Tubarão-branco
Carcharodon carcharias (Linnaeus, 1758)
Maior peixe predador do planeta, de crescimento lento e reprodução tardia; está presente em quase todos os mares temperados e é raro no litoral brasileiro.
- VUVulnerável
- Peixes
- Ocorre no Brasil
- Também chamada de tubarão-branco-grande, tintureira-branca e great white shark
Descrição
O tubarão-branco é o maior peixe predador vivo e um dos animais mais conhecidos do imaginário popular, em boa parte por causa de filmes que exageraram sua periculosidade. Na prática, é um predador de topo de cadeia que encontra presas em águas costeiras e oceânicas e entra em contato com pessoas muito raramente, em geral por confundir um surfista com uma foca.
Ocorre em mares tropicais e temperados de praticamente todo o mundo, com concentrações em ilhas e plataformas continentais onde há colônias de focas e leões-marinhos. Marcações por satélite mostram que alguns indivíduos cruzam bacias oceânicas inteiras, o que obriga a pensar a proteção da espécie em escala internacional.
A espécie é classificada como vulnerável pela IUCN e também na lista nacional brasileira. O risco decorre da combinação de maturidade tardia, ninhadas pequenas e mortalidade acidental em redes e anzóis, que compromete a reposição mesmo quando poucos indivíduos são perdidos.
Características físicas
O corpo é robusto e em forma de torpedo, com focinho cônico e dorso cinza-azulado separado do ventre branco por uma linha nítida, padrão que reduz a visibilidade para presas vistas de cima ou de baixo. A boca guarda cerca de 300 dentes triangulares e serrilhados, de até 7,5 cm, dispostos em fileiras que são repostas ao longo da vida.
O tubarão-branco tem a capacidade de manter a musculatura e parte das vísceras mais quentes do que a água do entorno, adaptação que favorece a caça em mares frios e a travessia de longas distâncias. As fêmeas são maiores que os machos, característica que se acentua nos adultos.
| Comprimento máximo confiável | cerca de 6 m; relatos de 7 m ou mais não são confirmados |
|---|---|
| Tamanho de maturidade | machos de cerca de 3,4 a 4 m; fêmeas de cerca de 4,5 a 5 m |
| Peso de fêmeas adultas | cerca de 1.000 a 1.900 kg |
| Idade na maturidade | cerca de 26 anos nos machos e 33 anos nas fêmeas, em estimativas recentes |
| Longevidade | estimada em mais de 70 anos |
| Profundidade registrada | maior parte dos registros acima de 250 m |
Habitat
Prefere águas costeiras e de plataforma continental, de temperadas a subtropicais, mas pode ser encontrado em oceano aberto e perto de ilhas oceânicas. A maior parte dos registros fica entre a superfície e 250 m de profundidade, ainda que mergulhos mais fundos tenham sido documentados em marcações por satélite.
Suporta temperaturas de aproximadamente 5 a 25 °C. Berçários, onde nascem e crescem os filhotes, ficam em águas rasas e relativamente quentes de algumas regiões, como as plataformas do sudeste dos Estados Unidos e da Califórnia, e exigem proteção específica por concentrar jovens.
Distribuição geográfica
Tem distribuição quase cosmopolita, de cerca de 61° N a 58° S, com populações bem estudadas no Pacífico nordeste e noroeste, no Atlântico noroeste, no Mediterrâneo, no sul da África e na Oceania. Os indivíduos de uma região podem se deslocar milhares de quilômetros entre áreas de alimentação e de reprodução.
No Atlântico sul-ocidental, ocorre do Brasil à Argentina, mas é incomum. No Brasil, a espécie é considerada rara, e a maioria das informações vem de capturas incidentais e de registros esparsos, sem série de monitoramento contínuo que permita descrever sua frequência ou seus locais de agregação.
Ocorrência registrada em: Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Estados Unidos, México, Itália, Espanha, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Japão e Águas internacionais.
Alimentação
Jovens comem sobretudo peixes e cefalópodes, além de raias e pequenos tubarões. À medida que crescem, e especialmente a partir de cerca de 4 m, os adultos passam a incluir mamíferos marinhos como focas, leões-marinhos e golfinhos, além de tartarugas e aves marinhas.
Também se alimentam de carcaças de baleias, fonte de grande conteúdo energético. A estratégia típica de caça é uma investida vinda de baixo, em alta velocidade, seguida de uma mordida e de uma retirada para esperar que a presa enfraqueça. Por ocupar o topo da teia alimentar, sua presença é regida pela disponibilidade de presas grandes.
Comportamento
É um nadador solitário na maior parte do tempo, mas várias dezenas de indivíduos podem se reunir perto de colônias de focas ou carcaças de baleia, com hierarquias baseadas em tamanho e sexo. Em alguns locais, os animais retornam todos os anos às mesmas áreas de alimentação, o que permite estudos de longa duração por fotoidentificação.
Marcações por satélite documentaram migrações regulares entre costas e o oceano aberto, incluindo viagens de ida e volta entre a costa da Califórnia e o meio do Pacífico, e entre a África do Sul e a Austrália. Esses movimentos fazem com que um mesmo indivíduo seja protegido em um país e capturado legalmente em outro.
