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Biblioteca de consulta sobre espécies ameaçadas de extinção

Base revisada em 18 de agosto de 2026

Taxfluxo Espécies ameaçadas

Albatroz-errante

Diomedea exulans Linnaeus, 1758

Ave marinha de maior envergadura do mundo, que cruza o oceano austral e morre em anzóis de espinhel, inclusive em águas brasileiras.

Descrição

O albatroz-errante tem a maior envergadura registrada entre todas as aves vivas e passa a maior parte da vida em alto-mar, retornando à terra apenas para reproduzir, em ilhas subantárticas remotas. Um único indivíduo pode percorrer dezenas de milhares de quilômetros por ano e dar a volta ao redor do continente antártico em poucas semanas.

Justamente essa amplitude o expõe a um risco difuso: os anzóis das linhas de espinhel usadas na pesca de atuns e espadartes. As aves mergulham atrás das iscas quando as linhas ainda estão na superfície, ficam fisgadas e afundam. A mortalidade ocorre em águas de dezenas de países e em áreas internacionais, o que torna a proteção dependente de acordos multilaterais.

Aves da espécie visitam águas brasileiras, sobretudo no inverno e na primavera, sobre o talude continental do Sul e Sudeste, onde interagem com a frota de espinhel nacional. Por isso, a espécie consta da lista brasileira de fauna ameaçada.

Características físicas

Possui a maior envergadura entre as aves atuais, com asas extremamente longas e estreitas, adaptadas ao voo planado de baixo custo energético.

A plumagem muda ao longo da vida: aves jovens são predominantemente escuras e vão embranquecendo com os anos, de modo que os indivíduos mais velhos são quase inteiramente brancos, com apenas as pontas e bordas das asas escuras. O bico é grande, róseo-claro e ganchudo na ponta, com narinas tubulares laterais — característica do grupo, ligada a um olfato apurado e à excreção do excesso de sal ingerido com a água do mar.

Medidas registradas para a espécie
Envergadura2,5 a 3,5 m, a maior entre as aves atuais
Comprimentocerca de 110 a 135 cm
Peso6 a 12 kg
Postura1 ovo por temporada reprodutiva
Longevidadepode ultrapassar 50 anos

Habitat

Vive em mar aberto no Oceano Antártico e nas águas subtropicais e temperadas do Hemisfério Sul, aproveitando os ventos constantes de oeste que sopram nessas latitudes para planar por horas sem bater asas.

Reproduz-se em ilhas oceânicas subantárticas, em áreas de vegetação rasteira e encostas expostas ao vento, que permitem decolagens. A escolha dessas ilhas remotas resultou historicamente da ausência de predadores terrestres — vantagem que se perdeu onde roedores e outros mamíferos foram introduzidos por embarcações.

Distribuição geográfica

Distribui-se circumpolarmente pelo Hemisfério Sul, em toda a faixa de ventos de oeste entre as latitudes subtropicais e a Antártica. As colônias reprodutivas concentram-se em poucas ilhas subantárticas, como Geórgia do Sul, Crozet, Kerguelen, Marion, Príncipe Eduardo e Macquarie.

Fora do período reprodutivo, os indivíduos dispersam-se por todo o oceano austral. Em águas brasileiras, ocorrem principalmente sobre o talude continental das regiões Sul e Sudeste, com maior frequência no inverno e na primavera, o que coloca a espécie em contato direto com a frota pesqueira nacional de espinhel.

Ocorrência registrada em: Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, França, Antártica, Oceano Antártico, Oceano Atlântico, Oceano Índico e Oceano Pacífico.

Alimentação

Alimenta-se de lulas, peixes e crustáceos capturados na superfície ou em mergulhos rasos, além de carcaças e restos flutuantes. Boa parte da atividade de forrageio é noturna, quando as lulas sobem à superfície.

Localiza alimento em grandes distâncias usando o olfato, capacidade incomum entre aves e ligada às narinas tubulares. Esse mesmo comportamento de aproveitar restos flutuantes é o que aproxima os albatrozes das embarcações de pesca, onde encontram descartes abundantes e, junto com eles, anzóis iscados.

Comportamento

Passa a maior parte da vida voando sobre o mar, alternando planeios que aproveitam gradientes de vento junto à superfície, técnica que permite percorrer enormes distâncias com gasto energético mínimo — o esforço metabólico em voo é comparável ao do repouso.

É solitário em alto-mar e social nas colônias, onde realiza exibições de corte elaboradas, com asas abertas, bico apontado ao céu e vocalizações. Os casais mantêm vínculo por muitos anos, frequentemente por toda a vida, e reencontram-se na mesma área da colônia a cada temporada reprodutiva.

