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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 20 de outubro de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Cavalo-marinho-do-focinho-longo

Hippocampus reidi Ginsburg, 1933

Peixe de postura vertical e nado lento que se agarra a raízes de mangue e gorgônias; é o cavalo-marinho mais comum do litoral brasileiro e sofre com a coleta para aquários e souvenires e com a destruição dos estuários.

Descrição

O cavalo-marinho-do-focinho-longo é um peixe ósseo que nada na vertical, com cabeça inclinada, focinho tubular e cauda preênsil capaz de se enrolar em qualquer suporte fino. Ele não tem escamas: o corpo é recoberto por placas ósseas dispostas em anéis, e a cor muda com o ambiente, indo do amarelo vivo ao alaranjado, ao marrom e ao preto quase uniforme.

É a espécie de Hippocampus mais frequentemente encontrada no Brasil e a que mais aparece em estuários, raízes de mangue, bancos de gramas marinhas e recifes rasos. Apesar disso, vive em densidades muito variáveis: em alguns estuários é localmente comum, em muitos outros é raro ou ausente, e seus agrupamentos são pequenos e dependentes de poucos pontos de abrigo.

Os cavalos-marinhos têm uma biologia pouco usual entre os peixes: são o grupo em que o macho carrega os ovos em uma bolsa ventral e leva a gestação até o nascimento. Essa característica, somada à baixa mobilidade e à fidelidade a um território pequeno, torna as populações sensíveis a qualquer retirada de adultos.

Características físicas

O corpo é comprido, comprimido nas laterais e segmentado por anéis de placas ósseas, com pequenos espinhos e uma coroa na cabeça cujo formato varia entre indivíduos. Os olhos se movem de forma independente, e o focinho alongado funciona como um canudo, que suga pequenos crustáceos de uma só vez.

Não há nadadeira caudal. O deslocamento se faz por uma nadadeira dorsal que vibra dezenas de vezes por segundo, auxiliada por pequenas nadadeiras peitorais que controlam a direção. A cauda é enrolável e serve de âncora; o animal nada mal e gasta muita energia quando precisa vencer correnteza, o que explica sua dependência de locais abrigados.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento máximocerca de 17,5 cm, medido da coroa à ponta da cauda esticada
Tamanho na primeira maturaçãocerca de 8 cm
Tamanho do recém-nascidocerca de 7 mm
Gestaçãocerca de duas semanas, conforme a temperatura da água
Profundidade de ocorrênciada superfície até cerca de 55 a 60 m, mais comum em águas rasas

Habitat

Ocupa águas marinhas e salobras, em geral associada a um substrato ao qual possa se prender: raízes aéreas de mangue, gorgônias, esponjas, cordas e estruturas submersas, gramas marinhas e, às vezes, algas flutuantes do gênero Sargassum. Indivíduos menores tendem a ficar em águas mais rasas.

Em estuários do Nordeste, estudos acompanharam populações residentes que usam as raízes de mangue como suporte quase exclusivo. Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará, que marcou e acompanhou 248 indivíduos no estuário do rio Pacoti entre dezembro de 2017 e novembro de 2018, concluiu que a sobrevivência da espécie depende da preservação desse ambiente, já que os animais se deslocam pouco e não têm para onde ir quando o mangue desaparece.

Distribuição geográfica

Ocorre no Atlântico ocidental, da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, ao litoral brasileiro, incluindo o mar do Caribe, em faixa que vai de cerca de 29° N a 25° S. A lista de países com registros é longa, mas em toda a área a espécie aparece em manchas, com grandes lacunas entre uma população e outra.

No Brasil, os registros se estendem por boa parte da costa, do Nordeste ao Sudeste, com concentrações em estuários e baías protegidas. Levantamentos no Ceará e no Piauí encontraram populações residentes, e há registros na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, e no litoral de Pernambuco, onde o Pontal de Maracaípe é um dos pontos mais conhecidos de observação.

Ocorrência registrada em: Brasil, Estados Unidos, Bahamas, Belize, Colômbia, Cuba, Haiti, Honduras, Jamaica, Panamá e Venezuela.

Alimentação

É um predador de emboscada. Fica imóvel, preso a um suporte, e aspira com um movimento brusco da cabeça pequenos crustáceos, como copépodes, anfípodes e camarões minúsculos, além de larvas de outros animais. Os jovens se alimentam de plâncton muito pequeno, o que torna a criação em cativeiro trabalhosa e cara.

O sistema digestório é curto e sem estômago verdadeiro, de modo que o animal precisa comer quase continuamente. Isso aumenta sua vulnerabilidade a mudanças na qualidade da água: se a turbidez cresce ou o plâncton diminui, a visão e a captura de presas ficam comprometidas, e o peixe enfraquece rapidamente.

Comportamento

Passa a maior parte do tempo parado, camuflado entre raízes e organismos fixos. Os indivíduos se movimentam pouco e tendem a permanecer em uma área restrita, o que torna a espécie fácil de capturar e difícil de repor quando uma população é esvaziada.

Os casais são monogâmicos durante a estação reprodutiva e fazem cumprimentos matinais, nos quais macho e fêmea nadam juntos, mudam de cor e giram em torno de um mesmo suporte. Segundo a base FishBase, os pares dividem uma área de uso comum, mas não defendem um território. A espécie não faz migrações longas.

Reprodução

A fêmea deposita os ovos na bolsa incubadora do macho, que os fertiliza, os mantém aerados e os alimenta por cerca de duas semanas até o parto. Os recém-nascidos medem pouco mais de 7 mm e já nascem independentes. Em laboratório, a espécie pode se reproduzir por mais de oito meses no ano, e os machos podem voltar a receber ovos poucas horas depois do parto.

