Coral-chifre-de-veado
Acropora cervicornis (Lamarck, 1816)
Coral ramificado de crescimento rápido que formava florestas submersas no Caribe e na Flórida, e perdeu cerca de 97% de sua população em poucas décadas por doença e aquecimento da água.
- CRCriticamente em perigo
- Invertebrados
- Também chamada de coral-de-chifre-de-cervo, coral-galhada e staghorn coral
Descrição

O coral-chifre-de-veado é um dos principais construtores de recife do Atlântico ocidental. Suas colônias formam ramos grossos e cilíndricos que lembram a galhada de um cervo e, quando saudáveis, se estendem em emaranhados chamados de matas, que servem de abrigo para peixes jovens, camarões e muitos outros organismos.
Até os anos 1970, era um dos corais mais abundantes de águas rasas do Caribe. A partir de 1979, uma doença bacteriana, a síndrome da banda branca, destruiu populações inteiras em toda a região. Segundo a agência norte-americana NOAA, a redução chegou a cerca de 97%, e o que sobrou são sobretudo colônias isoladas ou pequenos grupos, com matas densas restritas a poucos locais.
A espécie é classificada como criticamente em perigo pela IUCN. Não consta na lista brasileira de espécies ameaçadas: a revisão científica norte-americana de 2005 informa que não há registros de distribuição da espécie para o Brasil, e que o gênero Acropora está ausente no Atlântico ao sul do equador. Ela foi incluída na biblioteca como exemplo das ameaças aos recifes de coral e como contraponto aos corais brasileiros.
Características físicas
As colônias são formadas por ramos retos ou levemente curvos, com 2,5 a 7,6 cm de espessura, que se bifurcam e crescem em todas as direções. A cor vai do castanho-dourado ao bege, com as pontas de crescimento brancas. Cada ramo é coberto por pequenos tubos de esqueleto, os corálitos, de onde saem os pólipos.
Colônias maduras e saudáveis podem ter centenas de ramos e ultrapassar 2 m de altura e de largura. O esqueleto é de carbonato de cálcio e é relativamente frágil: ramos se quebram com ondas fortes, e fragmentos que caem em substrato adequado podem se fixar e formar novas colônias idênticas à original.
| Espessura dos ramos | cerca de 2,5 a 7,6 cm |
|---|---|
| Tamanho de colônia | podem passar de 2 m de altura e de largura |
| Profundidade usual | em geral até cerca de 20 m, em águas claras |
| Crescimento | um dos mais rápidos entre corais do Atlântico, com ramos que crescem mais de 10 cm por ano em condições favoráveis |
| Maturidade | colônias começam a se reproduzir com cerca de 18 cm de altura |
Habitat
Vive em recifes de águas rasas, claras, quentes e de salinidade estável, em encostas de recife, recifes de retaguarda, recifes de mancha e terraços de pedra calcária. Evita ambientes com muita turbidez e aqueles com ondas muito fortes, que quebram os ramos.
Em águas muito rasas, forma emaranhados densos, que funcionam como berçário de peixes e invertebrados. A dependência de luz é grande, porque a espécie obtém boa parte da energia de algas microscópicas que vivem nos tecidos, e por isso o aumento de sedimento e de nutrientes na água prejudica a sobrevivência.
Distribuição geográfica
Ocorre no Atlântico ocidental tropical: sul da Flórida e Florida Keys, Bahamas, Caribe e oeste do golfo do México. O limite norte conhecido é o condado de Palm Beach, na Flórida, onde a espécie é rara. Não ocorre nas Bermudas nem no litoral oeste da América do Sul.
A revisão de 2005 do governo dos Estados Unidos descreve registros históricos em países caribenhos como Belize, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia e Venezuela, e afirma que, mais a leste, no Brasil, não há registros da espécie, citando estudos brasileiros de 1986 e 1988. Isso concorda com a observação de que o gênero Acropora é ausente no Atlântico ao sul do equador.
Ocorrência registrada em: Estados Unidos, Bahamas, México, Belize, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Cuba, Jamaica, Haiti e República Dominicana.
Alimentação
Como outros corais construtores de recife, obtém a maior parte da energia — até cerca de 90% das necessidades nutricionais, segundo fonte secundária — de algas microscópicas do gênero Symbiodinium, que vivem dentro de seus tecidos e produzem açúcares pela fotossíntese.
À noite, os pólipos estendem tentáculos com células urticantes para capturar zooplâncton e partículas orgânicas. Essa alimentação complementar ajuda a colônia a se recuperar de estresses, mas não substitui as algas: sob calor extremo, os corais expulsam o simbionte e passam por branqueamento, e a colônia fica exposta a doenças e à fome.
Comportamento
É um animal colonial e séssil. Cada colônia é composta por milhares de pólipos geneticamente idênticos, que compartilham tecidos e nutrientes. A competição por espaço é intensa, e a espécie cresce tão rápido que supera quase todos os corais vizinhos enquanto está saudável.
A fragmentação é uma forma importante de expansão: tempestades quebram ramos que, ao se fixarem, geram colônias clonais. Isso ajuda a espécie a se espalhar rapidamente, mas produz populações com baixa diversidade genética, mais suscetíveis a uma mesma doença ou a um mesmo evento de calor.
