Ir para o conteúdo

Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 20 de outubro de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Coral-chifre-de-veado

Acropora cervicornis (Lamarck, 1816)

Coral ramificado de crescimento rápido que formava florestas submersas no Caribe e na Flórida, e perdeu cerca de 97% de sua população em poucas décadas por doença e aquecimento da água.

Descrição

Coral-chifre-de-veado (Acropora cervicornis)
Coral-chifre-de-veado (Acropora cervicornis). Foto: Zack Gilbert / Pexels.

O coral-chifre-de-veado é um dos principais construtores de recife do Atlântico ocidental. Suas colônias formam ramos grossos e cilíndricos que lembram a galhada de um cervo e, quando saudáveis, se estendem em emaranhados chamados de matas, que servem de abrigo para peixes jovens, camarões e muitos outros organismos.

Até os anos 1970, era um dos corais mais abundantes de águas rasas do Caribe. A partir de 1979, uma doença bacteriana, a síndrome da banda branca, destruiu populações inteiras em toda a região. Segundo a agência norte-americana NOAA, a redução chegou a cerca de 97%, e o que sobrou são sobretudo colônias isoladas ou pequenos grupos, com matas densas restritas a poucos locais.

A espécie é classificada como criticamente em perigo pela IUCN. Não consta na lista brasileira de espécies ameaçadas: a revisão científica norte-americana de 2005 informa que não há registros de distribuição da espécie para o Brasil, e que o gênero Acropora está ausente no Atlântico ao sul do equador. Ela foi incluída na biblioteca como exemplo das ameaças aos recifes de coral e como contraponto aos corais brasileiros.

Características físicas

As colônias são formadas por ramos retos ou levemente curvos, com 2,5 a 7,6 cm de espessura, que se bifurcam e crescem em todas as direções. A cor vai do castanho-dourado ao bege, com as pontas de crescimento brancas. Cada ramo é coberto por pequenos tubos de esqueleto, os corálitos, de onde saem os pólipos.

Colônias maduras e saudáveis podem ter centenas de ramos e ultrapassar 2 m de altura e de largura. O esqueleto é de carbonato de cálcio e é relativamente frágil: ramos se quebram com ondas fortes, e fragmentos que caem em substrato adequado podem se fixar e formar novas colônias idênticas à original.

Medidas registradas para a espécie
Espessura dos ramoscerca de 2,5 a 7,6 cm
Tamanho de colôniapodem passar de 2 m de altura e de largura
Profundidade usualem geral até cerca de 20 m, em águas claras
Crescimentoum dos mais rápidos entre corais do Atlântico, com ramos que crescem mais de 10 cm por ano em condições favoráveis
Maturidadecolônias começam a se reproduzir com cerca de 18 cm de altura

Habitat

Vive em recifes de águas rasas, claras, quentes e de salinidade estável, em encostas de recife, recifes de retaguarda, recifes de mancha e terraços de pedra calcária. Evita ambientes com muita turbidez e aqueles com ondas muito fortes, que quebram os ramos.

Em águas muito rasas, forma emaranhados densos, que funcionam como berçário de peixes e invertebrados. A dependência de luz é grande, porque a espécie obtém boa parte da energia de algas microscópicas que vivem nos tecidos, e por isso o aumento de sedimento e de nutrientes na água prejudica a sobrevivência.

Distribuição geográfica

Ocorre no Atlântico ocidental tropical: sul da Flórida e Florida Keys, Bahamas, Caribe e oeste do golfo do México. O limite norte conhecido é o condado de Palm Beach, na Flórida, onde a espécie é rara. Não ocorre nas Bermudas nem no litoral oeste da América do Sul.

A revisão de 2005 do governo dos Estados Unidos descreve registros históricos em países caribenhos como Belize, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia e Venezuela, e afirma que, mais a leste, no Brasil, não há registros da espécie, citando estudos brasileiros de 1986 e 1988. Isso concorda com a observação de que o gênero Acropora é ausente no Atlântico ao sul do equador.

