do Equador. Toda a sua área de ocorrência está dentro do Parque Nacional e da Reserva Marinha de Galápagos, da Reserva da Biosfera do arquipélago e do sítio do Patrimônio Mundial.
O risco, porém, vem de ameaças que atravessam fronteiras de parques: aquecimento do oceano, resíduos que chegam pelas correntes e espécies que acompanham o fluxo de visitantes e cargas. O controle de animais invasores, a vigilância de embarcações e o monitoramento contínuo das colônias são as medidas centrais, ao lado de programas de educação para moradores e turistas.
Curiosidades
- É o único lagarto do planeta que se alimenta no mar.
- Elimina o excesso de sal espirrando, e a crosta esbranquiçada que se forma na cabeça é sal seco.
- Pode mergulhar a cerca de 30 metros de profundidade, embora a maioria se alimente em águas muito rasas.
- Machos de algumas ilhas ficam avermelhados e esverdeados na estação de acasalamento.
- Pode se cruzar com as iguanas-terrestres do arquipélago, com filhotes viáveis.
Fontes consultadas
- Marine iguana. Wikipedia, com referências à avaliação da IUCN. Consultar
- Amblyrhynchus cristatus — Reptile Database. The Reptile Database, 2026. Consultar
- Galápagos marine iguana. International Iguana Foundation, 2026. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026
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