Reprodução
A reprodução sexuada ocorre uma vez por ano, em liberações sincronizadas de gametas na coluna d'água, nas noites que seguem a lua cheia do fim do verão (em geral entre julho e setembro no hemisfério norte). Cada colônia produz óvulos e espermatozoides, mas raramente se autofertiliza, de modo que a fertilização depende da proximidade de colônias geneticamente distintas.
Com o colapso populacional, muitas colônias remanescentes estão distantes entre si, e a fertilização cruzada torna-se pouco provável. Esse é um dos motivos pelos quais programas de recuperação coletam gametas, fazem a fecundação em laboratório e criam larvas, enquanto outros usam fragmentos de colônia para cultivo em viveiros submersos.
População estimada e tendência
Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.
Corais são avaliados por cobertura viva e por número de colônias, e não por contagem de indivíduos. A agência NOAA estima redução de cerca de 97% da população após a emergência da doença da banda branca nos anos 1980, e o que resta é formado em grande parte por colônias isoladas ou pequenos grupos. Em 2023, uma onda de calor marinho deixou a espécie funcionalmente extinta nos recifes da Flórida, segundo a literatura consultada. Não há estimativa do total de colônias.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.
Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Doenças emergentes
A síndrome da banda branca, observada pela primeira vez em 1979, causou perdas de até 95% da cobertura de coral em algumas áreas; colônias infectadas perdem em média cerca de 84% do tecido, e a mortalidade chega a perto de 28%.
Mudanças climáticas
O aquecimento da água provoca branqueamento, que aumenta a suscetibilidade a doenças. A acidificação do oceano dificulta a formação do esqueleto de carbonato de cálcio.
Sobrepesca e captura acidental
A retirada de peixes herbívoros deixa algas e esponjas crescerem sobre o recife, competindo por espaço com os corais e impedindo que as larvas se fixem.
Poluição e resíduos
Sedimento, nutrientes e substâncias tóxicas de origem terrestre reduzem a luz disponível para as algas simbiontes e favorecem organismos que competem com o coral.
Ocupação e iluminação da costa
Dragagem, obras costeiras, ancoragem e encalhes de embarcações quebram os ramos, e os fragmentos produzem populações geneticamente uniformes.
Importância ecológica
A espécie constrói a estrutura tridimensional dos recifes rasos do Caribe. Os emaranhados de ramos oferecem abrigo para peixes jovens, lagostas, camarões e outros animais, sustentam a pesca local e dissipam a energia das ondas, protegendo a costa de erosão.
A perda dessa estrutura reduz o refúgio disponível para a fauna e diminui a proteção contra tempestades. Como a espécie cresce rápido, foi historicamente a principal responsável pela expansão e pela recuperação de recifes após furacões, papel que hoje poucos corais são capazes de assumir.
Projetos de conservação
- Plano de recuperação dos corais-chifre-de-veado e galhada-de-alce · NOAA Fisheries (Estados Unidos)
- Plano federal compartilhado com o Acropora palmata, com equipe consultiva de implementação que se reúne ao menos uma vez por ano, e ações que incluem viveiros de corais, replantio, criopreservação de esperma e coleta de desova para criação em laboratório.
- Viveiros e replantio nos Florida Keys · Coral Restoration Foundation e parceiros
- Iniciado em 2007, cultiva fragmentos em viveiros submersos e os replanta em recifes. A sobrevivência inicial das colônias replantadas ficou entre 23% e 72%, mas caiu abaixo de 10% após cinco anos, segundo fonte secundária, o que mostra a dificuldade de manter as colônias diante do calor e da doença.
Como a espécie é protegida
A espécie é classificada como ameaçada pela Lei de Espécies Ameaçadas dos Estados Unidos desde 2006, com habitat crítico designado em 2008 em áreas da Flórida, de Porto Rico e das Ilhas Virgens Americanas. Consta também no Apêndice II da CITES e no Anexo II do Protocolo SPAW da Convenção de Cartagena. Regras federais proíbem importar, exportar, comercializar e coletar a espécie.
A proteção em campo depende de áreas marinhas protegidas, do controle de ancoragem e de poluição e da redução das emissões de gases do efeito estufa. Como nenhuma medida local protege contra o calor da água, a restauração com colônias mais resistentes é vista como parte de uma estratégia que ganha tempo, não como solução definitiva.
Curiosidades
- O nome científico significa, literalmente, relacionado a chifre de cervo, em alusão ao formato dos ramos.
- Pode crescer cerca de 5 cm de esqueleto para cada 1 cm existente por ano, um ritmo que a coloca entre os corais mais rápidos do Atlântico.
- Quebrar um ramo não mata a colônia: o fragmento pode se fixar e originar outra, geneticamente idêntica.
- Os pólipos são quase transparentes, e a cor do coral vem das algas microscópicas que vivem dentro deles.
- Pesquisadores já criopreservaram esperma da espécie para manter diversidade genética de reserva.
Fontes consultadas
- Staghorn coral (Acropora cervicornis). NOAA Fisheries, 2024. Consultar
- Atlantic Acropora Status Review Document. NOAA, Biological Review Team, 2005. Consultar
- Staghorn coral. Wikipédia (síntese com referências à IUCN), 2025. Consultar
- Acropora cervicornis. Wikipédia em português, 2025. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026
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