Albatroz-errante
Diomedea exulans Linnaeus, 1758
Ave marinha de maior envergadura do mundo, que cruza o oceano austral e morre em anzóis de espinhel, inclusive em águas brasileiras.
- VUVulnerável
- Aves
- Ocorre no Brasil
- Também chamada de albatroz-gigante
Descrição
O albatroz-errante tem a maior envergadura registrada entre todas as aves vivas e passa a maior parte da vida em alto-mar, retornando à terra apenas para reproduzir, em ilhas subantárticas remotas. Um único indivíduo pode percorrer dezenas de milhares de quilômetros por ano e dar a volta ao redor do continente antártico em poucas semanas.
Justamente essa amplitude o expõe a um risco difuso: os anzóis das linhas de espinhel usadas na pesca de atuns e espadartes. As aves mergulham atrás das iscas quando as linhas ainda estão na superfície, ficam fisgadas e afundam. A mortalidade ocorre em águas de dezenas de países e em áreas internacionais, o que torna a proteção dependente de acordos multilaterais.
Aves da espécie visitam águas brasileiras, sobretudo no inverno e na primavera, sobre o talude continental do Sul e Sudeste, onde interagem com a frota de espinhel nacional. Por isso, a espécie consta da lista brasileira de fauna ameaçada.
Características físicas
Possui a maior envergadura entre as aves atuais, com asas extremamente longas e estreitas, adaptadas ao voo planado de baixo custo energético.
A plumagem muda ao longo da vida: aves jovens são predominantemente escuras e vão embranquecendo com os anos, de modo que os indivíduos mais velhos são quase inteiramente brancos, com apenas as pontas e bordas das asas escuras. O bico é grande, róseo-claro e ganchudo na ponta, com narinas tubulares laterais — característica do grupo, ligada a um olfato apurado e à excreção do excesso de sal ingerido com a água do mar.
| Envergadura | 2,5 a 3,5 m, a maior entre as aves atuais |
|---|---|
| Comprimento | cerca de 110 a 135 cm |
| Peso | 6 a 12 kg |
| Postura | 1 ovo por temporada reprodutiva |
| Longevidade | pode ultrapassar 50 anos |
Habitat
Vive em mar aberto no Oceano Antártico e nas águas subtropicais e temperadas do Hemisfério Sul, aproveitando os ventos constantes de oeste que sopram nessas latitudes para planar por horas sem bater asas.
Reproduz-se em ilhas oceânicas subantárticas, em áreas de vegetação rasteira e encostas expostas ao vento, que permitem decolagens. A escolha dessas ilhas remotas resultou historicamente da ausência de predadores terrestres — vantagem que se perdeu onde roedores e outros mamíferos foram introduzidos por embarcações.
Distribuição geográfica
Distribui-se circumpolarmente pelo Hemisfério Sul, em toda a faixa de ventos de oeste entre as latitudes subtropicais e a Antártica. As colônias reprodutivas concentram-se em poucas ilhas subantárticas, como Geórgia do Sul, Crozet, Kerguelen, Marion, Príncipe Eduardo e Macquarie.
Fora do período reprodutivo, os indivíduos dispersam-se por todo o oceano austral. Em águas brasileiras, ocorrem principalmente sobre o talude continental das regiões Sul e Sudeste, com maior frequência no inverno e na primavera, o que coloca a espécie em contato direto com a frota pesqueira nacional de espinhel.
Ocorrência registrada em: Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, França, Antártica, Oceano Antártico, Oceano Atlântico, Oceano Índico e Oceano Pacífico.
Alimentação
Alimenta-se de lulas, peixes e crustáceos capturados na superfície ou em mergulhos rasos, além de carcaças e restos flutuantes. Boa parte da atividade de forrageio é noturna, quando as lulas sobem à superfície.
Localiza alimento em grandes distâncias usando o olfato, capacidade incomum entre aves e ligada às narinas tubulares. Esse mesmo comportamento de aproveitar restos flutuantes é o que aproxima os albatrozes das embarcações de pesca, onde encontram descartes abundantes e, junto com eles, anzóis iscados.
Comportamento
Passa a maior parte da vida voando sobre o mar, alternando planeios que aproveitam gradientes de vento junto à superfície, técnica que permite percorrer enormes distâncias com gasto energético mínimo — o esforço metabólico em voo é comparável ao do repouso.
É solitário em alto-mar e social nas colônias, onde realiza exibições de corte elaboradas, com asas abertas, bico apontado ao céu e vocalizações. Os casais mantêm vínculo por muitos anos, frequentemente por toda a vida, e reencontram-se na mesma área da colônia a cada temporada reprodutiva.
Reprodução
Reproduz-se em ciclo bienal: o casal põe um único ovo, incubado por cerca de 78 dias, e cria um filhote que permanece no ninho por aproximadamente nove meses, alimentado por ambos os pais em viagens de forrageio que podem durar semanas.
