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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 20 de outubro de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Cachorro-vinagre

Speothos venaticus (Lund, 1842)

Canídeo pequeno, de patas curtas e vida em bando, tão raro e discreto que pode ser fotografado uma única vez após milhares de dias de armadilha.

Descrição

Cachorro-vinagre (Speothos venaticus)
Cachorro-vinagre (Speothos venaticus). Foto: Michael Herren / Pexels.

O cachorro-vinagre é um dos canídeos mais incomuns da América do Sul. Tem corpo comprido, patas curtas, cauda curta e orelhas arredondadas, o que lhe dá uma silhueta mais próxima da de uma doninha que da de um cão. Vive em grupos familiares que caçam presas maiores do que ele, inclusive em tocas.

A espécie é extremamente críptica. Em um estudo na Mata Atlântica paulista, foram necessários 4.818 dias-armadilha, em 80 pontos, para obter uma única foto. Por isso a distribuição real é pouco conhecida e muitas áreas onde parece ausente são, na verdade, lacunas de amostragem.

O status de ameaça varia conforme a escala. Globalmente, a União Internacional para a Conservação da Natureza o classifica como quase ameaçado, mas no Brasil a espécie é considerada vulnerável, e em alguns biomas e estados a situação é bem mais grave.

Características físicas

É pequeno e robusto, pesa de 4 a 7 quilos nos dados brasileiros e tem pelagem castanho-avermelhada, mais clara no dorso que no ventre. A cabeça costuma ser mais clara, e essa cor pode se estender até a metade do dorso. Não há marcas faciais, e as orelhas curtas e arredondadas e a cauda curta o distinguem dos demais canídeos brasileiros.

Os dedos têm membranas entre si, o que levou à ideia de hábitos semiaquáticos. Estudos de telemetria mostraram, porém, que os animais usam locais distantes da água, e a hipótese atual é que as membranas e o corpo compacto ajudem a escavar e a entrar em tocas de presas como os tatus.

Medidas registradas para a espécie
Pesocerca de 4 a 7 kg no Brasil, até 8 kg em outras fontes
Comprimento do corpoaproximadamente 57 a 75 cm, sem a cauda
Altura na cernelhacerca de 20 a 30 cm
Gestaçãode 65 a 80 dias, média de 67
Ninhadade 1 a 6 filhotes, média de cerca de 3,8
Tamanho do grupode 2 a 12 indivíduos

Habitat

Tradicionalmente descrito como animal de floresta, o cachorro-vinagre usa também cerrado, campos e áreas abertas pouco alteradas. Estudos de telemetria no leste de Mato Grosso mostraram que os animais empregam ambientes naturais abertos e florestais em proporções semelhantes e evitam áreas muito perturbadas.

A maior parte dos registros vem de habitats em bom estado de conservação. Em uma análise em escala continental, cerca de 80% das localizações estavam em células de um quilômetro quadrado de habitat intacto. Isso sugere que a espécie é sensível à perda e à alteração de ambientes e depende de grandes blocos conectados.

Distribuição geográfica

O cachorro-vinagre ocorre do Panamá, e com registros recentes na Costa Rica, até o norte da Argentina e o sul do Brasil, a leste dos Andes. É reconhecido como raro quase em toda a sua distribuição, com densidades maiores relatadas no Suriname, nas Guianas e no Peru.

No Brasil, é amplo mas fragmentado na Amazônia, ocorre em Cerrado, Pantanal e na Mata Atlântica, onde os registros do sudeste e do sul se resumem a áreas como o Parque Estadual Carlos Botelho, em São Paulo, e a região do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. Não há registro confirmado recente na Amazônia central, embora ela esteja dentro da distribuição esperada.

Ocorrência registrada em: Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Panamá e Costa Rica.

Alimentação

É carnívoro e caça em grupo. No Pantanal e no Cerrado estudados por telemetria, o tatu-galinha foi a principal presa, e os cachorros-vinagre entram nas tocas ou as escavam. Na Amazônia, a paca e as cutias aparecem com frequência na dieta, e há relatos de ataque a presas maiores, como veados, queixadas e catetos.

Para um predador desse tamanho, o papel como regulador de roedores e tatus é relevante em áreas florestais. O hábito de caçar presas que se escondem em tocas e de dividir o alimento no grupo ajuda a explicar a necessidade de grandes territórios por bando.

Comportamento

Vive em grupos baseados em famílias estendidas, com um casal reprodutor e parentes que ajudam a cuidar dos filhotes. Os integrantes se comunicam com assobios e gemidos curtos, úteis para manter contato em vegetação fechada. Na natureza, é comum haver supressão reprodutiva entre fêmeas na presença da mãe.

A área de vida varia muito: em Nova Xavantina, Mato Grosso, um grupo usou cerca de 141 km² em área relativamente preservada, enquanto em outra região bem mais transformada o território chegou a 685 km². Em um grupo monitorado por cerca de 20 meses, o número de indivíduos caiu de 10 para 6, por ataques de moradores e de cães domésticos.

