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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 20 de outubro de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Rã-de-Darwin

Rhinoderma darwinii Duméril & Bibron, 1841

Minúscula rã das florestas frias do sul do Chile e da Argentina, cujos machos incubam os girinos dentro do saco vocal, em risco por perda de floresta e por fungo.

Descrição

A rã-de-Darwin foi encontrada por Charles Darwin durante a viagem do Beagle no Chile, e leva seu nome. Mede poucos centímetros e tem focinho em forma de ponta carnosa, o que lhe dá um perfil pontudo e inconfundível, mas o que a distingue de verdade é a reprodução: os machos guardam os girinos dentro do próprio saco vocal até que se transformem em pequenas rãs.

Esse tipo de cuidado paterno é raro entre os anfíbios. A espécie divide o gênero com outra rã, a rã-de-Darwin-do-norte, que não é vista desde 1981 e é considerada provavelmente extinta, o que dá à sobrevivente um peso especial para a conservação do grupo.

O destino dessa rã depende de florestas úmidas e frias do cone sul, hoje reduzidas e fragmentadas. Levantamentos mostraram que ela desapareceu de muitos locais onde já havia sido registrada, e a chegada da quitridiomicose a áreas antes livres da doença tornou urgente a criação de populações de segurança em cativeiro.

Características físicas

Os adultos são pequenos, com cerca de 2,2 a 3,1 cm do focinho à cloaca; as fêmeas são ligeiramente maiores que os machos. O focinho termina em um apêndice mole e pontudo, e a pele do dorso é lisa. A cor do dorso varia de marrom a verde vivo, e os machos são em geral mais variáveis; o ventre é escuro, marcado por manchas brancas grandes e por pontos menores amarelos ou alaranjados.

A coloração funciona como camuflagem na serapilheira e no musgo, e o contraste do ventre pode servir de alerta quando o animal é virado. Nos machos que incubam, o saco vocal se expande e ocupa boa parte do abdômen, deixando-os visivelmente inchados, e a região fica mais esverdeada.

Medidas registradas para a espécie
Comprimento do corpocerca de 2,2 a 3,1 cm
Ovos por posturade 4 a 10
Girinos incubados por machogeralmente de 5 a 8
Tempo de desenvolvimento no saco vocalcerca de seis semanas até a metamorfose
Altitudeaté cerca de 1.100 m

Habitat

Vive em florestas temperadas úmidas, sobretudo a floresta valdiviana, com solo coberto por serapilheira, musgos e troncos caídos, perto de riachos, poças e áreas encharcadas. A umidade é indispensável: a pele fina seca rapidamente se a cobertura vegetal é removida.

A espécie se dispersa pouco, e por isso as populações estão separadas em manchas de floresta. A conversão de mata nativa em plantações de espécies exóticas, a abertura de estradas e os incêndios reduzem o habitat e aumentam o isolamento, enquanto o clima mais seco ameaça as áreas de borda.

Distribuição geográfica

Ocorre no centro e no sul do Chile e em áreas adjacentes da Argentina, nas províncias de Neuquén e Rio Negro. A faixa de altitude chega a pouco mais de mil metros nos locais mais elevados.

Um levantamento realizado em 2013 só reencontrou a espécie em 36 dos 223 locais onde havia registros anteriores, o que mostra o tamanho da retração. Algumas das maiores populações conhecidas ficavam no Parque Tantauco, no sul do Chile, até a chegada da quitridiomicose na área.

Ocorrência registrada em: Chile e Argentina.

Alimentação

Alimenta-se de pequenos invertebrados do solo, em proporção ao que está disponível, incluindo insetos e outros artrópodes terrestres de hábitos detritívoros, herbívoros ou predadores. A caça é feita por espera: o animal fica imóvel entre a folhagem e captura o que passa ao alcance da língua.

Como cada indivíduo ocupa uma área muito pequena, a perda de serapilheira e de microhabitats em áreas desmatadas impacta diretamente a oferta de presas. Em ambientes frios, a rã reduz a atividade no inverno e passa por um período de baixa alimentação.

Comportamento

É diurna e terrestre, e permanece escondida no musgo e na serapilheira, saindo para caçar e cantar. Os machos emitem um canto agudo e curto, e o som é descrito localmente como semelhante a um assobio de vaqueiro.

É uma espécie de baixa mobilidade, o que limita a recolonização de áreas onde desapareceu. Estudos de ecologia térmica usam a rã para investigar como pequenos animais de sangue frio respondem a estações frias, e os resultados indicam que o repouso no inverno é mais importante que a resistência à fome.

Reprodução

As fêmeas depositam de 4 a 10 ovos em solo úmido, e os machos permanecem junto à postura. Depois de três ou quatro semanas, quando os embriões começam a se mexer, o macho engole os ovos e os mantém no saco vocal. Ali os girinos eclodem, se alimentam das reservas do ovo e se desenvolvem até a metamorfose, por cerca de seis semanas.

