Sauim-de-coleira
Saguinus bicolor (Spix, 1823)
Minúsculo primata de rosto sem pelos que vive em uma faixa estreita de floresta ao redor de Manaus e é um dos animais mais ameaçados da Amazônia, justamente por habitar uma área em plena expansão urbana.
- CRCriticamente em perigo
- Mamíferos
- Endêmica do Brasil
- Também chamada de sagui-de-coleira e sauim
Descrição
O sauim-de-coleira é um sagui de meio quilo que carrega o título pouco invejável de primata mais ameaçado do bioma amazônico. Sua história é incomum: em vez de desaparecer em uma fronteira agrícola distante, ele perde espaço no quintal de uma metrópole. A espécie vive nos arredores de Manaus e ocupa uma área tão pequena que praticamente todo o seu futuro depende de como a cidade cresce.
Ele foi escolhido como símbolo de Manaus em 2005, o que o tornou conhecido do público local, mas a fama não impediu o encolhimento do seu território. Avaliações oficiais brasileiras e a Lista Vermelha da IUCN o colocam na categoria mais alta de ameaça para espécies ainda presentes na natureza, e os dados disponíveis apontam uma redução populacional de cerca de 80% desde 1997.
Características físicas
O rosto é preto e totalmente desprovido de pelos, um contraste marcante com a faixa de pelos brancos que cobre a parte superior do peito e dos ombros e que dá ao animal o nome de coleira. A região inferior do corpo varia de marrom-claro a escuro, e a cauda é longa e usada como balanço durante os saltos entre galhos.
Machos e fêmeas têm tamanho semelhante, em torno de 500 a 600 gramas, e o corpo mede de 28 a 32 centímetros, sem contar a cauda. Somada a cauda, o animal chega a cerca de 42 centímetros. Como em outros calitriquídeos, as unhas são em forma de garra, o que permite agarrar troncos verticais e se deslocar rápido pelos estratos médio e baixo da floresta.
| Comprimento do corpo | 28 a 32 cm, sem a cauda |
|---|---|
| Comprimento total | até cerca de 42 cm, com a cauda |
| Peso | 500 a 600 g |
| Tamanho do grupo | de 2 a cerca de 15 indivíduos |
| Área de vida do grupo | de 10 a 100 hectares |
| Longevidade | cerca de 10 anos na natureza e perto do dobro em cativeiro |
Habitat
Ocupa floresta de terra firme, matas de areia branca e fragmentos de mata secundária. Estudos de densidade apontam que a espécie é encontrada em maior número em florestas secundárias do que em mata antiga, o que mostra uma certa tolerância a ambientes alterados, desde que haja árvores com frutos, exsudatos e abrigo.
Essa flexibilidade tem limite claro. Quando o fragmento fica pequeno demais, cercado por ruas, cercas ou áreas abertas, o grupo deixa de conseguir se deslocar e se alimentar, e o bosque que parecia protegido se transforma em uma armadilha. Dormem em locais elevados, como a base de folhas de palmeiras.
Distribuição geográfica
A espécie é endêmica do Brasil e tem uma das menores áreas de distribuição entre os primatas amazônicos. Ocorre no estado do Amazonas, na região de Manaus e em municípios vizinhos, como Rio Preto da Eva e Itacoatiara, numa faixa limitada pelos rios Cuieiras, ao oeste, e Urubu, ao leste.
Boa parte desse território já foi convertida em área urbana, chácaras, ramais e loteamentos. Restam áreas protegidas importantes dentro da distribuição, como a Reserva Florestal Adolpho Ducke e o Parque Estadual Sumaúma, ambas em Manaus, mas elas funcionam como ilhas dentro de uma paisagem cada vez mais ocupada.
Ocorrência registrada em: Brasil.
Alimentação
O sauim-de-coleira é onívoro. Consome frutos, flores, néctar, gomas e seivas que obtém roendo cascas de árvores, além de insetos, aranhas, pequenos vertebrados e ovos de aves. Na estação seca a proporção de presas animais na dieta tende a aumentar, quando a oferta de frutos é menor.
Por dispersar sementes ao passar de uma árvore a outra, ele participa da regeneração da própria floresta. Essa função é especialmente relevante em fragmentos, onde a perda de grandes dispersores de sementes já reduziu a diversidade de plantas.
Comportamento
Vive em grupos que reúnem vários machos e fêmeas adultos, além de jovens, com tamanhos que variam de dois a mais de uma dezena de indivíduos. É diurno e se desloca em saltos curtos pelos galhos finos dos estratos baixo e médio da mata.
Em áreas onde a distribuição se encontra com a do sagui-de-mãos-douradas (Saguinus midas), há competição entre as duas espécies, e a espécie mais generalista costuma ganhar vantagem em ambientes degradados, o que agrava a situação do sauim-de-coleira nas bordas da sua área.