Ocorrência registrada em: Estados Unidos, Bahamas, México, Belize, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Cuba, Jamaica, Haiti e República Dominicana.

Alimentação

Como outros corais construtores de recife, obtém a maior parte da energia — até cerca de 90% das necessidades nutricionais, segundo fonte secundária — de algas microscópicas do gênero Symbiodinium, que vivem dentro de seus tecidos e produzem açúcares pela fotossíntese.

À noite, os pólipos estendem tentáculos com células urticantes para capturar zooplâncton e partículas orgânicas. Essa alimentação complementar ajuda a colônia a se recuperar de estresses, mas não substitui as algas: sob calor extremo, os corais expulsam o simbionte e passam por branqueamento, e a colônia fica exposta a doenças e à fome.

Comportamento

É um animal colonial e séssil. Cada colônia é composta por milhares de pólipos geneticamente idênticos, que compartilham tecidos e nutrientes. A competição por espaço é intensa, e a espécie cresce tão rápido que supera quase todos os corais vizinhos enquanto está saudável.

A fragmentação é uma forma importante de expansão: tempestades quebram ramos que, ao se fixarem, geram colônias clonais. Isso ajuda a espécie a se espalhar rapidamente, mas produz populações com baixa diversidade genética, mais suscetíveis a uma mesma doença ou a um mesmo evento de calor.

Reprodução

A reprodução sexuada ocorre uma vez por ano, em liberações sincronizadas de gametas na coluna d'água, nas noites que seguem a lua cheia do fim do verão (em geral entre julho e setembro no hemisfério norte). Cada colônia produz óvulos e espermatozoides, mas raramente se autofertiliza, de modo que a fertilização depende da proximidade de colônias geneticamente distintas.

Com o colapso populacional, muitas colônias remanescentes estão distantes entre si, e a fertilização cruzada torna-se pouco provável. Esse é um dos motivos pelos quais programas de recuperação coletam gametas, fazem a fecundação em laboratório e criam larvas, enquanto outros usam fragmentos de colônia para cultivo em viveiros submersos.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Corais são avaliados por cobertura viva e por número de colônias, e não por contagem de indivíduos. A agência NOAA estima redução de cerca de 97% da população após a emergência da doença da banda branca nos anos 1980, e o que resta é formado em grande parte por colônias isoladas ou pequenos grupos. Em 2023, uma onda de calor marinho deixou a espécie funcionalmente extinta nos recifes da Flórida, segundo a literatura consultada. Não há estimativa do total de colônias.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Criticamente em perigo (CR). Risco extremamente alto de extinção na natureza em futuro imediato.

Ver a definição completa da categoria criticamente em perigo e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Doenças emergentes

    A síndrome da banda branca, observada pela primeira vez em 1979, causou perdas de até 95% da cobertura de coral em algumas áreas; colônias infectadas perdem em média cerca de 84% do tecido, e a mortalidade chega a perto de 28%.

  • Mudanças climáticas

    O aquecimento da água provoca branqueamento, que aumenta a suscetibilidade a doenças. A acidificação do oceano dificulta a formação do esqueleto de carbonato de cálcio.

  • Sobrepesca e captura acidental

    A retirada de peixes herbívoros deixa algas e esponjas crescerem sobre o recife, competindo por espaço com os corais e impedindo que as larvas se fixem.

  • Poluição e resíduos

    Sedimento, nutrientes e substâncias tóxicas de origem terrestre reduzem a luz disponível para as algas simbiontes e favorecem organismos que competem com o coral.

  • Ocupação e iluminação da costa

    Dragagem, obras costeiras, ancoragem e encalhes de embarcações quebram os ramos, e os fragmentos produzem populações geneticamente uniformes.

Importância ecológica

A espécie constrói a estrutura tridimensional dos recifes rasos do Caribe. Os emaranhados de ramos oferecem abrigo para peixes jovens, lagostas, camarões e outros animais, sustentam a pesca local e dissipam a energia das ondas, protegendo a costa de erosão.