Os jovens saem pela boca do pai como rãs completas, bem desenvolvidas e independentes. Cada macho pode carregar de 5 a 8 girinos de uma vez, e em cativeiro foi observado que alguns incubam filhotes de outros machos. Esse sistema reduz a exposição dos filhotes a predadores, mas torna o macho mais vulnerável, porque a morte de um adulto elimina toda a ninhada.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa do total de indivíduos. A avaliação de risco baseia-se na redução da área de ocorrência e do número de populações: o levantamento de 2013 encontrou a rã em apenas 36 dos 223 locais com registros anteriores. Modelos estimaram perda de habitat de até 40% entre 1970 e 2010. Em 2023, a quitridiomicose atingiu o Parque Tantauco, onde mais de 1.300 rãs morreram em um ano.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Em perigo (EN). Risco muito alto de extinção na natureza a médio prazo.

Ver a definição completa da categoria em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Perda e conversão de habitat

    A substituição da floresta nativa por plantios de árvores exóticas, pastagem e ocupação humana é considerada o principal fator de declínio, com estimativas de perda de até 40% do habitat entre 1970 e 2010.

  • Doenças emergentes

    A quitridiomicose atingiu o Parque Tantauco em 2023, local antes livre da doença, e causou a morte de mais de 1.300 rãs em um ano; a espécie é altamente suscetível, e um animal infectado pode morrer em poucas semanas.

  • Fragmentação de habitat

    A baixa capacidade de dispersão impede que a rã recolonize manchas de floresta isoladas, e populações pequenas ficam expostas a extinção local.

  • Mudanças climáticas

    Redução de chuva e aumento de temperatura secam o solo e a serapilheira de que a rã depende e podem favorecer o fungo.

  • Incêndios e queimadas

    Incêndios florestais, cada vez mais frequentes no sul do Chile, destroem o habitat e eliminam populações inteiras de animais de baixa mobilidade.

Importância ecológica

A rã-de-Darwin contribui para a regulação de pequenos invertebrados na serapilheira e serve de alimento para predadores do solo. Como depende de florestas úmidas íntegras, sua presença indica ambientes de boa qualidade, e sua ausência acompanha o desaparecimento de outras espécies menos visíveis.

Sob o ponto de vista evolutivo, o cuidado paterno no saco vocal é um dos exemplos mais incomuns do grupo e valioso para estudos de comportamento e desenvolvimento. Perder a espécie significaria perder um modo de reprodução que, entre as rãs vivas, só ela e a espécie do norte (possivelmente extinta) conhecem.

Projetos de conservação

Resgate e salvaguarda da rã-de-Darwin · ONG Ranita de Darwin, Universidade Andrés Bello, Sociedade Zoológica de Londres, Zoológico Nacional do Chile, Universidade de Concepción e outros parceiros
Após o surto de quitridiomicose no Parque Tantauco, uma coalizão transferiu 53 rãs para o Zoológico de Londres, numa viagem de cerca de 13 mil km, para formar uma rede de reprodução em cativeiro e pesquisar a doença, com o objetivo de devolver descendentes ao Chile.
Estratégia Binacional de Conservação da Rã-de-Darwin · Órgãos governamentais, organizações não governamentais e entidades privadas do Chile e da Argentina
Articula ações de conservação nos dois países, combinando proteção do habitat, monitoramento e resposta a doenças.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie é classificada como Em perigo pela IUCN desde 2018. No Chile e na Argentina é protegida por normas de conservação da fauna, e parte de sua área de ocorrência está dentro de parques e reservas, embora as maiores ameaças ocorram também em áreas protegidas.

A conservação combina três frentes: manter e ligar fragmentos de floresta úmida, evitar a entrada de patógenos em populações ainda saudáveis, com protocolos de higiene para pesquisadores e visitantes, e criar populações de segurança em cativeiro enquanto não houver forma de controlar o fungo na natureza.

Curiosidades

  • O macho engole os ovos e os mantém no saco vocal até os filhotes virarem pequenas rãs.
  • Cada macho pode carregar de 5 a 8 girinos de uma vez.
  • Seu parente mais próximo, a rã-de-Darwin-do-norte, não é vista desde 1981.
  • O canto é descrito pelos moradores como um assobio de vaqueiro chamando o gado.
  • Em 2013, a espécie foi reencontrada em apenas 36 de 223 locais onde havia registros anteriores.

Fontes consultadas

  1. Darwin's frog. Wikipedia, com referências à avaliação da IUCN de 2018. Consultar
  2. Amphibian pandemic devastates the largest Darwin's frog populations. IUCN SSC Amphibian Specialist Group, 2024. Consultar
  3. Rhinoderma darwinii. Animal Diversity Web, Universidade de Michigan, 2026. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026

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