Reprodução
Em cada grupo, geralmente apenas a fêmea dominante se reproduz. Ela dá à luz, em regra, gêmeos, após uma gestação que dura entre quatro e seis meses. A reprodução se concentra entre março e maio, segundo a literatura consultada.
Os filhotes são carregados e cuidados por todo o grupo, em um sistema chamado de criação cooperativa: machos adultos e irmãos mais velhos transportam os pequenos e os entregam à mãe apenas para mamar. Esse arranjo funciona bem em floresta contínua, mas torna a espécie sensível à perda de indivíduos, porque a morte de adultos reprodutores desorganiza o grupo inteiro.
População estimada e tendência
Estimativa: estimada em cerca de 45 mil indivíduos, dos quais pouco mais de 20 mil adultos, segundo o Livro Vermelho de 2020 citado pelo Ibama; a redução é de aproximadamente 80% desde 1997
A estimativa vem de uma citação do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção divulgada em material do Ibama, e não de um censo direto. Como a espécie vive em fragmentos pequenos e dispersos, os números têm incerteza considerável e devem ser lidos como ordem de grandeza.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Criticamente em perigo (CR). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Perda e conversão de habitat
A expansão urbana desordenada e as ocupações irregulares em torno de Manaus eliminam a floresta na qual a espécie vive; estimativas apontam perda de cerca de 80% do habitat original.
Fragmentação de habitat
Grupos isolados em fragmentos pequenos não trocam indivíduos entre si, perdem diversidade genética e ficam vulneráveis a qualquer evento local, como um incêndio ou a entrada de predadores.
Atropelamentos e barreiras de infraestrutura
Ruas e rodovias que cortam as matas causam atropelamentos, e fios de energia próximos a árvores provocam eletrocussão de animais que usam a fiação como ponte.
Espécies exóticas invasoras
Cães e gatos domésticos que circulam em áreas de mata predam sauins que descem ao solo ou se aproximam de moradias.
Tráfico de animais silvestres
Filhotes são capturados para virar animais de estimação, prática ilegal que remove justamente os indivíduos que sustentam a reprodução do grupo.
Importância ecológica
Como dispersor de sementes e predador de pequenos invertebrados, o sauim-de-coleira contribui para a regeneração das matas ao redor de Manaus e para o equilíbrio de populações de insetos. Sua presença indica que ainda há conexão entre fragmentos, e sua ausência costuma anteceder o empobrecimento de toda a comunidade de fauna do local.
A espécie também tem valor como animal-símbolo: por viver dentro da área de influência de uma capital de mais de dois milhões de habitantes, é uma das poucas espécies ameaçadas da Amazônia que a população urbana consegue ver, o que facilita ações de educação ambiental e de apoio à criação de áreas verdes.
Projetos de conservação
- Plano de Ação Nacional para a Conservação do Sauim-de-coleira · ICMBio, com apoio do Ibama
- Em vigor desde 2011, reúne ações de restauração de fragmentos florestais, pesquisa, monitoramento das populações, melhoria de estruturas de atendimento e reabilitação de animais e campanhas de educação ambiental.
- Programa de manejo em cativeiro e estudbook · Zoológicos e instituições de pesquisa participantes
- Mantém uma população em cativeiro com registro genealógico, como reserva de segurança para a espécie, embora o sucesso reprodutivo em cativeiro seja limitado.
Como a espécie é protegida
A espécie consta como criticamente em perigo tanto na Lista Vermelha da IUCN quanto na lista brasileira de fauna ameaçada, e está no Anexo I da CITES, que proíbe o comércio internacional com fins comerciais. Também aparece na relação dos 25 primatas mais ameaçados do mundo na publicação Primates in Peril 2023–2025.
Parte da distribuição está dentro de áreas protegidas, como a Reserva Florestal Adolpho Ducke e o Parque Estadual Sumaúma. Especialistas lembram, porém, que o plano de ação pode não bastar sem controle do crescimento urbano desordenado e fiscalização das ocupações irregulares, e defendem a manutenção de corredores de vegetação dentro da cidade.
Curiosidades
- Foi escolhido como símbolo da cidade de Manaus em 2005.
- O rosto não tem pelos e é totalmente preto, um traço que o diferencia de quase todos os outros saguis.
- Os gêmeos são cuidados por todo o grupo, e os machos costumam carregar os filhotes por longos períodos.
- Vive em uma área menor do que muitas cidades, o que faz dele um dos primatas de menor distribuição do mundo.
Fontes consultadas
- Pied tamarin (Saguinus bicolor). Wikipedia, que reúne dados da IUCN sobre a espécie. Consultar
- 24 de outubro: Dia Nacional do Macaco Sauim. Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (SEMIL), 2025. Consultar
- Ibama soa alerta para preservação do sauim-de-coleira. Ibama, reproduzido por eCycle. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026
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Selecionadas por proximidade taxonômica, ambiente compartilhado, estado de conservação e ameaças em comum com a sauim-de-coleira.
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