A perda dessa estrutura reduz o refúgio disponível para a fauna e diminui a proteção contra tempestades. Como a espécie cresce rápido, foi historicamente a principal responsável pela expansão e pela recuperação de recifes após furacões, papel que hoje poucos corais são capazes de assumir.

Projetos de conservação

Plano de recuperação dos corais-chifre-de-veado e galhada-de-alce · NOAA Fisheries (Estados Unidos)
Plano federal compartilhado com o Acropora palmata, com equipe consultiva de implementação que se reúne ao menos uma vez por ano, e ações que incluem viveiros de corais, replantio, criopreservação de esperma e coleta de desova para criação em laboratório.
Viveiros e replantio nos Florida Keys · Coral Restoration Foundation e parceiros
Iniciado em 2007, cultiva fragmentos em viveiros submersos e os replanta em recifes. A sobrevivência inicial das colônias replantadas ficou entre 23% e 72%, mas caiu abaixo de 10% após cinco anos, segundo fonte secundária, o que mostra a dificuldade de manter as colônias diante do calor e da doença.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie é classificada como ameaçada pela Lei de Espécies Ameaçadas dos Estados Unidos desde 2006, com habitat crítico designado em 2008 em áreas da Flórida, de Porto Rico e das Ilhas Virgens Americanas. Consta também no Apêndice II da CITES e no Anexo II do Protocolo SPAW da Convenção de Cartagena. Regras federais proíbem importar, exportar, comercializar e coletar a espécie.

A proteção em campo depende de áreas marinhas protegidas, do controle de ancoragem e de poluição e da redução das emissões de gases do efeito estufa. Como nenhuma medida local protege contra o calor da água, a restauração com colônias mais resistentes é vista como parte de uma estratégia que ganha tempo, não como solução definitiva.

Curiosidades

  • O nome científico significa, literalmente, relacionado a chifre de cervo, em alusão ao formato dos ramos.
  • Pode crescer cerca de 5 cm de esqueleto para cada 1 cm existente por ano, um ritmo que a coloca entre os corais mais rápidos do Atlântico.
  • Quebrar um ramo não mata a colônia: o fragmento pode se fixar e originar outra, geneticamente idêntica.
  • Os pólipos são quase transparentes, e a cor do coral vem das algas microscópicas que vivem dentro deles.
  • Pesquisadores já criopreservaram esperma da espécie para manter diversidade genética de reserva.

Fontes consultadas

  1. Staghorn coral (Acropora cervicornis). NOAA Fisheries, 2024. Consultar
  2. Atlantic Acropora Status Review Document. NOAA, Biological Review Team, 2005. Consultar
  3. Staghorn coral. Wikipédia (síntese com referências à IUCN), 2025. Consultar
  4. Acropora cervicornis. Wikipédia em português, 2025. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026

Encontrou um erro? Relate uma correção

Continue a consulta

Espécies relacionadas

Selecionadas por proximidade taxonômica, ambiente compartilhado, estado de conservação e ameaças em comum com a coral-chifre-de-veado.

Ver a biblioteca completa
ENEm perigo

Coral-cérebro-brasileiro

Mussismilia braziliensis

Coral construtor de recife endêmico do Brasil, principal formador dos recifes do Banco dos Abrolhos e vítima…

  • Invertebrados
  • Zona costeira e marinha brasileira
  • Endêmica do Brasil
CRCriticamente em perigo

Tartaruga-de-pente

Eretmochelys imbricata

Tartaruga marinha de recifes, caçada por séculos pelas placas do casco usadas em artesanato, e a mais ameaçada das…

  • Répteis
  • Zona costeira e marinha brasileira
VUVulnerável

Mero

Epinephelus itajara

Maior peixe de recife do Atlântico, protegido por moratória de pesca no Brasil desde 2002, com recuperação lenta e…

  • Peixes
  • Zona costeira e marinha brasileira
VUVulnerável

Caranguejo-ferradura

Limulus polyphemus

Animal marinho de linhagem antiquíssima cujo sangue azul é usado em testes de segurança de medicamentos e vacinas.

  • Invertebrados
  • América do Norte temperada