Reprodução

A gestação é curta, de 65 a 80 dias, e os partos podem ocorrer ao longo de todo o ano. A ninhada tem de um a seis filhotes, média de 3,8, e em cativeiro a fêmea pode conceber a partir dos 10 meses. Na natureza, acredita-se que fêmeas não se reproduzam antes dos quatro anos de idade, pois permanecem no grupo natal.

O tempo de vida registrado em cativeiro passou de 10 anos. Apesar da ninhada razoável, a baixa densidade e a alta mortalidade por doenças como sarna sarcóptica, parvovirose e raiva, além do abate, tornam as populações pequenas muito vulneráveis a perdas repentinas.

População estimada e tendência

Sem estimativa populacional confiável. Não há levantamento de abrangência suficiente para indicar um número total de indivíduos desta espécie, e qualquer valor apresentado como definitivo seria impreciso.

Não há estimativa global confiável. A avaliação brasileira calculou um tamanho efetivo de cerca de 9.350 indivíduos somando Amazônia (8.813), Pantanal (367) e Mata Atlântica (cerca de 178), considerando que o tamanho efetivo equivale a 10% da população de predadores de topo. Os valores dependem de densidades medidas em poucos grupos e devem ser vistos como aproximações. Um modelo de viabilidade para o Cerrado indicou probabilidade de extinção de 100% em 100 anos nas condições observadas.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Quase ameaçada (NT). Não atende hoje aos critérios de ameaça, mas está perto disso.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria quase ameaçada e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Perda e conversão de habitat

    O desmatamento, a exploração madeireira e o adensamento humano reduzem o território e as presas do cachorro-vinagre, sobretudo no Cerrado, na Mata Atlântica e na borda sul da Amazônia.

  • Fragmentação de habitat

    Os grupos precisam de áreas muito extensas. Fragmentos pequenos ou isolados abrigam bandos reduzidos, sem fluxo de indivíduos entre áreas, o que eleva o risco de desaparecimento local.

  • Doenças emergentes

    Raiva, parvovirose e sarna sarcóptica, adquiridas de cães domésticos, causaram alta mortalidade em grupos acompanhados por telemetria no Mato Grosso.

  • Conflito com atividades humanas

    Há registros de abate por moradores e por cães, inclusive de caça, que atacam e matam integrantes dos bandos quando a espécie se aproxima de áreas ocupadas.

  • Atropelamentos e barreiras de infraestrutura

    Rodovias que cortam áreas de ocorrência causam atropelamentos e isolam grupos que já vivem em densidade muito baixa.

Importância ecológica

Como predador social de roedores, tatus e outros mamíferos de médio porte, o cachorro-vinagre ajuda a controlar populações de presas e a transferir energia entre níveis da cadeia alimentar. A necessidade de grandes áreas conectadas faz dele um bom indicador de integridade de florestas e cerrados.

A espécie também aponta lacunas de conhecimento. Por ser difícil de detectar, sua presença reforça a importância de monitorar grandes áreas com armadilhas fotográficas e de manter corredores entre unidades de conservação, o que beneficia outros animais que usam as mesmas rotas.

Projetos de conservação

Estudo de telemetria de cachorros-vinagre no Cerrado · Pesquisadores ligados ao Pró-Carnívoros e a instituições parceiras
Monitoramento por telemetria de grupos em Nova Xavantina e Água Boa, no Mato Grosso, que gerou os primeiros dados sobre área de vida, uso do ambiente e mortalidade da espécie.
Monitoramento com armadilhas fotográficas no Parque Estadual Carlos Botelho · Pesquisadores do ICMBio e universidades
Levantamentos da fauna de mamíferos do parque, em São Paulo, resultaram nos registros fotográficos recentes do cachorro-vinagre na Mata Atlântica e nortearam o planejamento de novas capturas para estudo.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie consta no Anexo I da convenção internacional sobre o comércio de espécies ameaçadas e na Lista Nacional como vulnerável, categoria mantida na revisão de 2022. A avaliação do ICMBio, de 2013, ressalta que não há medidas específicas direcionadas a ela.

As recomendações incluem garantir conectividade entre áreas protegidas, ampliar unidades de conservação em todos os biomas onde a espécie ocorre, manter o Cerrado e as matas de galeria do corredor central do país, controlar a caça, vacinar e manejar cães domésticos próximos às unidades de conservação e divulgar a existência da espécie à população.

Curiosidades

  • A localidade-tipo da espécie é Lagoa Santa, em Minas Gerais, e o nome científico leva a autoria de Lund, de 1842.
  • Entra em tocas de tatu para capturar a presa, em vez de apenas correr atrás dela.
  • Em um estudo na Mata Atlântica foram necessários mais de 4.800 dias-armadilha para obter uma única foto da espécie.
  • Os membros do grupo mantêm contato por assobios e gemidos curtos, úteis quando a vegetação impede a visão.

Fontes consultadas

  1. Cachorro-vinagre — Speothos venaticus (Avaliação do Estado de Conservação dos Carnívoros). ICMBio, Biodiversidade Brasileira, 2013. Consultar
  2. Portaria MMA nº 148, de 7 de junho de 2022 (Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção). Ministério do Meio Ambiente / Diário Oficial da União, 2022. Consultar
  3. Bush dog. Wikipedia. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 20 de outubro de 2026

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