Reprodução
É ovovivíparo: os embriões se desenvolvem dentro do corpo da fêmea, alimentando-se primeiro do vitelo e depois de óvulos não fertilizados. A gestação é longa, de cerca de 12 meses, e termina com o nascimento de uma ninhada pequena, de poucos filhotes, que nascem com 1 a 1,6 m.
O intervalo entre ninhadas é de pelo menos dois anos, e a maturidade tardia significa que as fêmeas só começam a se reproduzir depois de três décadas. A combinação faz com que o número de filhotes ao longo da vida de uma fêmea seja baixo, e que a perda de poucas adultas tenha efeito duradouro. Os filhotes ficam em berçários rasos, onde são mais vulneráveis a redes de pesca.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
Não existe estimativa global consolidada. Estudos regionais indicam algo entre 2.500 e 6.750 indivíduos no leste da Austrália e Nova Zelândia e cerca de 2.400 na costa da Califórnia, e uma estimativa global mínima de cerca de 5.800 indivíduos foi publicada em 2025, com a ressalva de que o valor real pode ser maior. Para o Brasil, não há número disponível. A IUCN estimou declínio de 30% a 49% em relação à situação do século XIX.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Sobrepesca e captura acidental
É capturado acidentalmente por redes de emalhe, espinhéis e armadilhas de pesca comercial e recreativa. Como a espécie cresce devagar e tem poucos filhotes, a mortalidade de adultos e de jovens em berçários não é compensada.
Conflito com atividades humanas
Redes e linhas de controle de tubarões instaladas em praias da Austrália e da África do Sul matam exemplares, e ataques a pessoas, mesmo raros, geram pressão por abates.
Tráfico de animais silvestres
Mandíbulas, dentes e barbatanas têm valor de colecionismo e de comércio, e existe mercado ilegal para essas partes, que a inclusão na CITES procura controlar.
Poluição e resíduos
Contaminantes como o mercúrio se acumulam em predadores de topo e podem prejudicar a saúde e a reprodução ao longo de décadas de vida.
Mudanças climáticas
O aquecimento dos oceanos desloca presas e áreas térmicas adequadas, o que pode alterar rotas e locais de berçário.
Importância ecológica
Como predador de topo, o tubarão-branco regula populações de mamíferos marinhos e grandes peixes, e a retirada de indivíduos doentes ou fracos influencia a saúde dessas populações. A carne de baleias que morrem no mar, quando consumida por ele, devolve energia ao ecossistema.
A remoção de grandes predadores marinhos pode desencadear cascatas tróficas, nas quais aumentam os predadores intermediários e diminuem suas presas, com alteração da estrutura de ecossistemas costeiros. Por isso a espécie é considerada importante para o equilíbrio dos mares, ainda que seu papel exato em cada região seja pouco documentado.
Projetos de conservação
- Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Tubarões e Raias Marinhos Ameaçados (2º ciclo) · ICMBio
- Instrumento de planejamento aprovado em 2025 que abrange 63 táxons de elasmobrânquios ameaçados na lista nacional, incluindo o tubarão-branco, e define ações de ordenamento, pesquisa e redução da captura incidental.
- Plano de Recuperação do Tubarão-branco · Governo da Austrália
- Plano federal publicado em 2002 e revisado em 2013, com objetivos de monitoramento populacional, redução de capturas e proteção de áreas importantes. Em 2013, 14 dos 34 objetivos já haviam sido cumpridos, segundo fonte secundária consultada.
Como a espécie é protegida
No Brasil, o tubarão-branco consta da Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (Portaria MMA nº 148/2022) na categoria vulnerável, e é um dos táxons contemplados pelo segundo ciclo do Plano de Ação Nacional para tubarões e raias, aprovado por portaria do ICMBio em 2025. Internacionalmente, está nos Apêndices II da CITES e I e II da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), segundo a base FishBase.
Vários países proíbem a captura e o comércio da espécie, incluindo África do Sul (desde 1991), Estados Unidos (desde 1997) e Nova Zelândia (desde 2007), e a União Europeia a protege desde 2009. Para espécies migratórias, a proteção só se completa com acordos entre países vizinhos e com medidas em pescarias que evitem a captura acidental.
Curiosidades
- Os dentes são repostos continuamente, e um indivíduo pode perder e substituir milhares ao longo da vida.
- Fêmeas só atingem a maturidade em torno dos 33 anos, em estimativas recentes, bem mais tarde do que se supunha há algumas décadas.
- Marcações por satélite mostraram viagens de milhares de quilômetros em mar aberto.
- Embora o filme Tubarão tenha criado a ideia de um caçador de humanos, a espécie não nos tem como presa habitual.
- No Atlântico sul-ocidental, a espécie é tão rara que a maioria dos registros brasileiros vem de capturas ocasionais.
Fontes consultadas
- Carcharodon carcharias, Great white shark. FishBase, 2018. Consultar
- Great white shark. Wikipédia (síntese com referências à IUCN), 2025. Consultar
- Portaria MMA nº 148, de 7 de junho de 2022 — Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. ICMBio / Ministério do Meio Ambiente, 2022. Consultar
- Portaria ICMBio nº 1.558/2025 — aprovação do 2º ciclo do PAN Tubarões. ICMBio, 2025. Consultar
- Tubarão-branco. Wikipédia em português, 2025. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026
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