Como o ciclo completo ultrapassa um ano, casais bem-sucedidos reproduzem-se apenas a cada dois anos. A maturidade sexual chega tardiamente, por volta dos dez anos. Essa é a raiz da vulnerabilidade da espécie: com uma taxa de reposição tão baixa, a morte de adultos em anzóis não é compensada, e mesmo mortalidade aparentemente modesta produz declínio populacional consistente.
População estimada e tendência
Estimativa: estimada em torno de 20 mil indivíduos maduros, distribuídos por um número reduzido de colônias reprodutivas
As estimativas baseiam-se em contagens de casais reprodutores nas ilhas, que são relativamente confiáveis, extrapoladas para o total da população considerando o ciclo bienal e a proporção de aves imaturas em alto-mar. Algumas colônias apresentam declínio contínuo documentado por séries longas de monitoramento, enquanto outras se mantêm estáveis, o que reflete diferenças na exposição à pesca de espinhel nas áreas usadas por cada população.
Tendência populacional: Decrescente — as estimativas indicam redução contínua no número de indivíduos.
Estado de conservação
Na avaliação global de risco de extinção, a espécie está classificada como Vulnerável (VU). Risco alto de extinção na natureza no longo prazo.
Na avaliação nacional brasileira, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a espécie consta como Vulnerável (VU). Listas nacionais avaliam apenas a parcela da população que ocorre no país, o que pode resultar em classificação diferente da global.
Ver a definição completa da categoria vulnerável e as demais espécies nessa situação.
Principais ameaças
Sobrepesca e captura acidental
É a principal ameaça. As aves mergulham atrás de iscas de espinhéis lançados ao mar, ficam fisgadas e afundam. A mortalidade atinge sobretudo adultos reprodutores, cuja perda é irreparável em curto prazo.
Poluição e resíduos
A ingestão de plástico flutuante, confundido com alimento, é frequente e afeta especialmente filhotes alimentados pelos pais. Anzóis e linhas descartados também causam ferimentos.
Espécies exóticas invasoras
Ratos e camundongos introduzidos em ilhas de reprodução atacam ovos e filhotes, que não têm defesa contra predadores terrestres.
Mudanças climáticas
Alterações no regime de ventos e na distribuição de presas modificam as rotas de forrageio e o custo energético das viagens de alimentação.
Importância ecológica
Como predador e consumidor de carcaças em alto-mar, participa da ciclagem de nutrientes no oceano austral e transporta matéria orgânica marinha para as ilhas de reprodução, onde as colônias fertilizam solos pobres e sustentam comunidades vegetais próprias.
Albatrozes são também sentinelas do estado dos oceanos: por percorrerem imensas áreas e acumularem contaminantes e plásticos ingeridos, o exame de indivíduos e de restos regurgitados fornece dados sobre poluição marinha em regiões de difícil amostragem direta.
Projetos de conservação
- Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis · Países signatários, incluindo o Brasil
- Tratado internacional que estabelece medidas obrigatórias de mitigação na pesca de espinhel, como uso de linhas espantadoras de aves, lançamento noturno e lastro de linhas.
- Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis · ICMBio
- Instrumento brasileiro que define medidas obrigatórias para a frota nacional de espinhel, monitoramento de captura acidental e trabalho conjunto com o setor pesqueiro.
- Erradicação de roedores em ilhas de reprodução · Órgãos ambientais de países com territórios subantárticos
- Campanhas de remoção de mamíferos introduzidos em ilhas de nidificação, com recuperação documentada do sucesso reprodutivo após a erradicação.
Como a espécie é protegida
A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção na categoria vulnerável e é protegida pelo Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis, do qual o Brasil é signatário.
As medidas mais eficazes são operacionais e aplicadas a bordo: uso de linhas com bandeirolas que impedem a aproximação das aves durante o lançamento dos anzóis, lastro que faz a linha afundar rapidamente e restrição do lançamento aos períodos noturnos. Quando adotadas em conjunto, essas medidas reduzem drasticamente a captura acidental. A proteção das colônias, com erradicação de roedores introduzidos, complementa o esforço em terra.
Curiosidades
- Tem a maior envergadura entre todas as aves vivas, podendo ultrapassar três metros de ponta a ponta das asas.
- Plana aproveitando gradientes de vento junto à superfície do mar, o que permite voar por horas com gasto energético próximo ao do repouso.
- Pode dar a volta ao redor do continente antártico em poucas semanas.
- A plumagem embranquece com a idade: os indivíduos mais velhos são quase inteiramente brancos.
- Casais mantêm vínculo por décadas e se reencontram na mesma área da colônia a cada temporada.
Fontes consultadas
- Diomedea exulans — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2018. Consultar
- Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção — Volume III: Aves. ICMBio, 2018. Consultar
- Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis. ACAP, 2023. Consultar
Divergências entre avaliações, quando existem, estão indicadas no próprio texto. Consulte a metodologia para entender como as fontes são hierarquizadas.
Última revisão desta ficha: 26 de julho de 2026
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