Reprodução

Reproduz-se em ciclo bienal: o casal põe um único ovo, incubado por cerca de 78 dias, e cria um filhote que permanece no ninho por aproximadamente nove meses, alimentado por ambos os pais em viagens de forrageio que podem durar semanas.

Como o ciclo completo ultrapassa um ano, casais bem-sucedidos reproduzem-se apenas a cada dois anos. A maturidade sexual chega tardiamente, por volta dos dez anos. Essa é a raiz da vulnerabilidade da espécie: com uma taxa de reposição tão baixa, a morte de adultos em anzóis não é compensada, e mesmo mortalidade aparentemente modesta produz declínio populacional consistente.

População estimada e tendência

Estimativa: estimada em torno de 20 mil indivíduos maduros, distribuídos por um número reduzido de colônias reprodutivas

As estimativas baseiam-se em contagens de casais reprodutores nas ilhas, que são relativamente confiáveis, extrapoladas para o total da população considerando o ciclo bienal e a proporção de aves imaturas em alto-mar. Algumas colônias apresentam declínio contínuo documentado por séries longas de monitoramento, enquanto outras se mantêm estáveis, o que reflete diferenças na exposição à pesca de espinhel nas áreas usadas por cada população.

Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.

Estado de conservação

Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.

Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.

Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.

Principais ameaças

  • Sobrepesca e captura acidental

    É a principal ameaça. As aves mergulham atrás de iscas de espinhéis lançados ao mar, ficam fisgadas e afundam. A mortalidade atinge sobretudo adultos reprodutores, cuja perda é irreparável em curto prazo.

  • Poluição e resíduos

    A ingestão de plástico flutuante, confundido com alimento, é frequente e afeta especialmente filhotes alimentados pelos pais. Anzóis e linhas descartados também causam ferimentos.

  • Espécies exóticas invasoras

    Ratos e camundongos introduzidos em ilhas de reprodução atacam ovos e filhotes, que não têm defesa contra predadores terrestres.

  • Mudanças climáticas

    Alterações no regime de ventos e na distribuição de presas modificam as rotas de forrageio e o custo energético das viagens de alimentação.

Importância ecológica

Como predador e consumidor de carcaças em alto-mar, participa da ciclagem de nutrientes no oceano austral e transporta matéria orgânica marinha para as ilhas de reprodução, onde as colônias fertilizam solos pobres e sustentam comunidades vegetais próprias.

Albatrozes são também sentinelas do estado dos oceanos: por percorrerem imensas áreas e acumularem contaminantes e plásticos ingeridos, o exame de indivíduos e de restos regurgitados fornece dados sobre poluição marinha em regiões de difícil amostragem direta.

Projetos de conservação

Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis · Países signatários, incluindo o Brasil
Tratado internacional que estabelece medidas obrigatórias de mitigação na pesca de espinhel, como uso de linhas espantadoras de aves, lançamento noturno e lastro de linhas.
Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis · ICMBio
Instrumento brasileiro que define medidas obrigatórias para a frota nacional de espinhel, monitoramento de captura acidental e trabalho conjunto com o setor pesqueiro.
Erradicação de roedores em ilhas de reprodução · Órgãos ambientais de países com territórios subantárticos
Campanhas de remoção de mamíferos introduzidos em ilhas de nidificação, com recuperação documentada do sucesso reprodutivo após a erradicação.

Ver o panorama dos projetos de conservação.

Como a espécie é protegida

A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria vulnerável e é protegida pelo Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis, do qual o Brasil é signatário.

As medidas mais eficazes são operacionais e aplicadas a bordo: uso de linhas com bandeirolas que impedem a aproximação das aves durante o lançamento dos anzóis, lastro que faz a linha afundar rapidamente e restrição do lançamento aos períodos noturnos. Quando adotadas em conjunto, essas medidas reduzem drasticamente a captura acidental. A proteção das colônias, com erradicação de roedores introduzidos, complementa o esforço em terra.

Curiosidades

  • Tem a maior envergadura entre todas as aves vivas, podendo ultrapassar três metros de ponta a ponta das asas.
  • Plana aproveitando gradientes de vento junto à superfície do mar, o que permite voar por horas com gasto energético próximo ao do repouso.
  • Pode dar a volta ao redor do continente antártico em poucas semanas.
  • A plumagem embranquece com a idade: os indivíduos mais velhos são quase inteiramente brancos.
  • Casais mantêm vínculo por décadas e se reencontram na mesma área da colônia a cada temporada.

Fontes consultadas

  1. Diomedea exulans — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2018. Consultar
  2. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume III: Aves. ICMBio, 2018. Consultar
  3. Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis. ACAP, 2023. Consultar

Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.

Última revisão desta ficha: 26 de julho de 2026

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