A ninhada pode chegar a centenas de filhotes por parto, mas a mortalidade nas primeiras semanas é enorme: reportagem baseada em informações de analista do ICMBio em Jericoacoara, em 2008, citava média de cerca de 500 filhotes por gestação e sobrevivência por volta de 3%. A reposição de adultos, portanto, é lenta, e a retirada contínua de reprodutores compromete mais a população do que o número de filhotes sugere.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa do número total de indivíduos, nem global nem nacional. A avaliação da IUCN baseia-se na redução suspeita da população por exploração e perda de habitat, e a lista brasileira usa critérios próprios, com a espécie na categoria vulnerável. Estudos locais, como os realizados em estuários do Ceará e do Piauí, fornecem densidades pontuais, que não podem ser somadas para estimar um total.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Quase ameaçada (NT). Não atende hoje aos critérios de ameaça, mas está perto disso.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria quase ameaçada e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Sobrepesca e captura acidental

    Estima-se que cerca de 25 milhões de cavalos-marinhos sejam extraídos por ano no Brasil, para aquarismo, artesanato e uso em remédios caseiros, segundo informação compilada na literatura. Também são capturados acidentalmente em redes de pequena escala.

  • Perda e conversão de habitat

    Cerca de 40% da área contínua de manguezais do país já foi perdida, segundo o ICMBio, sobretudo no Sudeste e no Nordeste, o que elimina o suporte físico de que a espécie depende.

  • Poluição e resíduos

    Esgoto, resíduos e sedimentos aumentam a turbidez dos estuários, dificultam a caça visual de plâncton e reduzem a qualidade dos locais de reprodução.

  • Tráfico de animais silvestres

    A retirada ilegal para o comércio ornamental atinge pontos conhecidos de ocorrência, e os animais capturados costumam morrer em cativeiro por falta de alimento vivo adequado.

  • Mudanças climáticas

    A elevação do nível do mar e a alteração do regime de chuvas mudam a salinidade e a extensão dos mangues, e as populações, com baixa mobilidade, têm dificuldade para se deslocar.

Importância ecológica

O cavalo-marinho controla populações de pequenos crustáceos planctônicos e serve de alimento para peixes maiores e aves aquáticas. Sua presença indica estuários com mangue preservado, água de boa qualidade e abrigo suficiente, de modo que o desaparecimento da espécie costuma anteceder o de outros organismos que dependem das mesmas condições.

Por ser carismático, é também uma espécie-bandeira: funciona como argumento para proteger manguezais e gramas marinhas, ambientes que sustentam a pesca artesanal e protegem a costa. Em localidades como o Pontal de Maracaípe e Jericoacoara, a observação orientada gera atividade turística, com regras que ajudam a manter as populações.

Projetos de conservação

Instituto Hippocampus · Instituto Hippocampus (Porto de Galinhas, Pernambuco)
Organização sem fins lucrativos criada em 2001 para conservação de cavalos-marinhos, que monitorou a população do Pontal de Maracaípe e mantinha um espaço de visitação com aquários. Segundo reportagem de janeiro de 2020, a unidade foi fechada depois do fim do patrocínio principal e da dificuldade de custeio.
Estudo da população do estuário do Pacoti · Universidade Federal do Ceará
Acompanhamento de 248 indivíduos em estuário cearense entre 2017 e 2018, publicado na revista Neotropical Ichthyology, que ligou a sobrevivência da espécie à preservação do mangue e à estabilidade da salinidade.
Observação ordenada em Jericoacoara · ICMBio, no Parque Nacional de Jericoacoara
Ações de educação ambiental com comunidades do entorno e regras para passeios de observação, como não manusear os animais, devolvê-los ao mesmo local e não usar protetor solar na água.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

O cavalo-marinho-do-focinho-longo consta da Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (Portaria MMA nº 148/2022) na categoria vulnerável, o que proíbe sua captura, transporte e comércio. Também está no Apêndice II da CITES, que exige controle do comércio internacional de exemplares e de partes.

A proteção em campo depende de unidades de conservação em estuários e manguezais, de fiscalização do comércio ilegal e de educação ambiental voltada a pescadores e comunidades. Como a espécie faz pouca dispersão, a recuperação de populações locais esvaziadas é lenta e pouco provável sem a restauração do manguezal.

Curiosidades

  • O macho é quem fica grávido: a fêmea deposita os ovos na bolsa dele, e é ele quem dá à luz.
  • Os olhos se movem de forma independente, permitindo vigiar presas e predadores ao mesmo tempo.
  • A cor muda com o ambiente e com o humor, e ao amanhecer os casais fazem uma dança de cumprimento.
  • Não tem estômago, por isso precisa comer quase o tempo todo.
  • Mesmo sendo a espécie mais conhecida do litoral brasileiro, pode ser raríssima a poucos quilômetros de um ponto onde é comum.

Fontes consultadas

  1. Hippocampus reidi, Slender seahorse. FishBase, 2016. Consultar
  2. Slender seahorse. Wikipédia (síntese com referências à IUCN), 2017. Consultar
  3. Portaria MMA nº 148, de 7 de junho de 2022 — Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. ICMBio / Ministério do Meio Ambiente, 2022. Consultar
  4. Sobrevivência de espécie brasileira de cavalo-marinho depende do mangue. Canaltech, 2021. Consultar
  5. Projeto de preservação de cavalo-marinho fecha por falta de apoio em Pernambuco. Diario de Pernambuco, 2020. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026

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